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Ataques do governo Bolsonaro a mulheres jornalistas são denunciados à ONU

Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

07/07/2020 12h19

A relatora especial das Nações Unidas sobre a Violência contra a Mulher, suas Causas e Consequências, Dubravka Simonovic, focou seu informe anual ao Conselho de Direitos Humanos da ONU nas intimidações e ameaças contra mulheres jornalistas que têm crescido em todo o mundo. Além de abordar os desafios enfrentados por essas profissionais, a relatora fez recomendações de políticas e estratégias para que os Estados garantam a proteção a mulheres jornalistas.

A questão é que, no Brasil, o próprio presidente da república pratica e incentiva a violência contra mulheres jornalistas. Desde janeiro de 2019, Jair Bolsonaro e seus ministros atacaram mulheres jornalistas pelo menos 54 vezes, de acordo com levantamento da Artigo 19. Em janeiro, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) já havia contabilizado 208 ataques a veículos de comunicação e jornalistas ao longo de 2019. Sozinho, o presidente foi responsável por 121 desses ataques.

Segundo o relatório da ONU, as intimidações, ameaças e ataques contra mulheres jornalistas têm sido praticadas de inúmeras formas, com o objetivo principal de desacreditar e humilhar essas profissionais. Eu mesma fui atacada por Jair Bolsonaro de um modo curioso. Na tarde de 28 de maio, em sua live semanal, performando estar confuso com muitos papeis em suas mãos, o presidente leu uma manchete que nunca escrevi e me acusou de publicar fake news. Naquela semana eu havia publicado um texto sobre as relações da família Bolsonaro com a milícia acusada de assassinar Marielle Franco e Anderson Gomes.

Apesar das mãos tremendo enquanto ouvia Bolsonaro falar meu nome para seus milhares de seguidores, em um primeiro momento, eu mesma me perguntei se não havia sido citada por engano (ainda que fosse grave o presidente da república acusar uma jornalista de mentir, mesmo por engano). Mas é possível perceber o padrão sistemático de ataque a jornalistas que poderia gerar intimidações e tirar credibilidade da pergunta que tenho repetido com base em muitas evidências: afinal, o que liga Bolsonaro ao caso Marielle? A falta de respostas, mesmo depois da prisão de Queiroz e da perícia dos celulares de Adriano da Nóbrega reforçam como é importante que jornalistas repitam a pergunta.

Contei brevemente este caso no vídeo apresentado nesta manhã, durante a 44ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que acontece entre 30 de junho e 17 de julho, em Genebra, na Suíça. Falei em nome da Terra de Direitos e do Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos (IDDH), com apoio de outras 17 organizações da sociedade civil: Agência de Notícias Alma Preta, Artigo 19, Casa Neon Cunha, Coalizão Negra por Direitos, Cojira-SP - Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de São Paulo, Fenaj - Federação Nacional dos Jornalistas, Instituto Marielle Franco, Geledés - Instituto da Mulher Negra, Gênero e Número, Instituto Vladimir Herzog, Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Rede Nacional de Proteção a Comunicadores, Repórteres Sem Fronteiras, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, SOF - Sempreviva Organização Feminista, Uneafro Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.