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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O cancelamento da cultura russa: tem sentido perseguir os artistas do país?

O escritor russo Fiódor Dostoiévski - Domínio público
O escritor russo Fiódor Dostoiévski Imagem: Domínio público

Colunista do UOL

05/03/2022 06h00

Aos 28 anos, Dostoiévski foi condenado à morte, esteve a poucas horas de enfrentar o pelotão de fuzilamento, por um triz não foi executado por subversão ao regime russo. No dia de sua execução, o tsar em pessoa decidiu rever sua pena, preferindo castigá-lo num campo de trabalhos forçados na Sibéria, onde ele passou quatro anos com grilhões literais presos às pernas, obrigado a produzir e carregar tijolos pesados, a queimar alabastro, a desmontar velhos barcos num rio gélido, congelando os pés. Quando enfim saiu, escreveu alguns dos livros mais contundentes sobre o que há de terrível e de farsesco em tantas ações humanas. Escreveu uma obra complexa que continha também um grau elevado de humanismo, de aceitação do diferente, de respeito à existência do outro e de seu pensamento, mesmo quando distintos dos seus.

Dostoiévski sobreviveu à prisão e ao exílio de uma Rússia cruel, ressuscitou dentre os mortos, como ele mesmo descreveu ao terminar de cumprir sua injusta pena, para agora, quase dois séculos depois, estar cancelado por ser russo. Neste estranho tempo de ações sumárias e levianas, algum burocrata de uma universidade milanesa por um momento julgou razoável cancelar um curso sobre o grande autor russo, um teatro de Gênova achou por bem desmarcar um festival dedicado a ele, e inúmeros cidadãos de Florença se mobilizaram para pressionar a prefeitura a derrubar a estátua com que a cidade o homenageia. Poucos exemplos refletem tão bem o grau de insanidade que por vezes alcança a cultura do cancelamento: de resistente aos arbítrios de seu país, Dostoiévski se converteu em representante do poder que sempre combateu — ou, tão absurdo quanto, de um governo que nunca conheceu.

Que é preciso repudiar o cruento e arbitrário ataque da Rússia contra a Ucrânia, que é preciso combater essa desvairada sanha de poder e de riqueza que resulta em enorme sofrimento, disso não deveria haver dúvida nenhuma. Mas é difícil enxergar como a perseguição a algumas figuras russas, mortas ou vivas, a escritores, artistas, esportistas, poderia ter qualquer eficácia em prevenir mais destruição e martírio. Pelo contrário, parece se esconder nesse gesto aleatório também uma sanha de violência, um desejo de aniquilar pessoas que pouco ou nada têm a ver com a guerra. Com a precária ilusão de atuarmos no conflito, obviamente muito maior e mais complexo, cometemos os nossos próprios crimes de guerra contra inocentes — ínfimos, inócuos, mas que ainda assim provocam algum sofrimento.

Penso em Anna Netrebko, a soprano russa obrigada a deixar a Metropolitan Opera por não ter repudiado Putin com suficiente veemência. Ela afirmou sua rejeição a uma "guerra insensata de agressão", conclamou seu país a encerrá-la de imediato, mas não citou nominalmente o presidente, que alguma vez apoiou, e por isso não foi poupada do cancelamento. Penso em Valery Gergiev, que perdeu seu cargo de maestro-chefe da Filarmônica de Munique não por ter dito algum despautério, mas por ter preferido o silêncio. Penso nos cineastas russos que não poderão apresentar seus filmes nos festivais de Glasgow, Estocolmo, Cannes, penso nos jogadores russos e nas jogadoras russas que este ano já não terão a chance de disputar uma vaga nas Copas do Mundo de futebol.

Em gatos russos não pensava até me deparar com a mais insólita das notícias: a decisão da FIFe, Federação Internacional Felina, de banir de suas competições qualquer gato criado por pessoas residentes na Rússia. O episódio torna tudo tão desorbitado e oportunista que só poderia nos levar ao riso. Mas, ao rirmos de um caso caricato, convém que não esqueçamos a gravidade que subjaz a toda essa conduta, inclusive no âmbito mais amplo da nossa própria espécie. As enormes sanções econômicas à Rússia podem ser medidas justas e necessárias neste momento, podem ser uma forma razoável de resistência contra a investida absurda do governo Putin, mas não deixam de infligir também elas uma dose grande de destruição e sofrimento para os civis russos, muitos deles críticos ferrenhos das ações militares de seu governo.

No contexto terrível em que vivemos nós, com o pendor do nosso próprio presidente à devastação e à indiferença pela dor alheia, não seria absurdo pensar um mundo que decidisse punir da mesma maneira as ações mais grotescas e violentas que aqui vemos. Teríamos então uma série de sanções e cancelamentos aos artistas brasileiros, perseguições aos esportistas, veríamos o empobrecimento ainda maior do povo e do país. Quanto nos revoltaríamos, e com tanta justiça, contra essa confusão indevida entre uma nação e seus indivíduos, entre as ações de um governo e aqueles que não deixam de ser também suas vítimas?

O que me pergunto é se não devemos dedicar esse mesmo olhar empático a alguns russos, à imensa fração dos russos que não está explodindo cidades ucranianas e vitimando cidadãos inocentes. Sobretudo, me pergunto se não deveríamos seguir a lição de Dostoiévski e conceber o humano como algo muito mais vasto do que os artificiais países. Compreender, como ele compreendeu na prisão, que nenhum sujeito se reduz às suas circunstâncias, que ninguém se limita à identidade que lhe impõe qualquer instituição questionável. Ler as palavras de Dostoiévski e enxergar o valor que elas afirmam, a noção de que "a vida é vida em toda parte, a vida está em nós, e não no que nos rodeia".