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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Transporte público: escala para uso é solução não só durante pandemia

PAULO GUERETA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: PAULO GUERETA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

19/03/2021 04h00

Na semana passada o Governo de São Paulo anunciou a adoção de novas medidas para frear o avanço da segunda onda do novo coronavírus, que só na última quarta-feira (17/03) matou quase 3 mil pessoas no país. Entre as medidas não obrigatórias, está o escalonamento no horário de início das atividades trabalhistas.

Em caráter provisório, a recomendação é que, enquanto durar a fase emergencial, funcionários iniciem suas jornadas de trabalho em horários distintos segundo o setor econômico: trabalhadores da indústria, das 5h às 7h, trabalhadores de serviços, das 7h às 9h e trabalhadores do comércio, das 9h às 11h.

É preciso dizer que, em parte, a necessidade de adoção de escalonamento de atividades já é um diagnóstico. Isso porque a excessiva concentração de pessoas em terminais, estações, veículos e vagões em poucos períodos do dia é sintoma do desenvolvimento desigual da cidade, resultado da concentração de atividades econômicas em poucas regiões, comumente as mais ricas, enquanto distritos e bairros periféricos apresentam percentual baixo de empregos e de vagas de ensino por habitante.

Essa realidade acaba por relegar deslocamentos longos e demorados para as pessoas que moram em regiões menos privilegiadas, a maioria usuária do transporte público coletivo insuficiente.

Então, o escalonamento de atividades é uma solução adicional, portanto de complementação a adoção de medidas de médio e longo prazo, como o estímulo de novas centralidades em áreas periféricas.

Dito isso, o escalonamento pode contribuir para a redução da lotação dos ônibus nos horários de pico, períodos quando parece que a cidade inteira está no mesmo lugar. Algo como o que acontece no início da manhã ou no final da tarde na Estação Brás, em São Paulo, Central do Brasil, na capital carioca, ou na Estação Pirajá, no município de Salvador.

Normalmente, os horários de pico são ilustrados por gráficos que lembram ondas cujo movimento decorre da distribuição da quantidade de pessoas que utilizaram o sistema de transporte ao longo do dia. O resultado da distribuição dos deslocamentos no tempo pode variar de cidade para cidade, mas o mais comum é a formação de duas ondas grandes e uma terceira intermediária.

A maior acontece no início da manhã, horário em que muitas pessoas vão para a escola, faculdade e trabalho; a onda intermediária acontece por volta do horário de almoço, que também é período de saída da escola; e a segunda grande onda, um pouco menor que a primeira, ocorre no fim da tarde, momento de saída de muitas pessoas que trabalham em empresas e de estudantes de cursos universitários, por exemplo.

Em São Paulo, os horários de pico não são mais tão precisamente marcados como eram no passado. Com o passar do tempo, as curvas diluíram-se um pouco, reforçando aquela sensação de que as ruas da cidade estão sempre cheias de gente indo de lá para cá.

Mesmo assim, essa regra vale para a capital paulista, de maneira que aqui o escalonamento de atividades pode contribuir para a amenização da lotação no transporte público coletivo. De acordo com dados do Metrô de São Paulo, quase a metade de todos os deslocamentos iniciados são realizados nesses três períodos. Nos demais intervalos o transporte coletivo fica ocioso.

No entanto, isso depende não só do prolongamento da medida após o período de providências mais restritivas, mas também da adoção de mais de três escalonamentos, como foi indicado pelo governo estadual.

Por exemplo, na Região Metropolitana de Goiânia foram adotados cinco escalonamentos, com horários reservados para garis e funcionários de postos de combustíveis; pessoas que trabalham em portarias e serviços domésticos; profissionais da saúde, trabalhadores da construção civil, etc. Após o escalonamento, dados de monitoramento mostram que o número de pessoas que utilizaram o sistema de transporte metropolitano reduziu nos horários de pico.

Isso aconteceu também em Fortaleza, como detalhado no artigo de Henrique Cabral e Guillermo Petzhold, "Cidades fazem escalonamento de horários por mais segurança nos ônibus durante a pandemia". Os pesquisadores demonstraram como a medida reduziu a demanda no sistema de ônibus da capital do Ceará, que caiu em 26% no pico da manhã e em 19% no pico da tarde.

Algo similar foi adotado na cidade do Rio de Janeiro, porém com pouco resultado, visto que a capital carioca acumula problemas estruturais exacerbados no transporte público, dada a combinação das ressalvas indicadas acima: desigualdade e sistemas de transporte público coletivo subdimensionados.

Por fim, é fundamental reforçar que a situação do setor de transporte público coletivo é crítica. Ainda assim, tendo em vista que o Governo Federal virou de costas para as cidades, para os estados e para toda sua população. Portanto, é preciso parar e pensar o que é possível fazer para reduzir ao mínimo os riscos de contaminação das pessoas que utilizam o sistema de transporte público.

Por isso, é importante reforçar que o escalonamento é uma medida adicional, que deve ser utilizada em caráter complementar às ações do poder público, como aumento do número de ônibus em circulação, inclusão de novas linhas e redução do tempo de espera em plataformas de trens ou de metrôs.

Isso tudo alinhado com o estímulo de práticas individuais seguras, como o uso de máscaras protetivas adequadas e fiscalização por parte do poder público quanto ao cumprimento de protocolos sanitários e dos procedimentos de segurança pelas empresas de ônibus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL