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Coronavírus: memórias de quando a perda bateu na minha porta em 2020

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

04/06/2020 12h48

Em algum lugar a tristeza deve ser suportável, deve ter algum lugar dentro da gente que topa enfrentá-la.

2011. Perdemos meu irmão. Não sei nem medir a dor (você já perdeu um irmão?). Meus amigos estavam lá, me esperando. Todos reunidos na sala da Carol para me abraçar e acolher. Não, não, não. Não era possível, meu irmão era a melhor pessoa do mundo e morreu atropelado? Qual a razão? Não fazia nenhum sentido.

2013. Perdemos o Alan, de forma dura e dolorosa. E lá estávamos, na sala da Carol. Sem entender, mas juntos e absolutamente revoltados. Óbvio que não fazia sentido, o Alan era o cara mais legal de todos, não podia ser.

A sala da Carol, que também poderia ser a sala do Bal ou do Lucas, presenciava uma cena comum: nós, reunidos. Juntos nas tantas perdas e outros processos dolorosos de nossa vida em comum. Dormimos no carro esperando amanhecer durante o velório. Andamos de mãos dadas para segurar aquela dor imensa que sentíamos.

Eu sei, o texto está triste, mas os dias e as notícias não ajudam.

2020. As mensagens sobre o estado de saúde do Tio Hélio eram diárias. A esperança também: um clima de preocupação, com uma reivindicada certeza de que logo ele estaria em casa. Eu estava louca para ligar pra ele. Fiquei pensando o que ele acharia das nossas preocupações públicas na internet, já que ele estava tão presente nas redes sociais nos últimos tempos - sempre comentando minhas fotos, sempre dizendo que sentia saudade. Mas, na tarde de 2 de junho de 2020, na última terça, em meio a uma ligação de trabalho, o Bi me escreveu com a notícia. Um frase curta, seguida de um ponto final: "Meu pai, hoje, descansou".

Eu, em choque, liguei imediatamente para a primeira pessoa que me veio na cabeça, o Danilo. A gente nem soube se comunicar. Eu e Danilo, em choque. Na sequência liguei pra Carol, aquela da sala. Todos os pensamentos e reações eram involuntários. Eu apenas liguei, escrevi.

Nós, crianças. O Bar do Tio Hélio, no Colônia, era parada obrigatória. A gente comprava coxinha, tomava tubaína e já conversava pra caramba. Eu olhava pra aquele lugar cheio de gente sorrindo, conversando e brincando e achava aquilo demais. Como assim, quando eu vou poder colar pra cá?

Nós, adultos. O Bar do Tio Hélio continuava sendo parada obrigatória. Na adolescência, a gente cabulava aula e ia pra lá. Nem bebíamos ainda, mas vivíamos o tempo todo ali, no melhor lugar do mundo. Meu irmão olhando de longe a movimentação, os caras jogando truco, os meninos jogando bilhar, uma entra e sai - da banca de jornal do Paraíba, até a calçada do Hélio. Todo dia.

O Colônia é um bairro pequeno, todos se conhecem, crescemos com os mesmos amigos na escola, não precisava sair de lá para estudar fora. O Tio Hélio nos conhecia como ninguém, sabia tudo da gente, sabia o que a gente gostava, fazia as piadas certeiras, era o paizão que mantinha as portas abertas para qualquer escolha, qualquer decisão e qualquer festa.

As paredes cheias de imagens e fotos de décadas contêm toda a história da região e reproduzem a linha do tempo da nossa própria história. O bar do Tio Hélio era a sala de estar da nossa casa, das nossas vidas, que ele conhecia e sabia tão bem de de cor.

O luto nos traz uma tristeza profunda, aquela que atravessa nosso dia, aquela que chega do nada e produz a pior movimentação dentro do corpo. É um pouco de choro, um pouco de silêncio e uma vontade de estar com quem se ama. Não dá, não pode, o mundo não deixa a gente se abraçar agora. O choro entala e volta, pra lá e pra cá.

Eu nunca fui de aceitar a morte. Todas as vezes ela chegou rasgando tudo, tirando as coisas do lugar, derrubando pratos e copos.

A perda do meu irmão veio com a imediata responsabilidade de cuidar, lidar e arrumar tudo - do choro da minha mãe à burocracia da escolha do caixão, da escolha de tudo.

Se despedir requer burocracias internas e externas, mas nos traz o senso de responsabilidade e de reinventar quem somos. E tudo isso pode se dar de forma misturada, com dor, tristeza e revolta. É, eu disse que não lido bem com perdas.

3 de junho de 2020. Às 15h, nos reunimos na sala da casa da Carol, mais uma vez. E não foi fisicamente, foi em pensamento e no coração. Vibramos pela passagem do Tio Hélio, e estávamos, mais uma vez, juntos, mesmo que longe uns dos outros e sem acreditar que perdemos alguém brilhante para uma doença que está matando milhares de pessoas no mundo.

O Hélio é parte de quem somos, é pedaço da família construída nesse bairro chamado Colônia Paulista.

Tio, na minha memória, estou agorinha saindo de casa cheia de fome, passando no Lucas e arrastando ele para o bar. Entramos até o fundo do bar, pegamos uma coca ks, uma coxinha e sentamos no banco pra conversar. Por horas. Você fez um bem danado para o mundo, véio, cê nem imagina, né? Ou imagina.

Tio, as crianças aqui viraram pais, mães, tios, tias e estão aí pelo mundão, mas levam na lembrança a importância da vida no bairro, entre os nossos, um ajudando ao outro. Juntos. São essas lembranças - aquelas ali que estão ainda hoje nas suas paredes, que constituem quem nós somos hoje e quem nós vamos ser ali na frente. Esse bar - com você - era nossa segunda casa. Com Bi, Ronaldo, Rosana e a querida e muito amada Tia Luisa. Família imensa que nos acolhe e recebe todos os dias. Quanta história.

Você oferecia amor e afeto aos amigos. E sabia, que isso era também oferecer horizonte e caminhos. Nos ofereceu ensinamentos, história e proteção. Nos ofereceu algo que não era só você, mas era a sua presença em qualquer movimento. Obrigada por nos oferecer tantos horizontes.

E é assim que você, Tio Hélio, ficará guardado dentro da gente e de todos aqueles que tiveram o privilégio de cruzar a esquina da rua Carlos Rasquinho. Obrigado por tudo, Tio Hélio. Um beijo da Mari, folgada e que chegava varada de fome do trabalho, já soltando a mochila pelo bar e pegando uma coxinha, e que teve a honra de crescer ao seu lado. Termino com uma promessa: assim que tudo isso passar, voltaremos a nos reunir em volta da mesa de bilhar e faremos a despedida em grande estilo, juntos, como você gostava.

Mariana Belmont