PUBLICIDADE
Topo

#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como um entregador de aplicativo ganhou R$ 10 mil em um mês na Alemanha

Alexandre Ribeiro em um dia de trabalho em Berlim, na Alemanha - Arquivo pessoal
Alexandre Ribeiro em um dia de trabalho em Berlim, na Alemanha Imagem: Arquivo pessoal
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

14/01/2022 06h00

Você já se perguntou como é a vida de um entregador de aplicativo no Brasil? Muito provavelmente já, graças às reportagens mostrando as condições de trabalho desumanas, né? Mas você já se perguntou como essa mesma ocupação acontece no país da economia mais forte da Europa? Sim, esse é um texto que vai descrever meu trabalho de um mês como entregador de aplicativo em Berlim - e de como eu ganhei aproximadamente R$ 10 mil. E não, esse não é um texto patrocinado por nenhuma empresa (já que a em que eu trabalhei nem existe no Brasil). Por isso mesmo, gostaria de usar esse espaço da coluna #DaQuebradaProMundo para falar sobre um trabalho digno, para discutir a precarização do trabalho e de como a luta de trabalhadores por direitos é importantíssima para todos nós.

O aplicativo

O aplicativo em que eu fui entregador se chama "Wolt", uma empresa finlandesa de tecnologia que está em constante crescimento no mercado alemão — mesmo que outras empresas estejam anunciando a saída desse mercado. E por que as outras empresas estão anunciando saída? Leis trabalhistas rigorosas, uma tradição de organização sindical e um salário mínimo exigido para todos os trabalhadores, inclusive entregadores de aplicativo.

Da aplicação para o trabalho

Como eu fui parar nesse trabalho? Sinceramente eu comecei por desespero, por não ter outra opção tão rápida. E depois, permaneci por conta de boas surpresas. Como venho sempre contando por aqui, ganhei uma bolsa de estudos integral no Bard College Berlin para estudar Literatura e Retórica. É o que permite a existência do #DaQuebradaProMundo, desse jovem de favela que tem um visto de estudante na Alemanha.

O processo de aplicação para o meu visto de moradia na Alemanha foi longo, demorado. Durante essa espera eu não podia trabalhar e fiquei esperando vários meses gastando o dinheiro suado que havia juntado antes da faculdade. Mas em compensação, a velocidade do processo de seleção até começar o trabalho parecia até um golpe de tão rápido.

Eu recebi meu visto de moradia no dia 26/10, assinei o contrato com a empresa no dia 27/10, fui buscar os equipamentos e comecei a trabalhar no dia 28/10. Por conta dessa demanda gigantesca de entregadores de aplicativo, dois dias depois de receber a papelada eu já estava empregado!

Diferenças entre o Brasil e a Alemanha

Papelada e contrato. Esse é o primeiro tópico que mostra uma diferença gritante quando as políticas públicas de um país estão do lado do trabalhador. Todos os entregadores e entregadoras na Alemanha recebem um contrato de trabalho antes de começar. E isso quer dizer: direitos trabalhistas básicos como o direito a férias, recebimento em caso de atestado médico e salário mínimo. Enquanto isso, no Brasil, infelizmente os entregadores são vistos como "empreendedores" e não têm vínculo nenhum com as empresas. Estão completamente por si só nessa jornada.

Equipamentos. O segundo tópico que mostra uma diferença gigantesca - e que a meu ver desumaniza ainda mais o entregador - é o fato de que no Brasil os entregadores precisam pagar do próprio bolso se quiserem uma jaqueta ou a bag de entrega da empresa em que estão trabalhando. E o pior, se quiserem aceitar cartões, os entregadores têm que arcar com as próprias maquininhas! Do outro lado do planeta, no dia em que eu fui receber os equipamentos, me entregaram: uma jaqueta de verão, uma jaqueta de inverno, uma calça, luvas, máscaras, álcool em gel e a bag da empresa. O que é o mínimo a ser feito infelizmente me fez me sentir "como um rei" por lá.

Print mostrando ganho mensal no aplicativo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Print mostrando ganho mensal no aplicativo
Imagem: Arquivo pessoal

O sistema de pagamento. Assim como no Brasil, os pagamentos na Alemanha são feitos de acordo com o número de entregas que você faz por mês. Entretanto, por conta da questão contratual alemã, se você estiver online e não receber nenhuma entrega você é pago da mesma maneira: 11 euros (aproximadamente R$ 70) por cada hora do seu tempo que foi disponibilizado para a empresa. O que infelizmente no Brasil não é o caso, onde muitos entregadores passam horas e horas sem entregas e acabam enxergando os colegas de profissão como concorrentes. Na Alemanha, é criado um senso de pertencimento e sempre é assim: ou 11 euros por hora, ou o número de entrega que você fez no dia. O que for mais alto.

No mês de novembro de 2021, por exemplo, eu realizei 348 entregas, percorri 763 km e recebi 1.681,04 euros (aproximadamente R$ 10.655,02) líquidos na minha conta bancária. E isso trabalhando enquanto um estudante, que pode - por lei - trabalhar no máximo 20 horas a cada semana.

Treinamento fraco e um frio que congelou a ponta dos dedos

O pagamento é justo, mas o trabalho continua sendo trabalho. Lembram que em menos de dois dias eu já estava empregado, né? E eu acredito que esse ponto é uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que me ajudou muito financeiramente eu também comecei o trabalho sem nenhum treinamento, sem nenhum conhecimento de causa. Basicamente tive que aprender tudo - desde as leis de trânsito, até quantas camadas de roupa preciso usar para não morrer de frio e nem de calor - por meio do meu próprio aprendizado. E foi assim que descobri que o frio de -3º se transforma em um frio de aproximadamente -15º quando você está fazendo entregas pela noite. E que se você não tomar os devidos cuidados, pode perder o seu dedo para o frio e morrer congelado.

O lado belo da vida de um entregador

A melhor parte do nosso dia a dia é quando somos vistos, quando somos humanizados. É exatamente por conta disso que as gorjetas e refeições gratuitas são um oásis em meio ao nosso deserto do trabalho duro de correr contra o relógio e subir muitas, muitas escadas.

Quer se transformar em uma heroína, um herói? Nos encontre no meio do caminho nas escadas. Assim nem nós nem você precisaremos descer e subir todos os lances. Você quer melhorar o dia de um entregador? O dinheiro extra para o motorista é um ótimo começo, mas nós somos humanos, nossas complexidades vão além disso. Se você quer mudar o dia de um entregador, mostrar que ele importa, pergunte "Está tudo bem com você? Você precisa de algo?".

A maioria das vezes a resposta vai ser um simples 'não', mas é importante lembrar que todo ser humano por trás de um uniforme importa. É importante lembrar que os seres humanos vão além dos números. Que o gosto do nosso jantar não importa mais do que um trabalho precarizado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL