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Por um pouco de ternura contra a hostilidade de cada dia

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

29/08/2020 04h00

Quero escrever sobre a ternura, palavra envelhecida. Quero escrever sobre essa coisa menor que nos abandona dia a dia, que vai cedendo lugar à irritação, à exaltação, à raiva desabrida, sobre essa coisa sutil cuja falta quase nem chegamos a sentir. Ternura talvez não seja a palavra exata. Eu poderia falar em delicadeza, afeto, gentileza, amabilidade, brandura, mas de nada adiantaria, todas elas são palavras anacrônicas, inadaptadas a este ano em que vivemos, a este país. Falo da ternura e num instante vou parar em lugar longínquo, envelheço trinta anos. E, no entanto, por que me sinto assim mais vivo?

Foi quando já se amainava um debate acalorado, uma dessas discussões que se fazem ásperas e nos envolvem num torvelinho de palavras duras, que recebi de um amigo que a acompanhara alguns versos bonitos: versos em que Drummond dizia estar proibido passear sentimentos ternos ou desesperados. Drummond parecia falar de algo completamente diferente, mas ainda assim pensei que não deixava de acusar a rispidez do nosso tempo, essa indisposição à conversa desarmada, ao tom sereno. Na ternura do poeta e do amigo encontrei algum sossego, e pude dormir mais tranquilo.

Resolvi então escrever sobre a ternura, e não sobre essa cultura da hostilidade que parece se fazer onipresente e imperativa. Nesse outro texto que decidi não escrever, eu descreveria como as discussões deste tempo têm sido marcadas por uma agressividade peculiar, por uma tendência ao julgamento sumário. Pela recusa a qualquer tentativa de compreensão do argumento alheio, de conciliação de ideias, de acomodação de contrários. Não raro a divergência inicial se perde na profusão de termos severos, e a discussão se torna um pretexto para externar acusações e impropérios - contra interlocutores presentes ou ausentes.

Na cultura da hostilidade, acreditamos flagrar a totalidade do outro numa única frase que diga, numa única ideia que expresse. A presunção é de que o outro, se está errado num ponto preciso, não pode senão estar errado em tudo o mais, em todo o seu pensamento, sua ideologia, não pode senão estar do lado errado do mundo. Divergências pontuais se tornam, então, abismos ideológicos intransponíveis. O outro passa a ser, irrevogavelmente, um inimigo a ser batido, expressão menor de um mal mais vasto, mais um representante daquilo que nos provoca a repulsa de cada dia, neste mal-estar difuso que a tantos domina.

A distância corporal desempenha um papel central na perpetuação da hostilidade - eu diria se fosse escrever o texto que não escrevi. Pessoas que, frente a frente, num jantar, numa festa qualquer, poderiam se tratar com bastante cordialidade, trocariam sorrisos sinceros e leves gracejos, até chegariam a nutrir uma simpatia mútua e genuína, agora se encontram no grande fórum dos debates austeros e se estranham, se indispõem, se descobrem antagonistas. Que nenhum deles queira investigar, agora, o que o outro anda dizendo a seu respeito. Triste fim lhes providenciou a distância: de amigos potenciais a ferozes oponentes.

Mas volto a tempo à ternura. Foi com uma variante delicada do termo que Clarice Lispector descreveu Chico Buarque, alguém que teria "a coisa mais preciosa que existe: candura". Um ar de bom rapaz, ela seguiu, que "vem da bondade misturada com bom humor, melancolia e honestidade". Mas Chico tem também, aponta Clarice, o sorriso "mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama". Veja-se o vídeo já icônico em que ele conta ter pesquisado na internet o que andam dizendo sobre ele; veja-se seu riso nervoso, estupefato, incontível. Mesmo ali ele preserva a candura e a inteligência, mas isso não impede que continuem a ofendê-lo com os mais estúpidos comentários. Se nem Chico sobrevive à cultura da hostilidade, quem conseguirá passar ileso?

Não, pode ir parando aí, Julián, alguém poderia me interromper. É claro que falta ternura hoje no Brasil. Como poderia não faltar ternura num país governado pela grosseria, num país que faz da violência um projeto de poder? E mais: como algo tão frágil e tão sutil quanto a ternura poderia servir de contraposição à violência exercida desde sempre, à opressão das minorias, ao racismo, ao sexismo, ao favorecimento das elites, à subjugação sistemática de seu povo sofrido? O país arde no fogo renovado de suas mazelas e você comete a desfaçatez de pedir ternura?

Tem razão esse sujeito que me interrompe. Estou com você, amigo rude. Mas não posso deixar de dizer que tem razão, mas não tem ternura. Mesmo que não tenha sido Che Guevara quem o disse, por que tantos quiseram repetir que é preciso endurecer, mas sem perder a ternura? A ternura talvez não nos ajude a vencer as muitas batalhas infindas, a ternura não derruba os brutos do poder. Mas pode nos ajudar a romper a bestialidade menor de cada dia, e pode nos ajudar a dormir melhor, enquanto a quimérica vitória não chega.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.