Eduardo Carvalho

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Ser pobre também não é pecado, João Camargo

O fim de semana parecia calmo com o início do mês. Mas só deu tempo de abrir os olhos e rolar a tela das redes sociais para ver que havia um debate pegando fogo sobre pobreza e riqueza no Brasil. Na verdade, sobre quem deveria pagar, em alto custo, por ter em grandes quantidades. Era um artigo publicado na Folha de São Paulo, escrito pelo empresário João Camargo, com quem quero conversar nesta coluna.

Meu caro João, nós não nos conhecemos, mas concordo com você: ser rico, claramente, não é pecado. Ninguém escolhe nascer nos Jardins, nas coberturas da Vieira Souto ou, tampouco, ter sobrenomes pomposos que remontam descendências estrangeiras que possibilitam cidadania em países europeus. Você também, provavelmente, não pediu para ter acesso a tudo que constituiu enquanto empresário, alinhado a um esforço individual que o colocou onde está, no lugar que representa na fila do pão. Deve ter trilhado um valoroso caminho para pavimentar sua figura e suas empresas. Mas eu preciso te dizer: ser pobre também não é pecado.

A taxação dos super-ricos, sobre a qual você tanto reflete e chega a questionar é o que justamente afeta e violenta a maior parte da população brasileira nesse exato momento, meu parceiro. Parte esta da qual você, felizmente e por seu mérito, não faz parte. Sim, João, eu tô falando de pessoas que vivem com (talvez) menos de dois salários mínimos, e que detêm em suas contas valores abaixo dos cinco dígitos. É provável que algum funcionário seu, na base, ganhe isso.

É sobre quem se tornou freelancer e também os que vivem na informalidade, sem nenhum amparo trabalhista que os permita viver com uma sensação, ainda que pequena de tranquilidade, sobre os custos do mês. E, ainda assim, rebola pra fechar as contas do mercado, dos serviços, da vida como um todo.

São essas pessoas a quem os impostos incidem mais, mesmo que elas acordem às 3h da manhã para conseguir chegar ao trabalho às 9h, enfrentam o ?busão? lotado, sem perder nenhum dia - mesmo quando os territórios onde vivem estão conflagrados. É sobre sair no meio do tiroteio, ganhar R$ 120 em uma diária e não ver seu esforço representado em políticas públicas que reparem as tamanhas desigualdades que permeiam a vida de nosso patropi, querido amigo. E, eu sei, você há de concordar comigo, que nada está bem.

A essas pessoas, resta um único sentimento: o de frustração, algo que você também deve sentir, por ser quem é e por desempenhar um papel importante enquanto empresário. Mas se você está se sentindo assim, imagina quem não é você, João. Exercitemos aqui, em conjunto, um rés de empatia. Acho que a balança tende a ficar mais alta para um lado e você sabe bem qual será?

Apesar das agruras, poucos são os espaços em que depositamos alegria. Ficamos felizes ao ver que, no Brasil, movimentos sociais ajudam; o SUS (ah, o SUS) funciona e chega a quem deve, sem priorizar ninguém. Mas ainda há desafios.

É preciso reconhecer que o Estado tem por obrigação ser tornar eficaz e efetivo. Ele precisa chegar, pra todos, mas em especial, a quem pouco tem poder de transformação em capital humano - pessoas e grana. No caso, você e alguns outros companheiros.

Vocês podem ajudar mitigando os impactos na fome, na extrema pobreza, em renda, em educação e no amplo desenvolvimento que tanto eu, quanto você, queremos para o nosso Brasil. É preciso que alguém repactue do outro lado o que precisa, de fato, ser feito. E você me parece ser um bom sujeito para isso.

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Não é querendo ir embora do país, caso aconteça a taxação, que resolvemos os problemas, tampouco eximindo-se das responsabilidades que atingiremos um outro patamar nesta conversa. Eu não quero me ater aos exemplos no exterior, apesar de serem, em alguns pontos, positivos e negativos. São do jogo. Mas nada é parecido com o Brasil, e isso deve ser apreendido como um diferencial para a promulgação de uma norma. Fugimos a regra ao apresentar cenários tão extremos.

Meu caro amigo, eu te convido a conversar com mais pessoas e ouvir sobre o assunto de maneira mais ampla. Nessa história, o ganho deve ser para todos, e está longe de ser algo ?comunista?. ?Felicidade? e ?dignidade? podem ocupar o mesmo espaço e o mesmo período da frase, onde também devem estar ?ricos? e ?pobres?. Do contrário, enxugamos gelo.

Termino esta carta com uma frase que li recentemente no livro ?O avesso da pele?, de Jeferson Tenório: "Se todo empresário fizesse sua parte, o Brasil já tinha tomado jeito". E aí, João?

Um abraço

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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