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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Excesso de carros impede o desenvolvimento sustentável das cidades

É urgente substituir o uso de carros e motos por transportes coletivos, como ônibus e metrôs, e pelo transporte ativo, como a pé e com bicicleta - Aloisio Mauricio / Estadão Conteúdo
É urgente substituir o uso de carros e motos por transportes coletivos, como ônibus e metrôs, e pelo transporte ativo, como a pé e com bicicleta
Imagem: Aloisio Mauricio / Estadão Conteúdo
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

17/09/2021 04h00

Segundo dicionários, a palavra congestão significa acumulação excessiva ou anormal de um fluido, muitas vezes o sangue, em um órgão ou em uma determinada região do corpo. Se imaginarmos que vias, ruas e avenidas são veias e que o fluxo de carros representa o sangue, fica fácil perceber que as cidades estão congestionadas. Isso porque há um número excessivo de carros acumulados, impedindo o desenvolvimento sustentável.

Mas o que significa um desenvolvimento sustentável, afinal? De acordo com definição elaborada pela ONU (Organização das Nações Unidas) "é aquele que consegue atender as necessidades da geração atual sem comprometer a existência das gerações futuras". Lançados os significados e conceitos, o alerta é: precisamos incentivar o uso do transporte público e desestimular o uso do transporte motorizado individual.

Trocando em miúdos: é urgente substituir o uso de carros e motos por transportes coletivos, como ônibus e metrôs, e pelo transporte ativo, como a pé e com bicicleta.

Antes de me chamarem de alarmista, a pesquisa recente "Tendências e desigualdades da mobilidade urbana no Brasil: o uso do transporte coletivo e individual", realizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), mostrou que o número de pessoas que utilizam o sistema de transporte público coletivo despencou entre os anos de 1995 e 2019, enquanto houve o crescimento generalizado da frota veicular particular, principalmente em cidades médias e pequenas (municípios com menos de 20 mil habitantes). Já o número de veículos em circulação triplicou.

O fenômeno tem relação com incentivos econômicos dos mais variados a quem utiliza automóveis, como reduções de impostos, estacionamento gratuito, controle de preços e investimentos irrestritos em ampliação da infraestrutura dedicada à circulação veicular.

Mas também está relacionado com os tímidos investimentos realizados em transporte público, o que inclui o transporte coletivo a pé e por bicicleta. Só para se ter uma ideia, de acordo com estimativas divulgadas recentemente, o investimento em infraestrutura no Brasil caiu 5,4% em 2020. Trata-se do mais baixo aporte das duas últimas décadas.

Portanto, cada uma das necessidades exige um conjunto de esforços diferentes. A primeira dessas necessidades é aumentar o uso do transporte público, para então reduzir o uso do transporte individual. Dar conta da primeira demanda requer ampliar investimentos em transporte público, tornando-o mais vantajoso, atrativo e eficiente.

Ação que, por sua vez, requer a redução do espaço destinado ao automóvel. E aqui entendemos espaço tanto fisicamente, nas cidades, quanto financeiramente, no orçamento público.

A redução dos espaços para automóveis pode ser concretizada através do aumento dos custos associados ao uso desse veículo individual, como cobrança de estacionamento em vias públicas, pedágios em áreas estratégicas e aumento dos custos de posse de veículos. Contudo, antes precisa ocorrer um aumento exponencial das vantagens do uso do transporte público coletivo e/ou individual não motorizado (a pé e bicicleta), o que requer a universalização da infraestrutura que sustenta essas modalidades de transporte, como já é previsto em políticas públicas urbanas.

Na prática, isso significa construir corredores de ônibus, linhas de metrô, ciclovias, calçadas acessíveis e tudo mais que uma cidadã ou um cidadão precisa para se locomover com segurança, baixo custo e conforto.

Tais medidas são urgentes, até porque as cidades que viram a taxa de motorização duplicar ou triplicar são a maioria entre os 2.669 municípios desprovidos de transporte coletivo. E exemplos internacionais comprovam que, sem investimentos massivos em transporte público e restrições à circulação de veículos motorizados, é impossível descongestionar as vias e garantir ambientes urbanos mais sustentáveis, para nós e para as gerações futuras. Além disso, ninguém aguenta mais ficar parado na contramão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL