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Ford e um adeus bilionário: quanto empresa deve gastar para fechar fábricas

Ford Ka Camaçari - Divulgação
Ford Ka Camaçari
Imagem: Divulgação

José Antonio Leme

Do UOL, em São Paulo

28/01/2021 04h00

O anúncio do fechamento das últimas duas fábricas da Ford no Brasil foi o início de um processo que deve demandar tempo e, principalmente, muito dinheiro. O UOL Carros apurou que a empresa alocou US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões) para o encerramento de suas atividades, que irá em sua maioria para pagar indenizações.

Mas para onde irá tanto dinheiro? O valor total parece ser vultoso, mas é preciso lembrar que a decisão de fechar as fábricas no País mexe com uma cadeia de empresas e empregos que vão muito além dos concessionários e dos funcionários demitidos das fábricas. Na condição de anonimato, fontes que tem conhecimento do assunto e estão associados ao setor disseram como eles acreditam que será divido esse dinheiro.

Nenhuma das fontes quis entrar em cifras ou porcentagens. "É muito difícil falar isso porque são negociações que muitas vezes correm em sigilo, além das questões contratuais pré-existentes, como multas", disse um deles. Porém, todos reforçaram que, pela força coletiva, a maior parte do montante deverá ser divido entre as concessionárias.

"O fato de a rede já ter se negado a aceitar a condição atual de negociação, vai levar a uma nova rodada, para se não o que realmente pretendem os concessionários, ao menos um melhor acordo", completou.

Na última sexta-feira (22) UOL Carros publicou com exclusividade que a rede de concessionários "subiu o tom" com a Ford por causa das indenizações. A rede não aceitou a proposta inicial da montadora e espera receber um valor acima de R$ 1,5 bilhão, valor estimado da atual rede de acordo com a Associação Brasileira dos Distribuidores Ford (Abradif).

Empregados

Na segunda posição estão os empregados. As fábricas de Taubaté (SP) e Camaçari (BA) já tiveram suas operações interrompidas. A planta de Horizonte (CE), onde produz o Troller, ainda está em funcionamento até o fim do ano.

A expectativa é que seja feito um acordo semelhante ao oferecido aos trabalhadores da fábrica de caminhões de São Bernardo do Campo (SP), fechada em 2019. A compensação financeira foi definida com base no contrato de trabalho, enquanto haverá outros complementos como apoio psicológico e requalificação profissional.

Sistemistas

O terceiro lugar nos beneficiados pelas indenizações serão os fornecedores de auto peças. "Os contratos desse tipo preveem multas ou indenizações para quebra de acordo, que foi o que aconteceu", diz um dos consultados. Aqui, um detalhe entra na conta: o ferramental.

"A depender do acordo, o ferramental usado pelas empresas para produzir peças pertence à Ford. Isso pode entrar na discussão da indenização. Se a empresa fica com equipamento, o valor monetário a ser pago diminui", disse um consultor. "Isso porque desse modo, o fornecedor tem capacidade de continuar a produzir peças para o mercado de reposição", complementa. "Ainda assim, a quantidade e a rentabilidade é menor do que fornecer para a montadora", finalizou.

Depois disso a lista contará com fornecedores menores, sejam as empresas de logística que tinham contratos para carregar as peças de Taubaté (SP) para Camaçari (BA), as que eram responsáveis pela distribuição dos carros Brasil afora ou empresas de serviços nas fábricas, como segurança e limpeza.

Questão com o governo

Além disso, a Ford tem questões pendentes com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A empresa norte-americana tem dois contratos de empréstimo abertos no valor de R$ 335 milhões. Além disso, há 30 contratos de financiamentos indiretos.

De acordo com BNDES, os empréstimos já passaram da metade e os pagamentos estão em dia. Os contratos foram assinados em 2014 e 2017. O foco era desenvolver novos produtos para a marca no Brasil. Os acordos têm cláusulas para a manutenção de empregos durante a implementação dos projetos.

Os contratos indiretos são na ordem de R$ 54,2 milhões. Eles foram fechados por meio de parceiros, agentes financeiros que fazem a análise de crédito e cadastral dos clientes e assumem o risco das operações financeiras junto ao BNDES.

A Ford não chegou a se beneficiar da prorrogação dos benefícios fiscais para as empresas instaladas no Nordeste até 2025. O regime automotivo de incentivos garantiu manutenção das isenções que haviam sido reduzidas para 40%, mas a empresa não apresentou nenhum projeto, como exigido para se enquadrar.