Julián Fuks

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Opinião

Carta ao amigo que partiu para o norte

Há tantos anos você rumou para o norte, que o sul não acusa a sua ausência. Numa carta entre amigos é preciso ser absolutamente sincero: o ar não se fere sem o seu nariz, nenhuma esquina aguarda a mansa aparição da sua silhueta, a cidade sobrevive em seu rumor indiferente, desaba e ressurge esquecida de você. Somos muitos aqui, somos milhões, corpos não nos faltam, é raro darmos conta de tanto vaivém. Não nos faltam risos e rusgas e distrações sutis, nem músicas e festas e quimeras, nem nostalgias e fomes e tristezas. Longos meses passamos, a cidade e eu, sem pensar em você, abstraídos e plenos, sem cogitar num breve lapso chamá-lo para um abraço ou uma cerveja.

E, no entanto, há estes dias em que a ausência se faz cristalina, dias em que todo o ruído da cidade enquadra um silêncio que pode ser seu. Talvez por uma angústia turva que não se deixa dizer, por uma aflição que o papel não aceita, um ânimo de confidência, a intenção de um segredo besta. Nessas horas em que só se deseja alcançar os ouvidos certos, e ocorre que os certos são aqueles que alguma vez acolheram anseios infantis, agonias caducas, dramáticas dores passageiras. Hoje me bastariam os ouvidos cansados de um velho amigo, muito mais que os olhos do leitor desconhecido — que me perdoe se aí estiver.

Precisava de um amigo, desses calados, distantes, que leem verso de Drummond, mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Amigo desses que reinstauram o passado num gesto qualquer, numa expressão de desdém, que num riso de escárnio dissolvem as dores do tempo. Amigo desses que não entendem o problema, e dizem coisas disparatadas, contam histórias insensatas, alongam-se sobre si mesmos. Amigo desses que erram conselhos, mas acertam silêncios. Precisava de um amigo, desses que reconhecem a fraqueza no corpo altivo, e recolhem do chão o homem rijo que não caiu.

Amigo querido, o curioso é que às vezes basta conceber a sua presença, imaginar as suas palavras, para que minhas angústias pequenas já não sejam as mesmas. Por isso muito me vale a sua existência, a mim mais do que à cidade, ainda que nos separe um hemisfério, ainda que tão pouco nos falemos. E aprecio, então, que a distância não seja o vazio, e a ausência não seja a morte, como não será por muitos anos. O certo é que essa módica façanha da imaginação e as breves palavras que aqui escrevo só reforçam a vontade de convidá-lo a uma cerveja, você aí e eu aqui, e entre nós o largo oceano em sua mudez.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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