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Mente Natural

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Narrativas da catástrofe ambiental

Imagens mostram fogo na região do Pantanal, devastada pelas queimadas que ocorreram em setembro de 2020 - Mauro Pimentel/AFP
Imagens mostram fogo na região do Pantanal, devastada pelas queimadas que ocorreram em setembro de 2020 Imagem: Mauro Pimentel/AFP
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

07/02/2021 04h00

É difícil tratar de emergência climática e ecológica sem mencionar as maneiras como essa história é contada, ou melhor, em como ela é negligenciada ou falsificada. Como ter conhecimento sobre o que está acontecendo é o fator-chave para uma possível mudança, se isso não for contado de modo apropriado, não há nem por onde começar.

A atual emergência ambiental é muito mais grave do que a maioria imagina. Ela não apenas ameaça as condições de vida das gerações futuras, mas já está causando devastação em muitas partes do planeta — vale lembrar que a covid-19 é resultado do desequilíbrio ecológico — sem falar na atual extinção em massa de espécies.

Caso continuemos com nossa inação, em um futuro desolador, nossos descendentes estarão se perguntando: "Por que deixaram isso acontecer? Por que nossos antepassados foram tão negligentes?" Como nós estamos causando isso, somos nós que temos que resolver o problema. Esse 'nós' é uma figura retórica bastante desgastada, mas aqui não há exagero nenhum: a resolução realmente está em nossas mãos: nas minhas, nas suas.

E, diante do pouco tempo que temos, infelizmente isso não se refere a apenas mudarmos nossos hábitos. Nossa melhor — e talvez última — chance é nos organizarmos coletivamente, exigindo mudanças, como as intensas mobilizações climáticas na Europa, por exemplo, têm demonstrado.

Problemas de narrativa

Boa parte da persistência desta crise se refere a falta de consciência na sociedade sobre a gravidade da situação. Essa responsabilidade é da mídia. Por exemplo, nas poucas ocasiões em que há notícias sobre mudanças climáticas, geralmente não há menção sobre a gravidade das consequências, ou a necessidade urgente de mudanças no modo como produzimos e consumimos energia. Isso é chamado de 'silêncio climático'. E o mesmo se aplica ao desmatamento e extinção em massa.

Outro problema de narrativa que acaba tendo um efeito paralisante é a amenização do atual desastre. Em geral, o público costuma rejeitar instantaneamente tons mais catastróficos, principalmente no que se refere ao meio ambiente. Então é preciso priorizar os aspectos positivos, o que está 'dando certo' etc. Essa é a abordagem padrão. Faz sentido. No entanto, fica a falsa impressão de que a solução já está bem encaminhada, de que o problema se resolverá por si mesmo — algo muito distante da realidade.

Há também o oposto, bastante comum em meios mais especializados ou nas redes sociais, em que há um foco intenso no desastre em si, com muitos números, termos científicos etc. Diante disso, a maioria das pessoas simplesmente vira a cara, preferindo não olhar, mesmo sentindo que isso no fundo é verdade.

Outra abordagem predominante na mídia sobre a solução da crise ambiental são as narrativas do 'crescimento verde' e da mudança de hábitos. Como o sistema econômico que busca um lucro infinito explorando a natureza escassa está na raiz de todo o problema, termos como 'desenvolvimento sustentável' já se tornaram obsoletos. Especialistas nessa área já demonstraram a falácia de uma 'economia desmaterializada', ou seja, a ideia de que é possível crescer sem devastar.

Já mudarmos nossos hábitos, apesar de ser essencial num nível individual, não há como isso trazer as mudanças sistêmicas no ritmo necessário. Mas medidas governamentais tem sim esse poder.

Outra narrativa, intencionalmente enganadora, é o negacionismo, muitas vezes aliado a teorias conspiratórias do tipo "aquecimento global é uma conspiração da esquerda", "o clima sempre está mudando...". Apesar dos danos desse tipo de desinformação, não há muito o que fazer sobre isso, além de alertar os incautos e não perdermos tempo e energia entrando nesse falso debate.

Silêncio climático

O já mencionado silêncio climático acaba sendo o fator número um que impede qualquer ação. Isso porque as medidas governamentais e corporativas necessárias dependem de apoio da opinião pública. Sem cobertura intensa e responsável na mídia — que ligue os fatos, apontando as causas e soluções — o debate não chega ao público em geral.

Apesar de o colapso socioambiental da civilização humana estar se desdobrando bem na nossa frente, não é incrível que isso não esteja sendo noticiado?!

Um exemplo do poder da informação diante da emergência climática e ecológica: no Reino Unido, onde a cobertura da mídia é muito melhor que a média, a opinião pública reflete isso, havendo amplo consenso na sociedade sobre a urgência da questão. E isso torna possível que o primeiro-ministro Boris Johnson — alguém no mesmo espectro que Trump ou Bolsonaro — abrace amplamente a agenda ambiental (pelo menos nos anúncios de medidas). Esse apoio da opinião pública também é o que permite as mobilizações climáticas massivas pela Europa, que estão tendo papel-chave nas novas políticas ambientais.

O silêncio climático (e ecológico) é mais intenso em países como o Brasil, onde a ausência no noticiário sobre o desastre que se desdobra é gritante. Curiosamente, um levantamento recente apontou que a preocupação do brasileiro com as mudanças climáticas está no mesmo nível de países como os EUA. Uma pesquisa do Ibope indica que 92% dos brasileiros reconhecem a existência do aquecimento global, 77% consideram que isso é causada principalmente por humanos e 71% teme consequências no curto prazo. Além disso, 77% pensa que o meio ambiente não pode ser sacrificado em nome do crescimento econômico.

Assim, não há porque a mídia em geral continuar negligenciando essa pauta — a não ser, infelizmente, devido à agenda política e econômica que algumas empresas de comunicação defendem abertamente, ou nem tanto.

Alerta

Em relação à narrativa que suaviza o perigo em que nos encontramos, talvez seja a hora de repensarmos a noção de que alertas catastróficos devem ser sempre evitados. Isso pode não ser tão coerente em situações como a atual, em que um desastre verdadeiro está se desdobrando, ameaçando nosso futuro.

Se nossa casa estivesse pegando fogo, faria sentido soltar um comunicado suave e neutro sobre o acontecimento? Soar o alarme diante de um perigo não é 'alarmismo'.

Essa narrativa mais neutra também é uma questão que afeta a divulgação científica. Relatórios científicos podem tentar informar sobre a alta probabilidade do colapso de nossas sociedades usando apenas números, gráficos e termos científicos obscuros. O jornalista estadunidense David Wallace-Wells, autor do best-seller "A terra inabitável", costuma apontar que um dos principais motivos por ele ter demorado para acordar para a emergência climática foi justamente essa narrativa neutra dos cientistas e da mídia.

Seu próprio livro, que costuma ser apontado como a "Primavera silenciosa" (o mais importante alerta ambiental dos anos 60) de nossa geração, narra o apocalipse para onde caminhamos com todas as letras, sem economizar em cenários aterrorizantes. E se tornou um best-seller mundial exatamente por isso.

Outro exemplo: no final do ano passado, os produtores da BBC na Inglaterra já esperavam um despencar de audiência quando levaram ao ar o programa "Extinção: os fatos", do consagrado documentarista David Attenborough. Geralmente é o que costuma ocorrer com mensagens sobre catástrofe ambiental. No entanto, foi exatamente o contrário: houve um pico de audiência sem precedentes para a programação.

Com bom senso, conhecimento e cuidado, é possível sim falar sobre a crise ambiental sem cair na frieza dos relatos que tratam os atuais desastres como se fossem fenômenos naturais, sem causa humana; ou então no extremo das abordagens 'líder de torcida' — que se concentra excessivamente nos poucos sinais animadores, ignorando as ameaças gritantes — ou do tipo 'profeta do fim do mundo', em que parece não haver mais nada a fazer, a não ser aguardar o pior.

Virar a cara

A atitude de não querermos olhar de frente para o problema, por ser algo muito horrível ou que se desafia nosso estilo de vida e consumo, acaba sendo a outra metade do problema. Por mais que a história esteja bem ali, contada da melhor maneira possível, ignorar é sempre uma tentação.

Quando escrevo ou falo sobre isso, incluindo exemplos de abordagens que têm tido sucesso como os movimentos climáticos, costumo escutar algum comentário do tipo "ah, que bom, que alívio! Já tem gente resolvendo o problema...". O objetivo de citar essas iniciativas era para estimular as pessoas a tentarem fazer algo, mas pode acabar tendo esse efeito contrário.

Outro exemplo: com o novo presidente dos EUA, há um clima mundial de alívio e otimismo em relação aos desafios ambientais. E com razão. No entanto, Biden não vai salvar o planeta. Seus opositores, que são muitos, já estão se articulando para neutralizá-lo. E apesar de sua versão do Green New Deal ser um salto quântico em termos de políticas verdes, muitos ambientalistas estão preocupados com o tom desenvolvimentista do pacote.

Por exemplo, a atual transição para energia renovável já iniciou um outro aspecto da crise ambiental: a exploração dos minérios raros usados em baterias de lítio e nos painéis solares. E como essa transição na verdade está apenas se somando ao atual consumo de energia fóssil — sem substituí-lo — em vez de redução de emissões, isso está causando um aumento.

Esse é um aspecto que demonstra a falácia da ideia de 'crescimento verde'.

Narrativa pessoal

Finalmente, há também um tipo de narrativa sobre emergência ambiental que pode ajudar muito. Algo muito simples que todos podemos fazer: são nossas próprias conversas. Há paralisia por causa do silêncio climático. Um aspecto desse silêncio é basicamente não conversamos sobre isso, nem mesmo num nível individual — muitas vezes, porque esse tópico causa aquele silêncio desconfortável.

Conversamos sobre o que está na mídia, na maior parte do tempo. Como por enquanto não podemos contar com a mídia para isso, pelo menos podemos falar sobre isso entre nós. É a isso que 'opinião pública' também se refere.

Então simplesmente conversarmos honestamente em nossos círculos pode ajudar muito. Nessa narrativa, não é preciso esconder nossos medos e ansiedades, nosso temor quanto ao futuro de quem amamos, nossas dúvidas sobre o que fazer, nossa dor com a morte da natureza, nossa ânsia e saudade por partes do mundo natural que já não existem. É com base nesse reconhecimento mútuo de nossa imensa vulnerabilidade que podemos nos fortalecer, para mudar essa história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL