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Fica Quilombaque e lançamento de livro sobre a vala de Perus

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Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

01/09/2020 11h02

A arte e a cultura na linha de frente contra a barbárie", Soró

No belíssimo documentário "Nostalgia da Luz", o cineasta chileno Patricio Guzmán revela camadas do tempo em um mesmo pedaço do deserto do Atacama. Entrevista astrônomos que explicam sobre o privilegiado ponto de observação das estrelas que existiram há milhares de anos. Estrelas também registradas nas décadas de 1970 e 80 por presos políticos de Pinochet, encarcerados em uma construção cuja estrutura foi feita pelos espanhóis, ainda no século 19, para uma espécie de campo de concentração indígena. Entrevista arqueólogos e mulheres que buscavam, havia cerca de 30 anos, restos mortais de seus entes queridos, assassinados pela ditadura militar.

No Brasil de 2020, quando já foram notificadas mais de 120 mil mortes por COVID-19, acontece um fenômeno em Perus, na periferia noroeste de São Paulo, de revelação de camadas do tempo, sem ter sido provocada por nenhum documentarista. Agora às 10h da manhã, a Comunidade Cultural Quilombaque disparou sua campanha de arrecadação #FicaQuilombaque, para garantir a permanência no território constituído há 15 anos. Às 18h, o Instituto Vladimir Herzog lança o 1º capítulo do livro "Vala de Perus: uma biografia", escrito pelo jornalista Camilo Vannuchi.

A 3 minutos de caminhada da estação de trem Perus, inaugurada em 1867, está o muro grafitado que abriga um quilombo urbano. No quintal de terra batida, há canteiros de ervas e hortas cultivadas com técnicas de permacultura; uma cozinha de pau-a-pique, resultado de bioconstrução; uma biblioteca; mais dois galpões, um de cada lado, com paredes coloridas, repletas de referências afro-brasileiras e imagens dos 15 anos de história do coletivo cultural e do entorno, que compõe o Museu Territorial de Interesse da Cultura e da Paisagem Tekoa Jopo'í.

Até a metade de março, a programação intensa da Comunidade Cultural Quilombaque incluia saraus, cortejos, shows, exibições de filmes, rodas terapêuticas. Com o início da pandemia, os galpões passaram a receber toneladas de cestas básicas e kits de higiene para serem distribuídos por 38 territórios vulneráveis de São Paulo. Até que, em agosto, o proprietário do terreno informou sua intenção de venda. Ou Quilombaque compra o terreno, no valor de R$ 300 mil, ou perderá o chão cultivado por 15 anos.

"Nós da Comunidade Cultural Quilombaque, movimento político étnico cultural regido pelos tambores, estamos completando 15 anos de muita luta e resistência no bairro de Perus, zona noroeste da cidade de São Paulo. Fizemos nascer um quilombo na periferia, nesta que sempre esteve condenada à fome e à miséria, desemprego em alta, julgada como o lugar do descaso, do abandono e da violência, e o que é mais grave, os adolescentes e jovens são castrados de uma das mais nobres funções relacionados à natureza humana - a de imaginar, de sonhar", registra o texto da campanha de arrecadação. Salve a "firmeza permanente", lema herdado dos queixadas, operários da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, que sustentaram uma greve não-violenta por sete anos, entre 1962 e 1969, a menos de quilômetros da sede da Quilombaque.

As violações de direitos da juventude negra de Perus, que motivaram a fundação da Quilombaque em 2005, coexistiram com as violações dos direitos trabalhistas dos chamados queixadas na década de 1960. Porque desde pelo menos a abolição, a política mais efetiva do Estado brasileiro para a população negra é o genocídio. Coexistiram, portanto com as violações de direitos humanos da ditadura militar brasileira. E no mesmo bairro de Perus, foi criada ilegalmente, na metade da década de 1970, uma vala comum, onde foram encontradas ossadas sem identificação de mais de mil pessoas. Parte delas, de militantes políticos autodeclarados, vítimas do regime. Parte, sujeitos políticos que não costumam ser assim percebidos, vítimas das execuções que nunca foram interrompidas. Quando se completam 30 anos da abertura da vala clandestina, o Instituto Vladimir Herzog divulga o primeiro capítulo do livro de Camilo Vannuchi "A vala: uma biografia".

É urgente lembrar, contar, buscar verdade e justiça. Pelos que já morreram e, principalmente, por quem permanece vivo. Em resistência. Fica Quilombaque!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.