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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Carta para a Favela de um saudoso apaixonado

O colunista Alexandre Ribeiro - Lucas Sampaio
O colunista Alexandre Ribeiro Imagem: Lucas Sampaio
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

10/12/2021 12h10

Queridos, queridas e querides leitores, finalmente está chegando a hora. Depois de dois anos e meio morando na Alemanha — e atravessando uma pandemia em alemão — em 20 dias o colunista #DaQuebradaProMundo estará no Brasil. Dessa vez do mundo para a quebrada. Na coluna desta sexta-feira eu gostaria de ler para vocês uma carta escrita por favelado saudoso, gostaria de te relembrar os motivos de se apaixonar por nosso país chamado favela.

Berlim, 10 de dezembro de 2021.
Querida favela, querida quebrada,

Não posso me esquecer do poema do Sérgio Vaz onde ele diz:
"as quebradas estão mais quebradas do que nunca
e precisamos estar inteiros para consertá-las."

Eu estou voltando inteiro. Inteiro depois de coletar meus cacos.

Há poucas semanas vivi os piores dias da minha vida — assim como muitos de nossos moradores vêm vivendo há anos desde que um monstro tomou nosso país. O monstro da desesperança.

Minha mãe estava internada no hospital e, alinhado com os mistérios do universo, nós vimos uma das mulheres mais fortes da Favela da Torre em uma fragilidade que corta. Eu vi nos olhos de minha mãe os olhos d'água de Conceição Evaristo. Me lembrei da força no nosso combinado de não morrer. Enxerguei nos olhos dela o amargo retinto do sofrimento. O amargo do período em que vivemos, onde a dor é tão grande que ela nos sufoca — sufoca, mas não nos mata.

Não mata, quer dizer, não deveria. Ao enxergar a minha mãe naquele leito me solidarizei com as vítimas que se foram e com as famílias que aqui ficam. E me lembrei de aquecer a chama da indignação, a chama de uma luta para que o descaso com nossa humanidade seja responsabilizado, seja repreendido.

Ao enxergar a minha mãe naquele leito do hospital o meu mundo se despedaçou. Só conseguia pensar na tragédia que o nosso povo vem enfrentando nesses últimos dois anos. Entretanto, os detalhes divinos não me deixaram esquecer: mesmo no leito do hospital o sorriso foi nosso alimento mútuo para o espírito. Quando eu sorria minha mãe ganhava vida. Quando ela ganhava vida minha chama da esperança reacendia.

As lutas do passado e os avanços das políticas públicas deram acesso a um tratamento de qualidade e totalmente gratuito pelo SUS para a minha mãe. Quebrada, eu sei que o SUS não é perfeito, mas nós precisamos lutar com unhas e dentes para esse sistema não ser sucateado. Ele precisa ser melhorado.

Sem demora, a mamãe voltou para casa, e ainda se recupera. Na nossa última ligação ela me mostrou a favela da laje, onde o sol refletia por todo canto. Essa é uma carta de um jovem que tem saudade das trabalhadoras brasileiras guerreiras. Eu tenho saudade dos moleques que empinam pipas e gritam "manda busca". Sinto falta das feministas não teóricas do meu bairro que me ensinaram a respeitar as mulheres através da ação. Sinto saudade desse Brasil que, todo desengonçado e desajeitado, ainda nos lembra que é possível dar a volta por cima.

Eu tenho certeza de que a gente vai superar esse monstro. Os tempos à frente serão difíceis, mas quando foi fácil para nós? Eu espero que a gente possa seguir usando máscara até que todo mundo nesse planeta esteja vacinado. Que a gente possa se aglomerar daqui um tempo com responsabilidade. E que a arte, a literatura e a cultura sejam — como sempre foram e serão para mim — a veia aberta da nossa América Latina, do nosso país chamado favela.

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
Fernando Birri

Querida quebrada, querida favela: em 20 dias eu estou voltando inteiro. Inteiro depois de coletar meus cacos de sonho e de poesia.