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Duelo: Mercedes-Benz Actros de estrada encara caminhão de corrida; assista

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Vitor Matsubara, João Anacleto

Do UOL e Colaboração para o UOL, de Londrina (PR)

04/07/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Caminhões usam mesma cabine, mas tem diferenças em conforto e desempenho
  • Actros "de estrada" tem 510 cv; versão de pista tem mais que o dobro da potência
  • Versão da Copa Truck pode chegar aos 240 km/h

A física dificilmente aceitaria um caminhão feito para disputar corridas. Felizmente alguém decidiu ignorar isso e assim nasceram os caminhões da extinta Fórmula Truck.

Feitos sobre caminhões originais, eles recebem milhares de equipamentos para pista, como bancos concha e gaiola de proteção homologados pela FIA. Isso sem contar a preparação no motor, capaz de fazê-los chegar aos 240 km/h sem dificuldades.

Desempenho não é a única grande diferença entre eles, como UOL Carros constatou no Autódromo Ayrton Senna, em Londrina (PR). As duas versões do Mercedes-Benz Actros guardam pouquíssimas semelhanças entre si, a começar pelas dimensões: enquanto o gigantesco 2651 tem quase 7 metros de comprimento, o caminhão de competição é bem menor e mais baixo - algo perfeitamente normal quando falamos em um bólido feito para pistas.

Um Mercedes de verdade

Poucas semelhanças: apesar do design, os caminhões são totalmente diferentes entre si - Vitor Matsubara/UOL
Poucas semelhanças: apesar do design, os caminhões são totalmente diferentes entre si
Imagem: Vitor Matsubara/UOL

Dirigir o Actros 2651 é fácil como conduzir um automóvel - com a óbvia exceção de viajar em uma posição muito mais alta. O motorzão OM 460 LA de 13 litros e seis cilindros em linha entrega 510 cv a apenas 1.800 rpm. Já o torque máximo é de 244 kgfm, disponíveis a 1.400 rpm. Pareceu muito? Então saiba que o Actros da Copa Truck tem mais de 1.200 cv e 560,8 kgfm!

A direção é muito leve considerando que estamos dirigindo um caminhão. A transmissão automatizada de 12 marchas privilegia o torque, e por isso as primeiras sete velocidades têm relações encurtadas. As trocas, porém, são acompanhadas de trancos, como é de praxe nas caixas automatizadas.

Rapidamente chegamos aos 120 km/h limitados eletronicamente. Difícil é pensar como pará-lo em uma situação de emergência. É aí que entra a tecnologia, capaz de fazer o caminhoneiro até ignorar o pedal de freio mesmo diante de uma descida.

Um carrão em corpo de caminhão: Actros tem até frenagem autônoma - Divulgação
Um carrão em corpo de caminhão: Actros tem até frenagem autônoma
Imagem: Divulgação

Foi isso que fizemos (com um pouco de receio, admito) devidamente supervisionados por João Moita. Se você não conhece este simpático senhor, pense que ele é algo como o Valentino Balboni da Mercedes-Benz Caminhões no Brasil.

Piloto de testes há décadas e caminhoneiro experiente, Moita ensinou todos os macetes do Actros. Aprendi a operar o Retarder, um sistema hidráulico de freio auxiliar integrado à transmissão ativado juntamente com o freio motor e os freios de serviço.

É possível escolher entre cinco estágios progressivos de atuação, agrupados em uma alavanca atrás do volante - e assim o caminhão reduz a velocidade sem qualquer intervenção. Juntamente com o Top Brake (sistema que amplia a eficácia do freio motor aumentando a pressão acumulada no coletor de escape), os recursos ampliam a capacidade de frenagem, diminuem o desgaste das lonas e reduzem as chances de superaquecimento.

Assim como um automóvel de ponta da Mercedes-Benz, o 2651 vem com assistência de frenagem de emergência. Se não houver reação aos alertas de iminência de colisão, o Actros aciona os freios para parar o caminhão - ou ao menos minimizar os danos. Preferi não testar a eficiência deste recurso na prática, mas confio na palavra da Mercedes.

Cabine de luxo: interior do 2651 tem muita tecnologia - Divulgação
Cabine de luxo: interior do 2651 tem muita tecnologia
Imagem: Divulgação

Quase uma casa ambulante

O nível de conforto também está mais para carro do que caminhão. O banco do motorista tem um sistema pneumático que absorve irregularidades do piso e diversos ajustes elétricos de posição. Acoplado ao descansa-braço do lado direito fica a pequena alavanca do câmbio de 12 marchas, cujas trocas podem ser realizadas de forma sequencial se o caminhoneiro preferir.

Sobram porta-objetos de todos os tipos e tamanhos pela enorme cabine - e até fora dela, como o nicho na escada de acesso à cabine (devidamente protegido pela própria porta) feito para o caminhoneiro deixar seus calçados se não quiser sujar o carpete.

Atrás dos bancos fica um colchão e o sistema de refrigeração que permite climatizar a cabine sem a necessidade de deixar o ar-condicionado ligado durante a noite. Existe até uma cortina para dar privacidade a quem vai passar a noite na beira da estrada. Só que tanto conforto tem seu preço - e ele não é baixo: aproximadamente R$ 500 mil.

Precisa guardar tralhas na cabine? No Actros o que não falta é espaço - Divulgação
Precisa guardar tralhas na cabine? No Actros o que não falta é espaço
Imagem: Divulgação

E na pista?

Do Actros 2651 de rua, o bólido da Copa Truck traz só a estrela de três pontas no "nariz" e mais nada. Sobre um chassi de um modelo Actros 2646 de três eixos, o caminhão é encurtado para ter apenas dois eixos e passa de um legítimo estradeiro 6x4 para um veloz 4x2.

Antes mesmo de os motores ligarem, o estranhamento se dá pela altura da cabine. Ele passa de 3,73 m de altura para 2,80m, o limite do regulamento da Copa Truck.

Nas laterais, em vez dos tanques com mais de 850 litros de capacidade, entram carenagens aerodinâmicas que recobrem até as rodas traseiras. O reservatório de diesel vai parar no meio no chassi, junto com outro tanque, de água, para refrigerar motor e freios, com capacidade para 180 litros. São 30 litros a mais que os líquidos transportados para arrefecer um Actros 2646 convencional.

Força bruta: Actros de corrida tem mais que o dobro da potência do modelo civil - Vitor Matsubara/UOL
Força bruta: Actros de corrida tem mais que o dobro da potência do modelo civil
Imagem: Vitor Matsubara/UOL

Bancos concha com cintos de cinco pontos, manômetros de pressão da turbina, dos freios e do óleo são tão importantes quanto o pequeno visor digital que repete essas informações de maneira mais, digamos, didática. Mas nada como confiar nos mostradores analógicos em um conjunto tão "raiz". O volante com revestimento em alcantara, os pedais de alumínio com um emborrachado anti-derrapante e, claro, uma estrutura interna com barras bem espessas - uma espécie de célula de sobrevivência à moda antiga.

E apesar de todo impacto visual das modificações, eles se tornam até plausíveis perto do que ocorre quando o botão de ignição é pressionado. Absolutamente nada, em nenhuma competição, passa perto do tremor que o motor de seis cilindros e 12,8 litros faz ao ser despertado. A marcha lenta soa como uma explosão a cada curso dos pistões. É como se uma britadeira, a cada toque no chão detonasse um punhado de pólvora.

Com modificações específicas em peças, e 0,8 litro a mais de capacidade cúbica no mesmo bloco de motor do Actros, ele recebeu um novo sistema de escape - sem restrições de emissões de poluentes - e uma turbina generosamente maior, com capacidade de entregar até 4 bar de pressão.

Caminhões da equipe AM Motorsport - Divulgação
Caminhões da equipe AM Motorsport
Imagem: Divulgação

Isso eleva a sua potência de 510 cv, a 1.800 rpm, com rotação máxima de 2.200, do Actros para nada menos do que 1.200 cv, a 3.500 rpm, podendo girar a até 4.000 rpm, algo que beira o surreal quando se considera motores diesel. O torque de 560,8 mkgf seria capaz de rebocar o dobro de peso do Actros, mas é usado apenas para você se sentir como se fosse sugado por um buraco negro a cada arrancada.

Na prática os resultados igualam bólidos da Copa Truck (como o branco e rosa de número 7 pilotado pela experiente Débora Rodrigues) aos melhores esportivos que se pode comprar com R$ 350 mil na mão. Acelera de 0 a 100 km/h na casa dos 5 segundos, e chega aos 240 km/h de velocidade final, tornando quase imperceptível o "detalhe" de ter de carregar 3.500 kg de peso.

Velocidade limitada

Na pista a sensação de brutalidade aumenta geometricamente. Com os números da ficha na cabeça, é natural pensar que se trata de um bloco de ferro, quase inguiável e, pior, imparável. Mas não é. Nas mãos de Débora, que há 21 anos se aventura por asfaltos e zebras de todos os autódromos brasileiros na boleia desses supercaminhões, é nítido que ele se parece muito mais com um carro de corrida à moda antiga.

Com pouca eletrônica, tração traseira com diferencial bloqueado, e dono de um bom equilíbrio (com 52% do peso no eixo dianteiro e 48% no traseiro) ele transcende do medo à diversão em poucas curvas.

Caminhão como o de Débora Rodrigues tem mais de 1.200 cv - Divulgação
Caminhão como o de Débora Rodrigues tem mais de 1.200 cv
Imagem: Divulgação

Saídas de traseira, reduzidas para mergulhar nas curvas e retomadas dignas de um AMG são parte do comportamento esportivo. A falta de eletrônica para a dinâmica e o câmbio manual de 6 marchas - herdadas da linha de ônibus grandes da marca - dão o tom dessa autenticidade que só os caminhões têm. Seus pneus são do mesmo tipo dos de rua, mas são lixados para perderem a parte mais mole do composto e aderirem melhor ao asfalto quando esquentam.

Na hora de parar, há radiadores exclusivos para os freios vencerem a física, tanto pelo atrito de componentes, quanto pelo peso que se tem de frear. Não é à toa que nas provas a velocidade em reta é limitada por radares. Ainda que ele chegue aos 240 km/h, nas corridas há radres que limitam a velocidade em alguns trechos, e que raramente passam dos 180 km/h.

A exemplo do Actros 2651, o preço de um Copa Truck não é dos mais convidativos. Além dos R$ 350 mil pedidos pelo caminhão "básico", cada prova consome de R$ 65 mil a R$ 70 mil por caminhão (ou R$ 200 mil no caso da equipe AM Motorsport, na qual Débora corre), incluindo passagens aéreas, hospedagens, jogos de pneus, combustível, mecânicos e transporte. A diferença é que com o Actros, você faz dinheiro. Com o Copa Truck você vende emoções.

Brincadeira cara: caminhão de corrida custa R$ 350 mil - fora os custos por prova - Divulgação
Brincadeira cara: caminhão de corrida custa R$ 350 mil - fora os custos por prova
Imagem: Divulgação

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no 18° parágrafo desta matéria, motores a diesel não funcionam com velas de ignição, portanto não geram centelha. A informação já foi corrigida.

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