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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Emergência ambiental: um problema de comunicação

Monges caminhando na floresta - Tzido/Getty Images/iStockphoto
Monges caminhando na floresta Imagem: Tzido/Getty Images/iStockphoto
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

09/05/2021 06h00

"Mudança climática? Ah sim, o tempo está ruim. Desmatamento? Mas eu moro na cidade! Incêndios? É, infelizmente, às vezes acontecem. Extinção? Sim, ouvi dizer daquela onça rara."

Apesar de todos nos preocuparmos com o meio ambiente, na prática não nos sentimos muito próximos do que está acontecendo com o "mundo natural" — como se não fôssemos naturais! Não são muitas pessoas que entendem como a atual emergência ambiental já está afetando nossa vida, e vai prejudicar muito mais, em todos os aspectos.

Quando se fala em "clima", a primeira coisa que vem à mente é a previsão do tempo. Todos amamos a Amazônia, mas não entendemos como sua destruição — em nome de churrasco e hambúrguer — prejudica nosso ambiente (por exemplo, com seca e racionamento de água). Incêndios florestais, segundo as notícias, seriam fenômenos mais ou menos naturais, sem causa humana. Sobre extinção, lembramos de algum animal exótico mostrado na tela, sem imaginar a atual 6ª extinção em massa no planeta, que vai varrer da existência a maioria de todas as espécies vivas.

Isso não é só uma questão de conscientização. Reconhecermos que há um problema — na verdade, uma situação de emergência — é o primeiro passo fundamental para começarmos a tentar resolver isso. Infelizmente, ainda mal começamos a reunir forças para levantar a perna desse passo.

Há um problema de comunicação, que não se restringe ao silêncio climático da mídia.

É por isso que ativistas usam palavras mais fortes: "emergência climática" em vez de "mudanças climáticas", "extinção em massa" em vez de "perda de biodiversidade", "gases do aquecimento" em vez de "efeito estufa" etc. Já ajudaria simplesmente usar mensagens que realmente comunicam a seriedade da crise.

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Outro complicador para as pessoas entenderem o que está acontecendo é a própria complexidade do problema. Um exemplo de comunicação ambiental efetiva aconteceu durante a crise da camada de ozônio (hoje já estamos quase livres dessa ameaça). O problema era simples de ser explicado e solucionado: o uso de sprays com CFC estava criando um buraco na camada de ozônio, causando entrada massiva de radiação prejudicial à vida. Um buraco gigante é algo fácil de visualizar e, por isso, bastante preocupante.

Já a atual emergência climática e ecológica é muito mais complexa. Começando pelo fato de que são duas crises em uma (mudanças climáticas + perda de biodiversidade). No entanto, sacrificando um pouco a precisão em nome da comunicação efetiva, poderíamos resumir tudo assim:

Criamos um cobertor de poluição na Terra, e o aquecimento gerado está provocando eventos extremos que ameaçam tudo que amamos. Além disso, entramos em uma extinção em massa, causada pela devastação de nosso modo de vida, que cresce junto com o cobertor de poluição.

Essa imagem do cobertor foi criada pelo especialista em comunicação ambiental John Marshall.

O que fazer

Após reconhecermos que estamos diante de um problema sério a ponto de mudar para pior todo o ambiente de nossas vidas, tentar resolver é o desdobramento natural. No entanto, a própria variedade de soluções, no final, acaba criando outro problema: como não há união em torno do que fazer, há pouca ação efetiva. Assim, surge outro obstáculo de comunicação.

Por exemplo, o foco excessivo em ações individuais como mudanças de hábitos — "vamos reciclar, plantar árvores..." — desvia a atenção das causas políticas e econômicas, como os incentivos e privilégios governamentais que empresas poluidoras e destrutivas sempre tiveram. Assim, não temos como resolver isso se a sociedade não se organizar para cobrar governos e empresas.

Outro exemplo: devido ao culto do consumo tecnológico de nossas sociedades e economias, ficamos imaginamos que a salvação virá na forma de mais máquinas, produtos químicos e crescimento econômico. Assim, então, poderíamos continuar tudo como antes, como se nada nunca tivesse acontecido. Mas não foram exatamente essas máquinas e essa economia que criaram o problema?

No entanto, pelo menos uma ação individual realmente pode fazer muita diferença: reduzir o consumo de produtos animais. Além de responder por uma grande fatia das emissões de gases do aquecimento, a indústria pecuária também está intimamente ligada ao desmatamento, que por sua vez, aumenta as emissões e a extinção de espécies.

No final, também vale muito a pena sempre mantermos em mente o porquê de nos engajarmos ativamente na possível transição. Não estamos fazendo isso por ódio ao sistema predatório, por querer punir os destruidores, pela raiva de quem não respeita nossas vidas e faz tudo para explorar e lucrar.

Fazemos isso por um amor intenso por tudo que vive, começando pela natureza que pulsa em nós, por nossas crianças, amigos e amigas, que incluem outras formas de vida como animais, matas, bosques e florestas. Pelos rios, terra, ar, oceanos, céu e tudo que nos dá vida. Dessa maneira, pelo menos, garantimos que não cairemos no mesmo impulso destrutivo que está causando tudo isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL