Julián Fuks

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Opinião

Quiseram calar a noite de São Paulo, mas ela ainda resiste

Não quero fazer injúria ao silêncio, que estimo como um amigo. Têm meu profundo respeito os taciturnos e os melancólicos, os amenos e os solitários, os chatos e os tediosos, os diligentes e os cansados, todos os que zelam pela mansidão da noite. Mas quero fazer hoje o elogio do ruído, da agitação eufórica, da música que invade os ouvidos e retumba no peito como um certo pulsar do mundo. Quero declarar meu gosto pelo encontro festivo num breu que se faz brilho, entre braços camaradas e olhos desconhecidos, meu apreço por aquilo que os rígidos insistem em reprimir.

Minha cidade já foi conspicuamente alegre, dessas que se julgam notívagas ou insones, dessas que desejam chegar despertas ao amanhecer, num suave torpor. Um dia, porém, o sono dos justos ressonou mais forte que o ruído dos ébrios, e decidiu-se por lei que era preciso calar a cidade, submetê-la aos ditames irredutíveis dos relógios e dos medidores de decibéis. Já não lhe era mais permitido vagar livre depois da meia-noite. A cidade devia se apresentar em casa à uma no máximo, sóbria e casta e lúcida e respeitável, apta para a labuta do dia seguinte.

Depois desse dia, quem se atreve a circular por suas ruas na alta madrugada ouve o orgulhoso triunfo do silêncio. Bairros antes repletos de cores e luzes tornaram-se sequências de fachadas deslustradas e sombrias, indistintas portas metálicas a esconder seus restaurantes e bares, seus botecos e tabernas, seus sambas e pagodes, seus redutos e abrigos, como se a essa hora se fizessem todos tão escandalosos que já não pudessem existir. Ao sonâmbulo andarilho que percorra sem saber esses caminhos, tão agitados na luz impávida dos dias, não resta mais que o susto da noite vazia e a constatação do poder sinistro do sossego.

Mas onde há poder, como ensinou um desses andarilhos festivos, há resistência. Tão fácil assim a cidade insone não dorme, não se resigna aos lençóis brancos e limpos ou à hipnose televisiva. Detrás das portas metálicas, sob letreiros apagados, por passagens furtivas, a noite paulistana sobrevive às escondidas, e há fervor na resistência, há amor e liberdade e um gosto inconfundível de vida. Em seu centro despovoado de pernas apressadas, ou em seus bairros recônditos, entre galpões e terrenos baldios, a cidade celebra ainda aquilo que a lei calou, de olhos fechados e braços erguidos.

Este é o ponto em que o texto se torna hesitante e pouco digno de confiança. Ninguém esperará que um pacato cronista de quarenta anos, casado, pai de duas crianças pequenas, saiba descrever os meandros da noite de sua cidade, suas exultações e seus desvarios. E de fato o cronista não sabe. Mas o caso é que chegamos, o cronista e a companheira do cronista, à tão esperada fase em que é possível botar as meninas para dormir na casa de algum amigo ou familiar generoso que apenas as observe, e então trocar nossas horas de sono por um breve e nostálgico êxtase coletivo.

E é assim que temos reencontrado a noite que perdemos, não pelas inconstâncias do sono infantil, mas pelas continências da ordem e da lei. E é assim que temos frequentado vastos salões nobres que se abrem acima de botecos insuspeitos, e pistas quentes à margem dos trilhos do trem, e aparentes domicílios que se franqueiam em salas e salas de entusiasmo febril, e terraços que estranhamente escapam à vigilância municipal, e entrepostos que a lei não alcança, e apertados porões onde os músicos se reúnem ao fim da noite, todos juntos à espera de um sol gentil. E é assim que temos descoberto que ainda vivemos numa cidade inquieta e enérgica, disposta a combater com música a ubiquidade do silêncio.

Não quero fazer injúria ao silêncio e aos silenciosos, repito, que sem dúvida merecem a paz que desejam. Mas quero sim encontrar palavras para desejos outros, que nada têm de condenável ou de indigno e que por razão nenhuma precisam ser relegados à clandestinidade. A cidade emudecida quer se fazer ouvir, e há quem queira ouvi-la. Suspeito serem muitos os desejosos que se recolhem às suas camas e ficam a contemplar o teto branco, mudos e inquietos e enérgicos como a cidade, sem saber que ela tem imensa vocação para aplacar suas ansiedades.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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