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Caminhão arqueado: por que "máquinas mortais" ganham espaço nas oficinas

Caminhão arqueado pelo Posto de Molas Expedito - Reprodução Instagram
Caminhão arqueado pelo Posto de Molas Expedito Imagem: Reprodução Instagram

Paula Gama

Colaboração para o UOL

26/01/2022 11h00

Existe um consenso entre a indústria automotiva, a Polícia Rodoviária Federal e engenheiros e peritos sobre os perigos que os caminhões arqueados podem trazer para as estradas. Para esse grupo, além de agravar acidentes, já que a traseira levantada pode causar o 'efeito guilhotina' em quem bate atrás de um veículo desses, esse tipo de alteração reduz a estabilidade, facilitando o tombamento, saídas de pistas e outros problemas. Mas há quem pense diferente.

Para entender melhor o universo dos caminhoneiros que optam pelo estilo, UOL Carros conversou com quem melhor entende do assunto: os postos de molas responsáveis por essas alterações. Falamos com três das oficinas mais famosas do Brasil para esse tipo de serviço, e eles afirmam que, seguindo as recomendações do Inmetro, as alterações só trazem benefícios - o problema, segundo eles, seria que alguns motoristas passam do limite.

Posto de Molas Expedito também eleva a traseira de caminhões baú - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Posto de Molas Expedito também eleva a traseira de caminhões baú
Imagem: Reprodução Instagram

A elevação da traseira de caminhões normalmente é feita com o arqueamento do feixe de molas, através da ampliação da quantidade de lâminas ou da colocação de calços no sistema de suspensão traseira. Visando a aumentar a inclinação das longarinas do chassi, em alguns casos é feito também o rebaixamento da suspensão dianteira.

De acordo com Sidnei Ferreira, proprietário do Posto de Molas Santo Expedito, um pouco de altura dá mais estabilidade ao caminhão. "Estamos falando de pouca coisa, um reforço normal de 5 ou 6 molas, que acrescenta de 10 cm a 15 cm na traseira. Para esse trabalho, o consumidor paga em torno de R$ 8 mil, além das molas, o para-choque e a suspensão são reforçados", informa.

O posto de molas de Sidnei é responsável pelas alterações dos caminhões do famoso Cabelo Batateiro - uma das celebridades do universo dos caminhões arqueados que tem um veículo com traseira de 2,10 metros -, mas esse não é o carro-chefe da empresa, segundo o proprietário.

"Nós temos um negócio, estamos lá para fazer o serviço. Quando chega alguém querendo elevar a traseira em mais de dois metros, ou além do permitido pelo Inmetro, nós alertamos e explicamos os riscos. Essas pessoas não buscam estabilidade, buscam a beleza, pagam até R$ 20 mil pelas alterações. Mas essa é a minoria, a gente briga para trabalhar dentro do padrão permitido", esclarece o empresário.

Caminhão mais arqueado do Brasil tem mais de 3 metros de altura - Reprodução  - Reprodução
Caminhão mais arqueado do Brasil tem mais de 3 metros de altura
Imagem: Reprodução

Sidnei também tem outro argumento para as alterações na suspensão dos veículos: a crise econômica. Ele explica que, com o aumento do diesel e preço do frete congelado, os caminhoneiros precisam levar cada vez mais carga em uma única viagem.

"Na altura original você não consegue trabalhar, porque a suspensão não está preparada para receber nem mesmo para receber carga padrão. As pessoas botam mola por necessidade, com o valor frete muito baixo e diesel cada vez mais caro, precisam reforçar as molas para levar mais carga", opina.

Eduardo Soares, proprietário do Posto de Molas Trevo, também afirma que um caminhão arqueado é mais estável, mas garante que a maioria trabalha dentro dos limites do Inmetro.

"Um caminhão normal fica muito sem estabilidade na dianteira. Com molas de fábrica, ao colocar a carga, a traseira abaixa e a dianteira se ergue, o motorista perde a direção. Por isso, colocam uma ou duas molas de reforço, alguns aumentam um pouco mais a traseira. Isso não traz perigo algum para a estrada, é até mais seguro do que um caminhão normal", opina.

Segundo Eduardo, os caminhões com traseira altíssimas são preparados para exposições e eventos, não para a estrada. No entanto, no Youtube é possível assistir a vários vídeos de caminhoneiros que afirmam que trabalham com seus caminhões super arqueados.

"Os caras que continuam vivendo na boleira de um caminhão são heróis. Desde o começo da pandemia até agora, a mola teve quatro reajustes, o diesel não para de subir, sem falar nos outros insumos. E o valor do frete não mudou? Como essas pessoas vão viver? Estão se virando como podem. Para aumentar apenas uma mola, por exemplo, paga-se a partir de R$ 3 mil. É tudo por necessidade", garante.

Quando entramos em contato com o Posto de Molas Gaguinho, responsável pelas alterações no caminhão mais arqueado do Brasil, com mais de 3 metros de altura, fomos informados de que o sócio e gerente estavam viajando, por isso, não poderia nos atender. Também procuramos o posto na condição de cliente interessado em fazer alterações, e nos foi oferecido um trabalho dentro da altura recomendada pela legislação.

Afinal, o que é permitido?

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, a legislação vigente diz que veículos com peso bruto total superior a 3.500 kg (caminhões, caminhões-tratores, ônibus, reboques e semirreboques), com alterações no sistema de suspensão, devem atender a alguns limites e exigências:

1 - O nivelamento da longarina não pode ultrapassar dois graus a partir de uma linha horizontal;
2 - O proprietário do veículo deve obter um Certificado de Segurança Veicular (CSV), emitido por uma Instituição Técnica Licenciada (ITL) credenciada pelo INMETRO, mediante inspeção de segurança veicular que comprove a segurança da alteração do sistema de suspensão;
3 - A informação referente à alteração do sistema de suspensão deve ser registrada pelo Detran no Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV).

O custo da alteração pode variar entre R$ 3 mil e R$ 20 mil - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
O custo da alteração pode variar entre R$ 3 mil e R$ 20 mil
Imagem: Reprodução Instagram

A legislação, no entanto, veda o rebaixamento ou a elevação da suspensão dianteira dos veículos com peso bruto total superior a 3.500 kg, alteração que faz parte da maior parte dos caminhões arqueados divulgados nas redes sociais.

Marco Fabrício Vieira, consultor em direito do trânsito, afirma que uma alteração fora desse padrão pode caracterizar infração de trânsito por conduzir veículo com a características alteradas, prevista no artigo 230 inciso VII, do Código de Trânsito Brasileiro, cuja penalidade é de multa de natureza grave no valor de R$ 195, 23, além de 5 pontos no prontuário do proprietário do veículo.

"O CTB prevê também como medida administrativa a retenção do veículo para regularização. Não há previsão de penalidade para oficinas mecânicas que fazem esse tipo de serviço. Trata-se de mera relação de consumo entre o proprietário do veículo e a oficina que não tem repercussão na legislação de trânsito", explica o especialista.

Caminhão arqueado é mais estável?

A resposta é não. Segundo Jeseniel Valério, gerente da engenharia de vendas da Volvo do Brasil, a marca chegou a fazer testes com caminhões arqueados para avaliar o desempenho, mas chegou à conclusão de que tais alterações jogam no lixo todo o trabalho da engenharia para construir um veículo seguro.

"Além do alto risco de morte de passageiros de outros veículos que venham a colidir na traseira de um caminhão arqueado, essas alterações comprometem totalmente a segurança do próprio caminhoneiro. E eles sabem disso, já que a maioria dos profissionais que conversamos assumiram que fazem o arqueamento por estética", explica o especialista.

Jeseniel Valério esclarece um mito espalhado pelos fãs do arqueamento, de que o caminhão fica mais firme. "Rebaixar a dianteira e elevar a traseira pode dar uma falsa sensação de firmeza porque o caminhão fica sem molas, todo o sistema de amortecimento trabalha no limite, então ele não se mexe em buracos e curvas, por exemplo. Isso eleva muito o risco de tombamentos. Outro sistema prejudicado é o de freios, já que todo o peso da carga é transferido para a dianteira. O centro de gravidade do carro é outro", alerta.