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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O futebol existe porque a vida não basta

Messi conduziu a Argentina à final da Copa do Mundo 2022 para enfrentar a França                               -  AFP
Messi conduziu a Argentina à final da Copa do Mundo 2022 para enfrentar a França Imagem: AFP

Colunista do UOL

17/12/2022 06h00

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Sobre as semelhanças entre o futebol e a vida já se disse muito, o futebol como luta aguerrida, como choque de contrários, como expressão do ânimo universal para o conflito. O futebol como encenação dos dramas humanos mais extremos, da guerra entre nações, ou da vitória do indivíduo sobre os seus limites. Sempre estranho um pouco essa ideia, pelo tom triunfante e bélico, sim, mas também pelo que tem de incerto. Há momentos em que sinto o exato oposto: que o futebol não se parece em nada com a vida, e que esse pode ser seu valor maior, a razão do encanto que ele provoca.

Qualquer lição que se transfira do futebol para a experiência cotidiana resultará das mais equívocas. É total o descompasso entre o ímpeto esportivo, intenso e concentrado, e as lentas pequenezas da rotina. É total a inadequação dos lances futebolísticos ao curso regular da existência, feita de movimentos sempre conhecidos, apertos de mão, meneios de cabeça. Ninguém jamais em sã consciência deu um carrinho no meio da calçada e obteve qualquer coisa com isso. Longe de um campo de futebol, nunca vale a pena dar um peixinho — mais uma dessas palavras diminutivas que fora de contexto se tornam tão ridículas quanto o ato em si.

Há quem queira que vivamos com garra, gana, valentia, ou sob qualquer outra típica exortação esportiva. Mas o que pode fazer o homem comum ao despertar em sua cama de todos os dias, de que lhe serve se vestir com garra, passar o café com gana, escovar os dentes com valentia? Em seu trabalho fatigante e repetido, na fábrica, no escritório, na construção, na loja, na barbearia, é raro que lhe renda qualquer ganho uma tal ansiedade desabrida. Como em quase tudo, como na arte, como na escrita, muito mais úteis podem ser a serenidade, a paciência e a sábia aceitação do tédio que nos acompanha.

Mas eis então que o futebol apresenta a esse sujeito uma comoção desconhecida. Oferece a ele emoções puras, límpidas, a vitória e a derrota tão distintas entre si, o fracasso e o sucesso, a alegria orgulhosa ou a tristeza passageira. Ao fim de uma partida, ou ao fim do campeonato ao menos, revela-se a sina, cumpre-se o destino. O homem e seu time, o homem e seu país, venceram ou foram vencidos. Processou-se uma certeza que ele nunca alcançará sobre si mesmo, ainda que se olhe com atenção e rigor diante do espelho. A vida não oferece juízos claros a seu respeito, e isso pode suscitar nele alguma inquietude, algum desalento.

Se há um momento que jamais comporta desalento nenhum é o momento do gol, que provoca nesse sujeito, e em tantos outros como eu, um êxtase sensível, um arrebatamento. O gol é sempre uma improbabilidade, contra ele se esbatem zagueiros e goleiro num esforço enorme, e sua ocorrência é o mais próximo que se pode chegar do milagre. Não sei se na vida é possível alcançar vibração semelhante, se há algo de mais silencioso que equivalha a um eufórico gol. Me pergunto se deveríamos gritar gol, gritar com entusiasmo de locutor, a cada vez que encontramos na rua um amigo que não víamos há anos, ou a cada vez que ouvimos a palavra perfeita dita com precisão e humor.

É claro que há dores agudas no futebol, há tristezas lancinantes, há choros e indignações. Sinto, no entanto, que o que ali se vive ainda não é a dor, ainda não é a tristeza, que o pesar futebolístico guarda sempre algo de irônico, algo de jubiloso e libertador. Na vida as dores são mais ásperas, os pesares são mais entranhados e duradouros. Talvez daí se possa depreender, contradigo a mim mesmo, alguma lição: nas tristezas futebolísticas, que nunca são de fato tristezas, aprendemos a lidar com a tristeza real que nos aguarda em algum futuro. Nas derrotas menores aprendemos a aceitar a derrota maior, aquela de que ninguém jamais conseguirá escapar.

"A arte existe porque a vida não basta", escreveu o poeta Ferreira Gullar. Sobre a arte não sei se chego a concordar, não sei se ela não almeja quase sempre a se tornar vida, a se fundir com a vida, a se indiferenciar. Mas me sinto tentado a afirmar, isso sim, que o futebol existe porque a vida não basta. É parte da vida como toda atividade humana, e assim se torna sua cifra, metonimicamente a contém. Mas será sempre feito de matéria distinta, e isso é o que constitui sua liberdade, sua beleza, sua graça.

Ainda que o saiba falso, assistirei à final da Copa como quem contempla no espelho a própria face, a história de um país, o destino de um pai.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL