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Stellantis pode acabar com marcas do grupo em alguns mercados, diz CEO

Carlos Tavares em visita a fábrica de Betim (MG) da Stellantis - Divulgação
Carlos Tavares em visita a fábrica de Betim (MG) da Stellantis Imagem: Divulgação

José Antonio Leme

Do UOL, em São Paulo (SP)

11/03/2021 16h49

Em visita ao Brasil para a inauguração da fábrica de motores turbo na planta da Fiat em Betim (MG) e também para conhecer a planta de Goiana (PE) da Jeep, o CEO mundial do grupo Stellantis aproveitou a vinda para conversar com alguns jornalistas e deixou claro, apesar do tom ameno, que nenhuma das 14 marcas do grupo tem garantia de permanecer nos mercados que estão.

"Os chefes de cada região tem a autonomia total da minha parte em descontinuar certas marcas em seus mercados", afirmou. Na entrevista, estava com ele Antonio Filosa, COO da Stellantis para a América Latina. "Não há a intenção em descontinuar nenhuma das marcas instaladas nos mercados Latam e procuramos dar uma oportunidade de todas crescerem", completou Tavares.

O executivo de nacionalidade portuguesa e que no grupo Stellantis veio como um dos ativos do grupo PSA na fusão afirmou, contudo, que se houver possibilidade de melhora da marca instalada no País, cabe ao chefe de cada área, apresentar um plano sólido para ele.

Vale lembrar que nos resultados da América Latina, que inclui desde o México, a divisão PSA do grupo teve redução, simbólica, mas teve, na participação de mercado caindo de 2,7% para 2,6%. Em números totais, segundo o relatório do grupo, foi de 136 mil carros em 2019 para 95 mil em 2020 na região, lembrando que foi um ano de forte queda geral devido a pandemia.

Tanto no Brasil quando na Argentina, a Fiat foi a líder dentro do grupo. Aqui no Brasil, Peugeot e Citroën amargaram as 13º e 14º posições de mercado, respectivamente, com menos de 14 mil carros vendidos durante o ano cada uma. A diferença entre as duas foi de um exemplar: 13.477 contra 13.476.

Sem dar nomes as marcas, Tavares disse "que algumas marcas não estavam indo bem nos últimos anos por falta de investimentos, agora com a sinergia de um grupo maior há maior capacidade de investimentos, de ter referências (benchmark) e de colocar em movimento novos automóveis".

"Em nível mundial, a Stellantis não tem planos de descontinuar qualquer marca, mas é possível concentrar energia de certas marcas em determinados mercados, se assim for necessário". Tavares reforçou o que parece ser básico para qualquer negócio: "existem apenas três critérios dentro da Stellantis para investir em qualquer produto ou marca: se não houver lucro, não há futuro, crescimento de participação de mercado e satisfação do cliente com o produto e os serviços".

Falta de insumos vai perdurar até o fim de 2021

Sobre as paradas de fábricas, não só da Stellantis, mas de outras companhias, Tavares pontuou que as equipes que negociam com fornecedores conseguiram ser mais ágeis na nova companhia. "Por isso nossas fábricas estão parando menos que dos concorrentes por falta de insumos".

Hoje, em âmbito mundial, o maior problema das fabricantes de veículos são os microprocessadores, que são produzidos basicamente na Ásia e não tem tido condições de atender a demanda mundial conforme indústrias de diversos segmentos voltam a operar em condições mais próximas do normal. Em segundo, de acordo com Tavares é o aço.

"O custo do aço aumentou e estamos não tentando transferir o custo para os clientes finais das nossas dificuldades de insumos, que estão mais caros. Mas pode chegar a um ponto em que precisaremos fazê-lo. Essa é uma situação que irá se arrastar pelo menos até o final do ano. Vai ganhar quem lugar mais forte pelo fornecimento e que for mais ágil em encontrar novos fornecedores se for o caso", completou.

Stellantis está garantida aqui nos próximos cinco anos

Como tem sido comum, a saída da Ford do Brasil como montadora para manter apenas as importações, deixou uma interrogação sobre outras possíveis saídas, coisa que Tavares descartou ao menos nos próximos cinco anos.

"Estamos à vontade para os próximos cinco anos. Temos um plano de produto muito forte", declarou. Geralmente as montadoras trabalham com ciclos de cinco anos para novos investimentos ou decisões para as regiões que atuam.

Vale lembrar que a Stellantis terá uma enxurrada de lançamentos nos próximos dois anos para a região Latam, alguns são inéditos; Há o SUV de sete lugares da Jeep, os SUVs compacto e médio da Fiat para 2021 e 2022, além do novo SUV subcompacto da Citroën, que também deve chegar no ano que vem. Conseguimos atender e entender a expectativa dos nossos consumidores nesse período", completou. Você pode ler mais sobre os outros lançamentos aqui.

Carro elétrico vai custar empregos, mas é uma realidade

Questionado sobre a operação de carros elétricos do grupo, Tavares pontuou duas questões importantes para a introdução do carro elétrico no mercado mundial. "Temos que proteger a capacidade das classes médias em comprar um veículo na transformação para o mundo elétrico", disse.

O executivo disse que a Stellantis tenta reduzir o custo dos veículos elétricos e trazer para um valor mais próximo ao que encontramos nos modelos a combustão.

A afirmação vem do fato de que o produto ainda é caro na maioria dos países, especialmente fora da Europa e EUA onde há subsídios atualmente, e que "se for exclusivamente para uma elite, não vai cumprir seu papel de ajudar a cuidar do meio ambiente".

Tavares declarou que se a Europa quer realmente manter o passo de reduzir as emissões de poluentes por meio de carros até 2030 em 50%, ela precisa estar preparada para o custo disso na indústria "São 14 milhões de emprego na Europa que podem ser perdidos. Isso gera um impacto social com perdas de cargos de trabalho. Os governos precisarão estar à postos para lidar com essa situação".

Ele espera que a América Latina, que anda a passos lentos em eletrificação ainda, aprenda com os erros, acertos e decisões que tem sido tomadas na Europa quando chegar a hora de acelerar a chegada da tecnologia por aqui.

O executivo concluiu dizendo que "a melhor forma de encontrar soluções inteligentes é debater uns com os outros [empresas, sociedade e governos]", especialmente em temas sensíveis como o da eletrificação que gera uma quebra enorme na cadeia de produção e de fornecedores.