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#AdiaEnem

ADAILTON DAMASCENO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: ADAILTON DAMASCENO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

13/01/2021 04h00

Não faz muito tempo e era eu, ali, sentado na cadeira por dois dias. Diante de mim, uma prova, diversas questões, desejos e muitos medos. O preparo de um ano todo compartilhado com amigos e professores do pré-vestibular comunitário do qual fiz parte, o PECEP, com alunos das favelas da Rocinha, Vidigal, Pavão-Pavãozinho e Rio das Pedras, todas no Rio de Janeiro.

Com mãos trêmulas, tentei manter o prumo não só por mim, mas também por aqueles que partem do mesmo local que eu, e que veem, pelo prisma da desigualdade brutal, as dificuldades em adentrar na universidade.

É preciso de apoio para não desistir, horas de compenetração e acesso - a tudo. De livros didáticos à internet, de espaço para os estudos até alimentação, além, é claro, de saúde. Do contrário, tudo fica comprometido.

Para muitos, 2020 impossibilitou grande parte das coisas que listei acima. Mesmo quem tinha possibilidade de ter o mínimo, sente as carências de um ano letivo catastrófico, com reflexos já declarados neste ano que se inicia.

Poderíamos não estar discutindo isso, mas como dar mais ferramentas para que nossos alunos pudessem seguir, apesar do momento. Em julho passado, o Ministério da Educação fez junto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o INEP, uma votação onde 50% dos estudantes optaram pela realização da prova em maio de 2021.

Mesmo abrindo plebiscito, o governo impôs o mês de janeiro, onde vemos agora, no período pós-festas, um aumento significativo de contágio do vírus. Já na primeira semana do mês, chegamos a fatídica marca de 200 mil mortes e oito milhões de contaminados.

Tendo acesso a estes números, o INEP defende que o exame seja feito para não colocar políticas públicas que diminuam a disparidade social, como o FIES, o programa de financiamento estudantil, em risco.

Neste compasso, o país começa a voltar seus olhos, novamente, para Manaus, que onde o sistema de saúde tende a colapsar, o que não será diferente de outras capitais nas próximas semanas.

Como praxe na gestão Bolsonaro, pouco se tem levado em consideração os apelos dos profissionais de saúde e estudiosos.

Ainda assim, nos últimos dias, entidades como Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, a Abrasco, e outras 46 instituições, enviaram uma carta ao ministro da Educação Milton Ribeiro, destacando que para a realização do exames serão 30 alunos por sala por; que não há informação sobre ventilação dos ambientes e tampouco orientação para quem está com sintomas fazer a prova outro dia.

A ação vai ao encontro do clamor dos estudantes, que fazem, uníssonos, um único apelo: #AdiaEnem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.