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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não há o que saudar, festejar ou agradecer, Olivetto: a fome bate à janela

"Deu para ver e entender, nunca uma leitura labial tão fácil de decifrar: "Tu pode ser meu cliente, tio?"" - Eduardo Carvalho
"Deu para ver e entender, nunca uma leitura labial tão fácil de decifrar: 'Tu pode ser meu cliente, tio?'" Imagem: Eduardo Carvalho
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

Colunista do UOL

06/07/2022 06h00

Da janela do ônibus eu vi. O pedido e o grito, mas não falado, escrito. No letreiro sem glamour, um conjunto de palavras que mais pareciam apenas e somente uma súplica ao Redentor. Não o de cimento, que coroava a cena que acontecia embaixo, mas aquele que tudo comanda.

"Eu só queria ter dinheiro pra comer" era o que um deles ostentava em um dos pedaços de papelão. Não inteiro, mas rasgado. Não era só de fome que ele precisava, mas de acesso à sala de aula, onde talvez nunca tenha posto os pés.

Já o outro trazia na mão a oferta de trabalho, barganha pela qual pode-se chegar ao tão sonhado prato de comida, o símbolo exato daquilo que desejam. Limpar o vidro do carro, o para-brisa, como sustento diário e, queira os Deuses que não, infinito. Deu para ver e entender, nunca uma leitura labial tão fácil de decifrar: "Tu pode ser meu cliente, tio?".

O interlocutor? Ignorou a reza. Olhou pra frente, fingiu demência. No carro, ao lado de uma companhia, fez que não era com ele, dando de ombros. A insistência da barriga vazia foi maior. Houve repeteco no pedido, mais uma vez silenciado. "Não, amigo. Não quero ser", declarou o homem que comandava um conversível branco.

Dos meninos, não sei muito. Mas sei que poderia ser eu, você. Ou melhor: são cerca de 33 milhões de brasileiros que agora passam fome ou estão em situação (mais deplorável ainda) de extrema pobreza, segundo dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, feito pela Rede Penssan.

No "planeta fome" de Elza Soares, enchem a boca pra falar dos problemas sociais. Você vai ver, já começou. Mas o que ninguém diz é sobre os dentes arreganhados, cheios de vontade de mastigar um misero grão de arroz. Uma cidade que não continua linda, um estado cada vez mais empobrecido.

Não há o que saudar, festejar ou agradecer, Olivetto. Entre as paisagens que permeiam o Rio, as extremidades são as pessoas, escancarando a feiura que é rezar pela oportunidade de comer.

Bem longe do carrossel de emoções inventado pelo prazer ‘’carioca’’ que sustenta o que não cabe na sociedade atual, vivido por seu filho e amigos.

O Brasil 2022 só caminha se colocar comida no prato de todos, com políticas públicas voltadas a área. Nessa seara, a retomada de projetos como o Fome Zero e o tão batalhado Bolsa Família, substituído após 18 anos pelo Auxílio Brasil.

Sem isso, nada foi feito. Acaba sendo o mais do mesmo. E, no fim, você também já sabe: o resto é armazém de secos e molhados.