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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um verão em que não nos faltou água potável

O colunista Edu Carvalho em sua casa - Arquivo pessoal
O colunista Edu Carvalho em sua casa Imagem: Arquivo pessoal
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

23/03/2022 06h00

Acompanhar, ansioso, o dia em que a água vai "cair" e enfim, dar continuidade a ações simples, como lavar louça, roupas, passar pano na casa, tomar banho e ter o prazer de beber água. Marcar, na folhinha que registra os dias, a data abençoada, já numa rotina que cria expectativas para que esse momento não demore. Assim é a minha vida e a de muitos onde vivo, a Rocinha, no contexto de pensar o abastecimento de água no próprio lar.

Não há morador de favela ou periferia que teça seus corres sem pensar na situação que é não saber se poderá trabalhar ‘’limpo’’, cozinhar ou ao menos fazer xixi sem saber quando a caixa pode estar cheia de novo. Uma apreensão que não acomete com tanta força aqueles que residem onde direito e acesso caminham juntos.

Atualmente, como rememora o site de notícias Fala Roça em publicação no Instagram, apenas três reservatórios dão conta do fornecimento de água na Rocinha. Juntos, os três registros abastecem cerca de 160 mil moradores, numa distribuição de 2,2 milhões de litros de água. O necessário para que toda a Rocinha fosse abastecida demandaria a criação de mais quatro reservatórios, que poderiam armazenar 4,8 milhões de litros, num total de sete milhões de litros. Mas o governo do estado suspendeu, em 2020, um investimento de R$ 2 bilhões em obras para saneamento básico.

Falo de minha aldeia para chegar no ambiente nacional e, por sua vez, mais amplo. É importante frisar que, no mesmo ano de 2020, o Congresso Nacional aprovou o novo Marco do Saneamento, que institui a entrega — com qualidade — dos serviços de saneamento básico no Brasil até a data limite de 2033. O esperado é que, até lá, 99% da população brasileira possa ter acesso à água potável e 90% a tratamento de água e esgoto. Parece distante, mas é só uma década. Dois mandatos presidenciais.

Em artigo publicado no site Maré de Notícias, a pesquisadora Julia Rossi pontua que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no mês passado, traçou impactos e riscos das mudanças climáticas nas cidades, que de certa forma também dizem respeito às favelas, regiões muitas vezes pensadas como não estando integradas às metrópoles. "As favelas sempre são os territórios mais afetados, e com meio ambiente não seria diferente. Além do direito à educação, saúde, segurança pública, também precisamos pautar o direito ao meio ambiente nas favelas, que está relacionado ao esgotamento sanitário, qualidade do ar, abastecimento de água, drenagem das chuvas e gestão adequada dos resíduos sólidos’’.

Penso ser um ano decisivo para o tema, a estar presente nos debates presidenciais e a níveis estaduais. Sem pressão pública que paute o acesso e continuidade de iniciativas que garantam direitos, pouco poderá ser feito para que a Agenda 2030, criada pela Organização das Nações Unidas, seja posta em prática — um dos 17 objetivos é o de água potável e saneamento.

Fecho o calendário de março, com as águas que caem do céu, louvando a Deus por ter tido esse ano poucas noites em claro e não precisar correr e encher baldes, garrafas e tonéis, num esforço de reservar água sabe-se lá para quantos dias. Um verão diferente, com água, e suplico que todas as estações possam ser assim.