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Paula Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Após redução de radares, acidentes ficam mais letais em viagens de Ano-Novo

De acordo com o SOS Estradas, a taxa de letalidade dos acidentes subiu 15% - Divulgação/SOS Estradas
De acordo com o SOS Estradas, a taxa de letalidade dos acidentes subiu 15% Imagem: Divulgação/SOS Estradas
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Paula Gama

Jornalista especializada no mercado automotivo desde 2014, Paula Gama tem 28 anos e avalia diversos modelos no Brasil e no exterior. Nesta coluna, você terá opiniões sinceras sobre os lançamentos, cultura automotiva, tendências e análises de comportamento do consumidor.

Colunista do UOL

07/01/2022 04h00

É sempre triste para um jornalista quando alertas trágicos noticiados em suas matérias se confirmam. Em outubro de 2021, fiz uma matéria para UOL Carros sobre a política de redução do número de radares do governo federal, que fez o número de medidores de velocidade cair de 8 mil para 2 mil nas rodovias federais. Na época, especialistas alertavam: "o número de acidentes com morte vai subir".

O balanço da operação de Ano-Novo da Polícia Rodoviária Federal (PRF) nas rodovias federais mostram números difíceis de digerir. Apesar de empregar mais de 7 mil policiais em todos os estados brasileiros para mitigar o número de sinistros, e de ter reduzido a quantidade de acidentes nas estradas, o objetivo final não foi alcançado: mais pessoas morreram ou ficaram feridas nas viagens para curtir esse Réveillon do que no ano passado.

Não há como afirmar se a política de desinstalar radares tem influência, já que, desde 2019, a PRF omite o número de infrações por excesso de velocidade registradas no período.

De acordo com a PRF, entre os dias 30 de dezembro e 2 de janeiro, foram 730 acidentes, 65 mortos e 1.017 feridos. Na operação, foram registradas 5.344 autuações por ultrapassagem proibida; 4.240 condutores e passageiros foram flagrados por não usarem o cinto de segurança; e 597 motociclistas foram multados por transitarem sem o capacete.

Mais uma vez, a PRF omitiu as multas por excesso de velocidade, conduta que sempre foi campeã de infrações até o início de 2019, antes da aplicação da política de redução de radares.

Cresce número de mortes

Em comparação com a Operação de Ano Novo de 2021, houve uma redução de 4% no número de acidentes, no entanto, de acordo com um estudo do SOS Estradas, no período anterior tivemos 3,30 acidentes graves para cada morte e agora foram 2,87, o que representa praticamente 15% a mais de letalidade.

Já entre os feridos, a média por acidente aumentou mais de 8% em relação ao total anterior. Na operação deste ano foram 1017 feridos para 730 sinistros, enquanto na operação anterior foram 969 para 759 acidentes.

Os números mostram que, apesar de menos acidentes, as condições foram mais sérias, indicando agravantes como excesso de velocidade ou direção influenciada por álcool e outras drogas, por exemplo.

Reincidência

Não é a primeira vez que o número de acidentes cai, mas o de mortos sobe. A política de desligamentos de radares começou em abril de 2019, ano em que as mortes aumentaram em média 15% ao mês nas rodovias federais - de 398 para 460, em comparação com 2018.

As multas por excesso de velocidade nas rodovias federais aplicadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) caíram de 2.345.158 em 2018 para 392.397 em 2020. Entre 2018 e 2020, ano em que o movimento nas rodovias federais caiu em torno de 15%, de acordo com dados do SOS Estradas, o número de acidentes teve uma queda aquém do esperado, de 69.206 para 63.447 - apenas 8%. Já o número de acidentes com mortos subiu: de 5.269 para 5.287.

"Enquanto França e Espanha apostam em medidores de velocidade cada vez mais camuflados, o Brasil divulga na internet exatamente em qual quilômetro a fiscalização estará. O motorista tem 95% da estrada para andar na velocidade que quiser. É importante ressaltar aqui que não estamos falando de divergências políticas, a violência do trânsito não escolhe o partido das vítimas", analisou Rodolfo Rizzotto, fundador do SOS Estradas, na matéria publicada em 28 de outubro de 2021.

Experiência

Entre 25 de dezembro e 5 de janeiro, trafeguei por mais de 3 mil quilômetros em rodovias estaduais e federais em três estados no Nordeste: Bahia, Sergipe e Alagoas. A realidade é triste. Em muitos trechos, o motorista fica desnorteado procurando por placas indicativas de velocidade da via. Os radares remanescentes são mal planejados e seguidos de reduções bruscas de velocidade, como em um trecho a 80 km de Aracaju, na BR-101 em Sergipe, onde a velocidade chega a cair de 100 km/h para 40 km/h sem uma razão plausível.

Em outros casos, a situação encontrada, no lugar de placas educativas, é colocar quebra-molas mal sinalizados que prejudicam mais do que beneficiam a região. É evidente: o trânsito brasileiro precisa de reformas, e não são as que aumentam a impunidade e incentivam infrações, muito menos as que penalizam condutores de boa-fé pela imprudência de outros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL