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Julián Fuks


Julián Fuks

No tempo da morte, a morte do tempo

A obra "A Persistência da Memória", criada por Dalí em 1931 - Reprodução
A obra "A Persistência da Memória", criada por Dalí em 1931 Imagem: Reprodução
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

25/07/2020 04h00

E então, num momento indefinível entre os primeiros raios do amanhecer e a luz ofuscante do meio-dia, o tempo deixou de fazer sentido. Não houve alarde, não houve ruído, nenhum estrondo que anunciasse algo tão atípico. Alguém poderia imaginar relógios paralisados, calendários embaralhados, dias e noites fundindo os seus limites e tingindo o céu de cinza, mas não houve nada disso. O tempo desprovido de sentido era um acontecimento coletivo, mas estritamente íntimo. Não provocava mais que um torpor, uma indiferença, um tipo peculiar e profundo de desalento.

Difícil conceber a variedade de maneiras como a inexistência do tempo afetou cada casa, cada indivíduo detido numa hora infinita. Uns aumentaram o ritmo de suas tarefas corriqueiras, cobrindo o silêncio com um automatismo de gestos, lavando as mãos incessantemente, limpando com obsessão salas, cozinhas, banheiros. Outros não conseguiram impedir que o torpor tomasse conta dos seus corpos, e assim se mantiveram atirados nos sofás, inertes e impotentes - acompanhando com atenção difusa as notícias sempre semelhantes a si mesmas, toda a matemática da tragédia. Era possível que algum resquício do tempo ainda se deixasse mensurar, não por minutos, horas, dias, mas por acumulação de mortos nos gráficos televisivos.

Tudo eu observava pela janela, passeando o olhar entre os apartamentos vizinhos, me distraindo com aquela vida em frestas que a paisagem me oferecia. No exato momento da morte do tempo, se bem me lembro, eu estava deitado na rede contemplando apenas as ruas vazias. Senti que aquele instante se desgarrava do anterior e do seguinte, eternizava-se em sua insignificância, ganhava peso. O que se produzia era um inchaço do presente, como se seu vulto engordasse tanto que ocultasse o passado e bloqueasse a vista do futuro inteiro. Mesmo dos dias próximos, dias ensolarados de liberdade e inocência, já me restavam apenas lembranças remotas, carregadas de nostalgia, à beira do esquecimento. Quanto ao futuro, era tão incerto que se cancelava completamente, tornando insensato todo plano que eu concebesse, todo amor que cobiçasse, todo livro que almejasse escrever. A paralisia do tempo, eu percebia, tomava de uma vez as casas e os corpos, condenando à imobilidade também as pernas, os braços, as mãos, a existência.

Naquele dia, ou em outro qualquer, o Brasil contabilizava mil e uma mortes. Suponho que o simbolismo do número tenha contribuído à falência do tempo, pois lhe roubava até mesmo os ponteiros fatais, esgotava a unidade de medida derradeira. As mil e uma mortes eram como as mil e uma noites, eram mil mortes e mais uma morte, eram infinitas mortes e mais uma, eram infinitas mortes. Uma população inteira descobria, num mesmo interminável instante, que era capaz de experimentar em vida o caráter extemporâneo da morte. Que não era nem preciso vivenciar a dor e a infelicidade para se encontrar fora do tempo, que bastava a iminência da dor e da infelicidade - bastava que essa iminência se tornasse ampla e impessoal para que toda a ordem temporal colapsasse.

E então, quando já não restava mensuração possível, quando tudo era desnorteio e temor e tédio, vi que não demoraram a aparecer os aproveitadores, os que queriam fazer da ausência do tempo um tempo velho. Pouco a pouco, embora tudo se assimilasse num só momento, os rostos mais frequentes nos jornais foram ganhando feições sinistras, suas vozes se fazendo mais sombrias, suas expressões se assemelhando cada vez mais às de outras décadas. Quem observasse com atenção podia ver nas maiores autoridades do país a imagem quase caricata de figuras anacrônicas - sob os ternos o contorno das fardas, na sombra dos sapatos a forma dos coturnos, em suas mãos canetas longas como cassetetes.

Ouvi-los podia ser mais desesperador do que examinar seus gestos e vestimentas. Suas declarações eram o eco de outras declarações, sempre estapafúrdias e violentas. Começavam por desdenhar mortes e medidas preventivas, e contradizer pesquisas científicas, e pregar o uso de um elixir capaz de extinguir a pandemia. Passavam pela necessidade de retomar o regime de trabalho em detrimento de toda consequência, o desejo de produzir e cortar salários e derrubar a mata e assim abrir terreno para crescer. Culminavam, sempre, na perseguição de toda voz que se alçasse contra eles, na afronta direta a críticos e dissidentes, no anseio de subjugar seus inimigos políticos, todos comunistas, terroristas, subversivos.

Quando se calavam, produzia-se algo mais do que silêncio. Naquele dia, ou em outro qualquer, o que se produziu em mim foi um princípio de claustrofobia e a necessidade irreprimível de partir, subitamente. Deixar para trás o apartamento em que me encerrei, deixar para trás aquela inércia coletiva em que eu me subsumia com passividade e inconsciência. Lembro que percorri as ruas a passos rápidos, e que os passos pareciam fabricar segundos, devolver à existência o compasso do tempo. Lembro que sentia alguma austeridade nas ruas vazias, nas sombras que se alongavam ominosamente, como se algo de obscuro e antigo pudesse me atacar a cada esquina. Ainda assim ansiava por ver o rosto de alguém, o rosto de outro que não fosse eu, de quem quer que fosse, um estranho, um desconhecido - qualquer rosto humano despido de máscara ou janela me seria suficiente.

Foi sem surpresa que cheguei à casa dos meus pais, embora aquele não tivesse sido um destino consciente. Toquei a campainha com a mão protegida pela manga do agasalho, e me afastei uns passos para guardar a distância recomendável. Meus pais saíram sem pressa, cada um carregando sua cadeira dobrada debaixo do braço, dispondo-a no jardim, a poucos metros da calçada. Em seus movimentos havia serenidade, quase paz, como se o encontro não tivesse nada de excepcional. Mesmo sendo esses seres pacatos, já foram eles os dissidentes, já foram eles os subversivos, militantes clandestinos erguendo-se contra a ditadura de outras décadas. São eles agora os mais vulneráveis à doença, e no entanto ali resistem, sobrevivem calmamente ignorando o meu medo.

Não lembro o que conversamos, mas é vívida a lembrança da imagem que compunham diante dos meus olhos, seus rostos pálidos vincados pelas décadas, ao fundo a casa da minha infância, suas paredes manchadas pelos anos de desatenção alegre, acima do telhado a copa da árvore que plantamos juntos, num dia remoto que se fazia presente. Naquela casa morava o tempo, e só de estar ali pude sentir que ele seguiria correndo, numa cadeia incontível de acontecimentos, e que um dia o tempo apagaria os obscuros homens que nos governam, e apagaria os meus pais, e apagaria também a mim, e seguiria correndo pelas ruas, pelas praças, pela cidade inteira, deixando em seu rastro um futuro inteiro. Podia haver algo de vertiginoso e terrível no pensamento, mas, não sei, naquele instante a certeza do tempo só me ofereceu um apaziguamento.

(Este conto faz parte do projeto Decameron, do "The New York Times", e foi publicado originalmente em inglês)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Julián Fuks