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Caminhão arqueado: como moda polêmica provocou tragédia entre pai e filho

Paula Gama

Colaboração para o UOL

20/01/2022 04h00

Uma tragédia ocorrida no Paraná evidencia o perigo que os caminhões arqueados, ou seja, com frente rebaixada e traseira suspensa, trazem para as estradas. Na última quinta-feira (13), quatro veículos deste tipo se envolveram em um engavetamento na BR-116, que terminou com a morte de um casal.

Um dos condutores, que estava com a esposa, bateu na traseira do caminhão arqueado do próprio pai e morreu na hora. As vítimas fatais são Gerson Mattos, de 39 anos, e Patrícia Abreu, de 34, casados há 17 anos. O casal deixa dois filhos, de 14 e 17 anos. Jetro Mattos, pai de Gerson, teve ferimentos leves e, segundo o SAMU, negou atendimento médico no local.

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Tanto Gerson quanto Jetro, conhecidos na estrada como Pai & Filho (escrita que estampava o lameiro de seus caminhões), se mostravam apaixonados pela profissão e, principalmente, pelo estilo de caminhões arqueados. Os dois conduziam veículos com essa característica no momento do acidente. Nas redes sociais, compartilhavam fotos e vídeos de seu estilo de vida e ostentando suas modificações.

Gerson e Patrícia foram vítimas fatais do acidente - Reprodução - Reprodução
Gerson e Patrícia foram vítimas fatais do acidente
Imagem: Reprodução

Em um dos vídeos, Jetro aparece em pé, embaixo da traseira do seu caminhão, um Mercedes-Benz, comemorando a altura que conseguiu chegar. Hoje, essas publicações, estão lotadas de comentários lamentando sua perda, a maioria cheios de carinho e alguns exaltando a parceria e o caráter da dupla.

"Que Deus te dê forças para seguir em frente, sempre vi os vídeos de vocês. Gosto muito de caminhão. Agora, quem sabe, volte avô e neto para continuar o legado", diz um deles.

Compartilhar vídeos exaltando seus feitos é uma moda entre a comunidade caminhoneira, especificamente, entre os que curtem o arqueamento dos veículos. Cabelo Batateiro, um dos influenciadores mais famosos do meio, afirmou ao UOL Carros em entrevista que as alterações são feitas, primeiramente, para deixar o caminhão mais bonito, e depois, pela estabilidade.

"Além de bonitos, eles ficam mais firmes. É melhor de dirigir. Atualmente, rodo todo o Brasil com a Joaninha [apelido do seu caminhão arqueado] carregando batatas. É um caminhão que não desliza na estrada molhada, por exemplo", afirma o caminhoneiro.

Apesar do argumento de Batateiro, especialistas afirmam que a alteração compromete seriamente a capacidade de frenagem e a estabilidade do veículo.

O acidente

De acordo com testemunhas, um carro de passeio provocou o engavetamento, reduzindo a velocidade repentinamente e forçando duas carretas e dois caminhões a fazerem o mesmo. Pai e filho eram, respectivamente, penúltimo e último da fila.

Alguns sites chegaram a relatar que Jetro tentou abrir a porta do caminhão de Gerson com uma barra de ferro, para tentar tirar o filho das ferragens, mas o condutor não resistiu aos ferimentos. No entanto, UOL Carros não conseguiu confirmar esta informação com testemunhas e autoridades.

Conversamos com Rodrigo Kleinubing, engenheiro especialista em acidentes de trânsito que realizou diversos estudos sobre a tendência dos caminhões arqueados. Ele afirma, claramente, que a morte teria sido evitada caso a traseira do veículo não fosse levantada.

"A morte do casal tem uma relação direta com a traseira levantada. A má prática que o pai adotou matou o filho. É uma tragédia", lamenta o especialista.

Kleinubing explica que, quando um veículo vai bater na traseira de outro, a tendência natural é frear. O que, mesmo um automóvel sem alterações, já cria um arqueamento momentâneo, ou seja, a dianteira fica mais baixa e a traseira sobe. Isso cria um efeito "cunha", ou seja, de o veículo de trás ir parar embaixo do caminhão.

Exatamente por isso que a legislação brasileira passou a exigir o uso de placas retrorefletivas e para-choques mais resistentes em veículos pesados. Mas a moda dos caminhões arqueados coloca tudo em risco.

"Quando um caminhão já tem a traseira levantada, facilita ainda mais o efeito 'cunha', ou seja, de que o carro de trás vá parar embaixo do caminhão. É um acidente gravíssimo que provoca, inclusive, o efeito guilhotina, que corta o pescoço dos ocupantes dianteiros do veículo que bateu", esclarece.

Caminhões teriam sido retidos, diz PRF

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, se tivessem sido flagrados, ambos os caminhões teriam sido retidos.

"Considerando que irregularidades no sistema de suspensão constituem risco à segurança do trânsito, prova disso é a gravidade do acidente destacado, veículos flagrados nessa situação são, além de autuados, retidos e recolhidos ao pátio, de onde somente são liberados após a regularização da infração (desfazimento das alterações e retorno do sistema de suspensão às condições originais)", afirma a entidade.

A PRF destacou ainda que "o trânsito de caminhões com a traseira elevada constitui grave risco à segurança viária. A prática altera a estabilidade do veículo, aumentando o risco de tombamentos e saídas de pista. Além disso, reduz a eficiência do para-choque traseiro em caso de colisões traseiras, agravando as lesões e aumentando a probabilidade de morte de ocupantes de veículos que sigam à sua retaguarda, pelo chamado 'efeito guilhotina'."

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