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Kelly Fernandes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como sucesso de Rebeca Andrade expõe problemas de mobilidade no Brasil

Rebeca Andrade e suas duas medalhas dos Jogos Olímpicos de Tóquio: ouro no salto e prata no individual geral - Laurence Griffiths/Getty Images
Rebeca Andrade e suas duas medalhas dos Jogos Olímpicos de Tóquio: ouro no salto e prata no individual geral Imagem: Laurence Griffiths/Getty Images
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

06/08/2021 04h00

Para a nossa alegria, as últimas semanas foram repletas de registros de atletas superando limites para chegar ao pódio olímpico. As Olimpíadas de Tóquio chegaram como um presente para as pessoas que já estavam cansadas do rodízio de más notícias e muitas delas se abriram para discutir temas sensíveis como os efeitos das desigualdades sociais.

Há situações em que só histórias reais conseguem abrir os nossos olhos para temas coletivos urgentes. Assim foi com a recepção do público diante das dificuldades vividas por Rebeca Andrade, ginasta que volta para o Brasil com duas medalhas no pescoço: uma de prata e outra de ouro.

A história da atleta expõe barreiras que recaem sobre uma parcela expressiva da sociedade brasileira, sobretudo a negra, empobrecida, moradora de áreas periféricas ou das franjas das regiões metropolitanas, como é o caso de Rebeca.

O exemplo de superação dado pela atleta é inegável, mas ao aplaudi-lo não podemos deixar de atentar que, neste exato momento, tantas mais crianças e adolescentes podem estar passando pelas mesmas dificuldades, ou pior, já ficaram no meio do caminho.

Nesse sentido, quero destacar alguns trechos da matéria escrita por João Gabriel para a Folha de São Paulo com título "Na infância, Rebeca Andrade era espoleta, escalava beliches e ia a treinos em bike de sucata". Entre os trechos que me chamaram a atenção, está o que trata da dificuldade de acesso ao local onde a ginasta realizou treinamentos, em Guarulhos, que a levaram para Tóquio, Japão.

Conforme a reportagem, a atleta contava com o apoio do irmão para levá-la até o centro de treinamento, que a acompanhava a pé ou dava um carona em sua bicicleta, montada aos trancos e "sucatas", pois as peças eram todas de ferro-velho. O meio de transporte era motivado pela escassez de dinheiro para pagar a passagem de ônibus e, assim, o deslocamento podia levar em média 1h30.

Segundo informações retiradas do Tableau Pesquisa Origem e Destino 2017 elaborado pela Ciclocidade - associação de ciclistas da cidade de São Paulo-, e o instituto de pesquisa Multiplicidade - responsável por facilitar o acesso aos dados da Pesquisa Origem e Destino Metrô de São Paulo -, cerca de 170 mil pessoas realizam deslocamentos a pé por incapacidade de custear o preço da tarifa de transporte coletivo.

Em sua maioria (84%), essas pessoas integram as classes econômicas C, D-E, fato que revela a relação direta entre a acessibilidade ao sistema de transporte e a renda familiar média. É alarmante também saber que mais de 50% dessas pessoas excluídas do transporte coletivo que buscam alternativas de deslocamento têm como motivo chegar ao local de estudo.

Casos como esses de quando andar a pé e de bicicleta não é uma escolha, mas uma reação à impossibilidade de custear a tarifa de transporte coletivo, podem ser entendidos como "mobilidade ativa compulsória". Isto é, uma atividade que não é motivada pela vontade própria, mas pela última alternativa que resta antes da imobilidade.

A história de Rebeca é uma expressão das dificuldades que inúmeras pessoas enfrentam nas cidades brasileiras para exercer direitos sociais previstos na Constituição Federal, que consideram o transporte público como um mecanismo de acesso a atividades tais como educação e lazer. Ou seja, atividades que podem atuar como portas de entrada para a incorporação de uma atividade esportiva por recreação ou até mesmo para a profissionalização.

No entanto, a existência de espaços de práticas esportivas parece ser tão escassa quanto as possibilidades de deslocamento até eles. Por exemplo, de acordo com dados da Rede Nossa São Paulo (RNSP), ao menos 16 distritos da capital paulista possuem uma relação de 0 equipamentos de esporte para cada 100 mil habitantes, e apenas 5 distritos possuem uma disponibilidade de equipamentos que os fazem superar marcas acima de 1 equipamento para cada 100 mil habitantes.

O que significa que parte expressiva da população não tem acesso nem sequer a uma quadra para jogar futebol, muito menos praticar esportes culturalmente menos difundidos ou acessíveis, como a ginástica olímpica, natação, atletismo etc.

Também é bom lembrar que apesar de o Brasil ocupar o 16º lugar (geral) nas Olimpíadas de Tóquio, uma abundante quantidade de atletas ao longo da competição revelaram os inúmeros desafios que precisaram superar para chegar até ali, com pouco ou quase nenhum incentivo do poder público. Mudar essa condição necessita agir coletivamente por meio de políticas tarifárias inclusivas e justas e investimentos em infraestrutura de transporte, para que no futuro não deixemos ninguém para trás.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL