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Por que Argentina e outros vizinhos têm mais opções de carros que o Brasil

José Antonio Leme

Do UOL, em São Paulo (SP)

18/03/2021 04h00

Entre veículos e marcas não passam nem perto do Brasil, mas estão à vontade circulando pelos países vizinhos como Argentina, Chile, Colômbia, entre outros, os motivos são variados. Algumas passam por questões jurídicas, mas a questão financeira, tributária e de legislação conta muito para o Brasil ter menos marcas que nossos vizinhos.

A saudade do brasileiro de ter modelos da Alfa Romeo circulando pelas ruas do Brasil como uma marca premium italiana, deve se manter assim. A Stellantis, proprietária da marca, já falou em outras situações que "tem interesse, mas não planos" de voltar a oferecer os modelos da companhia por aqui.

Não fosse a pandemia, o brasileiro que desse um "pulinho" em Buenos Aires poderia ter a sorte de se deparar com os mais recentes modelos da marca circulando pelas ruas: Giulia e Stelvio, não apenas em suas versões de entrada, mas também nas esportivas Quadrifoglio de 510 cv.

O caso da Alfa é só um exemplo. Segundo Paulo Roberto Garbossa, consultor da ADK Automotive, uma das principais questões é a mercadológica associada a questões logísticas no Brasil.

"Para ter uma operação de carro, seja via importador ou com estabelecimento de uma filial, é preciso que seja rentável. O que no Brasil é mais difícil, porque é preciso ter volume. Em tempos áureos, o carro mais vendido do País vendia o mesmo que o mercado todo do Chile em um mês".

Para exemplificar: o mercado total de veículos leves no Chile foi de 24.492 unidades em fevereiro. Na Argentina foi de 26.133. Enquanto isso, no Brasil, só o líder Chevrolet Onix emplacou 10.261 - praticamente a metade.

Um executivo do setor falou: "para ter lucro com volume pequeno é preciso ser marca de alto luxo, não apenas premium". O que faz jus ao exemplo dele é o crescimento 32% de mercado da Porsche em 2020 no Brasil em meio a pandemia do novo coronavírus.

"Se uma marca vem se estabelecer no Brasil, é preciso criar uma rede de concessionários para atender com venda, pós-venda e serviços o cliente. Com as dimensões continentais você não pode ter uma revenda só em São Paulo para atender todo o País", diz Garbossa

Ele completa com um exemplo: "Não dá para sair de Curitiba para fazer a revisão de um carro em São Paulo, são 400 km". Países como Chile, por exemplo, ou o Uruguai, você consegue ter uma rede pequena e atender todo o País porque as distâncias totais são curtas", finaliza.

Questões jurídicas impediram algumas marcas

Mazda MX-30 Concept - Soe Zeya Tun/Reuters - Soe Zeya Tun/Reuters
Imagem: Soe Zeya Tun/Reuters

Uma marca que já esteve no Brasil e não voltou por questões jurídicas é a Mazda. Presente aqui nos anos 90, via importação do grupo Ima, quando deixou de oferecer os produtos aqui, deixou uma série de pendências com seus antigos concessionários.

Na época, a marca era em parte controlada pela Ford, o que fez a americana garantir que não traria a Mazda ao País, para evitar ser responsabilizada pelos casos na justiça. A marca está presente no Chile, onde vende toda uma gama de produtos de hatch a SUVs com tecnologia híbrida e atende até o nicho com MX-5 nas versões conversível e cupê.

Segurança e emissões também barram alguns produtos

Se algumas não vêm ou voltam por não encontrar um ambiente rentável, enquanto outras tem questões judiciais, outras teriam um trabalho muito grande para adequar seus produtos ao mercado brasileiro, tanto em termos de segurança, quanto de emissões.

Há diversas marcas chinesas menores que vendem produtos mais baratos em mercados como Chile ou Colômbia, onde os níveis de exigências de itens de segurança são menores. Hoje, o Brasil exige ao menos dois airbags frontais, freios ABS, cintos de três pontos e encosto de cabeça para todos os ocupantes, além de questões de testes de colisão, mas também entrará como obrigatoriedade o controle de tração.

Outra exigência na qual o Brasil está muito acima dos vizinhos é em termos de restrições a emissões e ruídos. Carros e motos que já não podem mais circular por aqui nos atuais níveis de Proconve e Promot (programas de emissões e ruídos para carros e motos) ainda são vendidos em vizinhos. Em alguns casos são até fabricados no Brasil para serem comercializados no resto da América Latina.