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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Racismo sem máscara

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Imagem: iStock
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

29/09/2021 06h00

Em abril de 2020, bem na quinta-feira santa, veio o primeiro sintoma. Achei que era cansaço acumulado de trabalho, que vinha desempenhando "sem respiro" há semanas, as primeiras daquilo que achávamos durar apenas três meses e veja só, já são quase dois anos. Confesso ter me sugestionado de que não era nada. Veio a Sexta da Paixão, quando imola-se o cordeiro, o Sábado de Aleluia, até que no domingo, quando o Cristo renasce, padeci. Não conseguia respirar direito, tinha dores e tremores. No dia seguinte, a segunda, na frente da médica, ouvi o que não queria: ‘’você está com covid-19’’.

‘’Mas eu não posso morrer’’, pensei alto, quando recebi daquela mulher de cabelo liso, pele alva e olhos cor de mel um ‘’Vai ficar tudo bem’’. Estava eu dentro de uma sala num hospital renomado na Zona Sul do Rio, ligado ao plano da antiga firma. Na entrada, como eu, só os seguranças. A lembrança me fez retrucar, duvidando sobre as porcentagens para que eu acreditasse naquela fala que ouvia. ‘’Essa doença não escolhe gente, nem nada. Se você tomar os cuidados certos, ficará a salvo...’’, me disse a profissional, sem ao menos me encarar, quando a cortei. ‘’Eu sou negro’’. Não precisava ser intelectual acadêmico, epidemiologista entendido do assunto, para que dissesse aquilo. Na mente, a hipótese era certa: a doença acertaria em cheio pessoas que têm as mesmas características que eu, sendo elas homens e mulheres periféricos, pobres, faveladas e não brancos.

Resmunguei o tempo sem fazer nada, de que tinha contas para pagar, a necessidade de olhar a Luísa de perto para que ligasse o computador, às idas ao mercado para ajudar minha mãe, além dos desejos de um futuro só imaginado e nada vivenciado. Ela me recomendou repouso, quase dando de ombros as indicações sobre eventual agravamento do quadro. Felizmente, após 25 dias de périplo, isolado entre quatro paredes, estava curado.

Pouco mais de um ano, por meio de estudos, as reflexões e os medos sentidos durante o período quarentenado se tornaram mais que evidências comprovadas em análises feitas por profissionais realmente gabaritados, sem interferência e com ciência. De acordo com o mais recente boletim lançado pela Rede de Pesquisa Solidária, homens negros morrem mais por covid-19 do que homens brancos, independente da ocupação. Mulheres negras também são as que mais morrem do que variados grupos (mulher branca, homens brancos e negros) na base do mercado de trabalho, independente da ocupação. Eu estava certo.

Se para muitos a questão pode ser apenas referente ao perfil das vítimas que se foram pelo vírus, há na questão dos impactos para quem permanece vivo uma repetição dos mesmos personagens e CEPS. Na segunda (27), o coletivo Movimentos, organização que reúne jovens de diferentes favelas, lançou o mapa "Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras", pesquisa inédita sobre os impactos da pandemia da covid-19 em três grandes favelas da cidade do Rio de Janeiro: Alemão, Conjunto de Favelas da Maré e Cidade de Deus. O estudo realizado com apoio do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) demonstra como a população desses lugares foram afetadas pela pandemia.

Entre os cuidados para não infecção, fica difícil fechar a conta quando percebe-se, por meio da apuração, que a média de pessoas por cômodo das casas em favelas é de três moradores, o que cria ainda mais impossibilidade para o isolamento seguro.

Em relação às medidas de prevenção ao novo coronavírus, 54% declararam não ter conseguido fazer isolamento social durante a pandemia, principalmente pela necessidade de sair para trabalhar — motivo apresentado por 55% dos respondentes. No panorama, 93% dos entrevistados afirmaram conhecer alguém que teve covid-19, e 73% souberam de alguém que morreu da doença.

‘’Nós temos temos entendimento de que nossa vida, enquanto favelados, pretos e pobres, não importa para parte da sociedade e nossos governantes. E isso já podia ser percebido antes da pandemia, pela própria não garantia de direitos básicos’’, diz Aristênio Gomes, um dos coordenadores da pesquisa, ativista defensor dos direitos humanos e educador popular.

A um dia de terminar o mês em que discutimos sobre suicídio e saúde mental, para essas pessoas, os baques são grandes, não estando bem nem nos stories, tampouco fora deles. 76% dos ouvidos declararam ter algum distúrbio do sono; enquanto 43,1% alegaram ter algum nível de depressão. A ansiedade se faz presente também: 34% das pessoas disseram que este é o sentimento mais presente em relação à pandemia.

Num cenário onde morre-se por bala, vírus e fome, como pensar o dia de amanhã? ‘’A gente coleta essas vivências e a partir disso nós projetamos possíveis futuros menos danosos, menos prejudiciais para nossas favelas. Nós queremos que esses números cheguem a lugares que sejam possíveis de transformá-las. Não temos mais como seguir com essa realidade tão dura, tão dilacerante e genocida’’, enfatiza Ricardo Fernandes, morador da Cidade de Deus que também integra a coordenação do estudo.

Eu rezo e espero para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL