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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O fim do medo das ruas: ressurge agora essa possibilidade de luta?

21.fev.2021 -  Protesto contra o governo Bolsonaro em Brasília pede o impeachment do presidente - REUTERS/Ueslei Marcelino
21.fev.2021 - Protesto contra o governo Bolsonaro em Brasília pede o impeachment do presidente Imagem: REUTERS/Ueslei Marcelino

Julián Fuks

Colunista do UOL

29/05/2021 06h00

Talvez seja tempo de admitir, talvez seja a hora de uma verdade crua: andávamos, muitos de nós, com medo das ruas. Não me refiro, por ora, ao medo do contágio e da doença, ou do agravamento da pandemia que nos assola: isso não chega a ser medo, e sim cautela razoável. Falo de outra coisa, muito mais tênue e insondável. Falo de um medo que vem nos acometendo já há alguns anos, o medo de tomar as ruas com os nossos corpos e não provocar contágio nenhum, não comover, não engajar. O medo de nos movermos com força máxima sem alcançar nenhum impacto. O medo de sofrer o contragolpe, de ver as ruas tomadas por hordas que nos são contrárias, por figuras retrógradas que só repetem gritos velhos e brutais.

Não sei quem incluo nesse "nós" que aqui evoco, ou nesse "eles": sinta-se à vontade o leitor para se alinhar ao grupo que mais lhe apraz, ou para rechaçar a ambos; eu volto ao meu nós. Não se trata de um medo vago ou injustificado, esse nosso medo tem história. Tem feições nítidas, embora inexatas, o fantasma que nos assombra: são as jornadas de junho de 2013, cujo legado continua sob disputa acalorada. Há oito anos estivemos nas ruas, ocupamos com entusiasmo as avenidas de inúmeras cidades, fizemos ouvir por toda parte nossos anseios libertários. Esse poderia ser o resumo se não tivéssemos sido então atropelados por outra força, não a polícia, não as autoridades da hora, mas o vociferante furor reacionário que ali nos roubou a voz.

Sinto que é preciso falar com sinceridade: desde então têm sido difíceis as manifestações de rua, desde então as ruas têm sido palco de sucessivas derrotas. Nossos nãos, os seguidos gritos de resistência, não vai ter golpe, ele não, foram ignorados ou contrapostos por uma ação avassaladora. A cada vez tivemos que aceitar a decisão majoritária, por mais lamentável que logo viesse a se mostrar. A cada vez vimos se agravar a debacle vertiginosa, esse processo corrosivo que nos trouxe à calamidade de agora. Houve momentos duros nessa história. Não sei onde andaria o leitor, mas eu estava no Anhangabaú durante a votação do impeachment, eu era mais um entre os muitos rostos incrédulos e tristes. Ali ouvi Bolsonaro votando sim e exaltando o torturador de Dilma, naquela que talvez tenha sido a cena mais sórdida e mais simbólica da nossa recente história política.

Não bastasse esse medo das ruas tão compreensível, tão inelutável, um dia veio o vírus e nos trancou nas nossas casas, enquanto o senhor da sordidez continuava à solta arrasando o país. O vírus se fez a expressão contundente do próprio medo, dessa nossa constrição, dessa impotência para reagir. Mas foi tal o descalabro desde então, tal a violência e o acinte no exercício da política, e tanto se agravou e se prolongou desnecessariamente a pandemia, que algo de contrário ao medo se gestou. Contra um projeto tão explícito de morte e destruição, encontramos a clareza e a coragem de que carecíamos. O vírus nos exige o máximo cuidado, isso é certo, o vírus nos obriga a escolhas sensíveis, mas já compreendemos que um governante atroz pode ser mais fatal do que um vírus mortífero.

Talvez para a nossa própria surpresa, muitos estamos enfim prontos para reagir, prontos para esquecer os temores e reconquistar territórios perdidos. A mudança é muito perceptível: há um novo equilíbrio de forças no país, e as hordas que temíamos se reduziram a uma ruidosa minoria de sujeitos exaltados, de radicais irmanados no absurdo e na negação do consabido. Contra esses, somos muitos, e os que pudermos caminharemos unidos pelas ruas, ainda que escondamos os sorrisos sob máscaras e guardemos a distância segura. Quase não importa se nos sobrará ou faltará força neste sábado pandêmico. De um modo ou de outro, já sabemos que caminhamos para um novo tempo, em que o medo já não tome os nossos rostos, já não passe da pálida lembrança de alguns anos difíceis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL