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Consumo consciente contra crise do clima

Foco de incêndio no Pantanal, na região de Poconé, no Mato Grosso  - Amanda Perobelli/Reuters
Foco de incêndio no Pantanal, na região de Poconé, no Mato Grosso Imagem: Amanda Perobelli/Reuters
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

15/10/2020 04h00

Dias antes de fazer 101 anos, em julho, o cientista James Lovelock disse que simpatizava com a ideia de se criar um anteparo gigante que, colocado na órbita do Sol, dispersaria parte da luz solar que chega à Terra, a fim de estabilizar o clima global. Era um exemplo do que ele acredita que a humanidade pudesse ainda fazer para amenizar a destruição decorrente da crise do clima.

Lovelock é cético em relação às intervenções eficazes para reverter as catástrofes climáticas, tanto no plano individual como no comunitário. O cientista acha que já perdemos o momento de diminuir as emissões. Deveríamos ter começado nos anos 1970. Já desdenhou da eficácia de programas de diminuição de plásticos, do mercado de créditos de carbono. Defende o fim da queima dos combustíveis fósseis, segue advogando o uso de energia nuclear e, na mesma entrevista ao "The Guardian" que falou do guarda-sol descrito acima, disse que "começaram a aparecer sinais" de que as energias renováveis - eólica e solar -, se usadas corretamente, podem ser alternativas.

Lovelock é o pai da Teoria de Gaia, que sustenta que a vida na Terra é uma mecanismo comunitário autorregulado de organismos interagindo uns com os outros, e que foi um marco no pensamento sobre as relações entre atividade humana e a degradação do meio ambiente. Em um dos desenvolvimentos de sua tese, "A Vingança de Gaia", de 2006, disse que até 2020 climas extremos seriam o novo normal, causando a devastação no planeta.

Há muita discussão sobre a eficácia das medidas para conter a crise do clima, quais atos são mais potentes, se ainda dá tempo mesmo de fazer alguma coisa efetiva, se atitudes individuais contam e quanto contam.

Ao mesmo tempo, há milhares de projetos para mitigar essas mudanças. O programa Drawdown, fundado em 2014, vem pesquisando e coletando dados sobre práticas de vários países estimando seus ganhos em diminuição de carbono. Este ano, houve a primeira revisão da publicação de 2018, com o título de "Soluções climáticas para a nova década".

Nessa atualização, o programa defende que o planeta pode alcançar a virada - quando as emissões passam a diminuir - em meados deste século, se for feito o melhor uso de todas as soluções existentes. Se outras surgirem, ok, podem ser somadas, mas não há razão - nem tempo - para esperar por inovações.

A maioria das soluções reduz ou elimina o uso de combustíveis fósseis. Sua utilização para eletricidade, transporte e aquecimento atualmente impulsiona grande parte das emissões de retenção de calor em todo o mundo. Das 76 soluções incluídas no livro, 30% reduzem o uso de combustíveis fósseis, e quase 30% substituem inteiramente com alternativas.

Outro ponto do relatório do Drawdown é que não se alcançaria o ponto de mudança sem amplificar os captadores de carbono da natureza. Aí entram os processos biológicos relacionados ao uso e conservação da terra e da biodiversidade.

O combate ao desmatamento, a preservação de biomas, a recuperação de florestas tropicais e temperadas, a proteção aos rios, a agricultura regenerativa e a recuperação de solos com o uso da compostagem de resíduos orgânicos fazem parte desse escaninho de turbinar os captadores de carbono. A redução do desperdício de alimentos e a adoção de dietas ricas em vegetais restringem ao mesmo tempo desmatamento e emissões associadas.

"Existem apenas duas reações possíveis à mudança climática: resignação ou resistência. Podemos nos entregar à morte ou podemos usar a perspectiva de morrer para dar ênfase à vida", escreveu Jonathan Safran Foer em seu mais recente livro, "Nós somos o clima: Salvar o planeta começa no café da manhã".

O escritor de "Extremamente alto e incrivelmente perto" e "Comer animais", para citar dois de seus livros mais famosos, faz uma longa reflexão sobre as razões de agirmos tão pouco apesar de tudo que já sabemos sobre as mudanças climáticas. Após analisar motivos e sintomas dessa negação, Foer defende sua pauta principal: a redução do consumo de carne é fundamental para combater as mudanças climáticas, pois a pecuária é a principal fonte de gases do efeito estufa.

"A mudança climática é a maior crise que a humanidade já enfrentou, e é uma crise que, ao mesmo tempo, sempre se contemplará em conjunto e se enfrentará sozinho. Não temos como manter o tipo de alimentação com que estamos acostumados e também manter o planeta com que estamos acostumados. Temos de abandonar alguns hábitos alimentares ou abandonar o planeta. É simples assim", escreve Foer.

Até 26 calorias de alimento para gado são necessárias para produzir somente uma caloria de carne. Então, não, a agropecuária industrial não 'alimenta o mundo'. A agropecuária industrial faz o mundo passar fome enquanto ela própria o destrói.

Foer cita estudo do Worldwatch Institute estimando que a pecuária é responsável por 32 milhões e 564 mil de toneladas de CO2e por ano, ou 51% das emissões globais anuais — mais do que todos os carros, aviões, prédios, usinas de energia elétrica e a indústria juntos. "Não sabemos com certeza se a agricultura animal é uma das causas principais da mudança climática ou a causa principal da mudança climática. Sabemos com certeza que não é possível enfrentar a mudança climática sem confrontar a agricultura animal".

Hoje, 15 de outubro, comemora-se o Dia do Consumo Consciente. A ideia que move a data é que, sim, é possível agir individual e coletivamente, através das relações de consumo, para preservar os recursos do planeta.

Como se faz isso? Comprando muitas vezes menos. Usando e reusando mais. Economizando energia e água. Deixando de comprar produtos de empresas que estejam ligadas ao desmatamento, à poluição, à exploração ambiental, econômica e social em suas fábricas ou em suas cadeias de suprimentos. Defendendo a ideia de que a floresta em pé gera riquezas, absorve carbono e preserva os regimes de chuva. Comendo pouquíssima ou nenhuma carne. Andando a pé, de bicicleta ou transporte público. Evitando descartáveis. Reciclando resíduos e apoiando as mudanças na economia que reinsiram materiais pós consumo na cadeia de produção, para evitar extração de material virgem. Separando e compostando os orgânicos, atuando para que as cidades façam o mesmo. Favorecendo os comércios locais. Apoiando a agricultura familiar. Defendendo a proteção das abelhas e outros animais polinizadores e combatendo a utilização de agrotóxicos. Espalhando essas ideias nas comunidades. Acompanhando essas pautas na política tradicional.

Essa coluna, que estreia agora no UOL, pretende falar de coisas assim. Termino esse primeiro texto com mais um trecho de Foer:

Embora possa ser um mito neoliberal dizer que decisões individuais têm o verdadeiro poder, é um outro mito derrotista dizer que decisões individuais não têm poder algum. Tanto ações micro quanto macro têm poder, e, no que diz respeito a mitigar a destruição do nosso planeta, é antiético menosprezar qualquer uma das duas, ou proclamar que porque o grande não pode ser alcançado não se deve sequer tentar o pequeno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.