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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Transformações na mobilidade durante a pandemia do novo coronavírus

Reinaldo Canato/UOL
Imagem: Reinaldo Canato/UOL
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

01/10/2021 04h00

Ultimamente quando ando pela cidade tenho a impressão de que, ao mesmo tempo que algumas coisas mudaram após períodos de mais restrição por conta da pandemia, outras parecem ter voltado a ser exatamente como eram antes.

Falando a partir do meu recorte de mundo, a cidade de São Paulo, tenho a impressão de que, com o avanço da campanha de vacinação, as ruas voltaram a ficar quase tão agitadas como eram antes. Mas algumas mudanças, anunciando boas ou más notícias, não passam despercebidas.

No "centro" da capital paulista, a presença de pessoas entregadoras, em bicicletas ou motos, carregando "bags" de diferentes cores e logotipos saltam aos olhos, mas tão logo se perdem no olhar em meio ao mar de carros que rapidamente voltaram a ocupar cada cantinho da cidade.

A percepção de aumento da quantidade de veículos nas ruas vai ao encontro de dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) que indicam a rápida recuperação dos índices de congestionamento registrados no período pré-pandemia na maioria das cidades brasileiras.

Com o congestionamento, o ruído dos motores tornou-se novamente o motivo de desconfortos ao longo do dia e, inclusive, de sobressaltos durante a noite com os barulhos das motos. Junto também vem a piora da qualidade do ar, perceptível aos olhos por meio do aumento da poeira e pelo do corpo ao sentir desconfortos respiratórios que aparecem com mais recorrência durante os longos períodos sem nuvens de chuva.

Já as ciclofaixas e ciclovias da cidade estão visivelmente mais agitadas, onde mais uma vez se destacam as pessoas que fazem entrega, quase sempre com um olho no celular - conferindo o endereço do local de entrega ou esperando a chegada de um novo pedido -, e outro olho no caminho, pois a qualquer momento pedestres podem surgir no caminho.

Esse fato também é bastante sintomático, visto que a presença de pedestres nas áreas dedicadas para ciclistas é motivada pela escassez de espaço de lazer e recreação ao ar livre, melhor forma de conseguir adaptar a prática de exercícios às ameaças de contágio com o novo coronavírus, ou pela ausência de calçadas adequadas.

Em contrapartida, onde a oferta de infraestrutura cicloviária é insuficiente, os conflitos entre pedestres e ciclistas aumentam na medida em que as calçadas são utilizadas por quem pedala como rotas de deslocamento. Circunstância que escancara a necessidade de provisão de infraestrutura em quantidade e qualidade para as demandas crescentes de pessoas que passaram a adotar os meios de transporte ativos (a pé e bicicleta).

Por exemplo, de acordo com dados da Tembici - empresa de compartilhamento de bicicletas -, o número de usuários ativos do sistema cresceu 150% entre abril e novembro de 2020.

Segundo dados da Aliança Bike, cresceu também a compra de bicicletas no país (50%), assim como a produção de bicicletas elétricas, provavelmente induzida pela possibilidade que a propulsão elétrica dá para a superação de ladeiras e longas distâncias. Todavia, mesmo com as iniciativas privadas, os investimentos públicos em mobilidade por bicicleta tem papel indispensável para a cidade e ainda está muito aquém do necessário.

Nesse sentido, são surpreendentes os dados divulgados na pesquisa recente realizada pela Rede Nossa São Paulo - Viver em São Paulo - revelando que o número de pessoas que realizam pelo menos uma parte do deslocamento a pé passou de 45%, em 2017, para 57%, em 2021.

No mesmo período, na cidade de São Paulo o número de pessoas utilizando o transporte a pé passou de 8% para 20%, transformando essa modalidade no principal meio de deslocamento.

Andar a pé antes da pandemia já era um dos meios de transporte mais escolhidos pela população, então constatar que o percentual aumentou ainda mais é uma boa surpresa, apesar de acompanhada da preocupação: talvez muitas das pessoas optem pela caminhada como alternativa à impossibilidade de arcar com os custos da tarifa de ônibus.

Falando de transporte público coletivo, as coisas não parecem ter mudado muito. Os pontos, terminais e ônibus permanecem lotados, principalmente no horário de pico. E o tempo gasto com os deslocamentos, antes mais curtos por conta da redução dos congestionamentos, gradualmente volta a ser o mesmo de antes.

Mas olhando os dados de quem utiliza esses transportes, ao contrário dos índices de congestionamento, a curva não parece apresentar sinais rápidos de recuperação, o que pode reforçar a tendência histórica de esvaziamento do transporte público coletivo acompanhada de uma profunda crise de financiamento do setor.

Em meio a tudo isso, estamos nos equilibrando entre andar a pé, de bicicleta e de transporte público coletivo, raramente usando o carro para se deslocar. Porém, não podemos deixar de olhar para as transformações ao nosso redor, pois algumas delas, como o incremento do transporte a pé e por bicicleta, podem sinalizar oportunidades importantes para emplacar benefícios e mudanças permanentes.

Já o crescimento da motorização e redução do uso do transporte público coletivo precisa servir de alerta, pois corremos o risco de ampliar distâncias entre a cidade de hoje, social e ambientalmente injusta, e a cidade que necessita ser construída: inclusiva e sustentável.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL