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Bilhetes para pessoas que foram intensas

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

25/04/2020 04h00

Na semana passada, falei sobre carência e sobre como ressignificamos nossa relação com o sexo. Em outra vez, falei também sobre a nossa relação com o amor. Hoje quero juntar estes dois tópicos, mas de uma maneira um pouco diferente. Eu lembro de uma música da Alanis Morissette que ela simplesmente vai listando os caras com quem ela teve algum relacionamento e falando o quão importantes eles foram na vida dela.

Eu sempre fui iludida com o amor. Conheço a pessoa e já me apaixono, típico de uma canceriana. Tentarei fazer o que Alanis fez, sem citar nomes, é claro, com as pessoas que me foram intensas de alguma forma. Não poderei falar de todas as pessoas, mas algumas histórias rendem mais que outras.

Caro T., ainda lembro daquela tarde em que nos conhecemos, numa fila de um evento. Eu ainda era infeliz comigo, mas você de alguma forma tentou me fazer feliz, com sua loucura e sua inquietude. Você sumiu, foi pra lá e pra cá, e perdemos o contato bom. Reencontrei você recentemente e tudo bem, estamos perto, mas tão distantes. Espero que um dia, depois dessa confusão, você tenha um tempinho livre para tomar um café comigo e falarmos de tempos que foram bons.

Cara D., quando te vi pela primeira vez, fiquei impressionada. Alta, imponente, com cara de ser muito legal. Era legal te ver por aí, ainda que não nos falássemos. Você sabe, mostrar-se é difícil, e mostrar-se para alguém do mesmo gênero que o seu é ainda mais complicado. Quando você disse que já estava em um relacionamento, sem eu perguntar, não tive outra reação a não ser pensar que se eu tivesse tido coragem, poderíamos ter vivido algo bonito juntas. Mas isso pode ser apenas ilusão da minha cabeça muito criativa. Espero que você seja muito feliz neste relacionamento e que saiba que pode contar comigo.

Caro G., nos conhecemos da pior forma possível, num aplicativo, e abordei você da forma mais estranha possível. Seu gosto musical era muito bom; de certa forma, combinamos. Jazz, queijo, vinho, beijos, era o necessário. Mas morávamos longe um do outro. Adorava os nossos momentos de conversação à distância, era o que me enchia de ânimo em dias tão hostis. Quando pude te ver de novo, você não quis, e continua não querendo, não sei por quê. Espero que um dia alguém consiga preencher o seu vazio, assim como por um momento você preenche o meu.

Caro N., você era tudo o que eu não esperava numa pessoa. Muito novo, imaturo e afetivamente irresponsável. Mas de alguma forma tínhamos alguma química. Eu precisava daquele ímpeto de jovenzinha para repensar algumas coisas na minha vida. Em alguns momentos, fui fraca e histérica, tudo para conseguir algo que você não podia me oferecer. Espero que um dia você consiga amadurecer e entender melhor que somos responsáveis pelo afeto que damos.

Caro P., você não era perfeito, mas tentava te tratar como se fosse. Fui paciente e entendi seus problemas, que não eram poucos. Formávamos um casal tão bonito e você me aceitava do jeitinho que eu sou. Os seus problemas infelizmente falaram mais alto, e eu percebi que não podia pedir para ser uma de suas prioridades. E você sabe que eu não sou muito paciente; me afastar foi o melhor para nós naquele momento. Espero que um dia você consiga encontrar sua paz de espírito, e se sentir que precisa, falar comigo novamente.