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Caçador de Carros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Carros inflacionados: com preços subindo, ter automóvel virou investimento?

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Imagem: Shutterstock
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Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colunista do UOL

02/09/2021 04h00

Quem tem um carro na garagem certamente percebeu que o valor desse bem está cada vez maior. Nós nunca tivemos aumentos tão expressivos nos preços dos automóveis - pelo menos desde 1994, quando o Plano Real foi implementado e freou o fantasma da inflação.

Com isso, tenho escutado muitas pessoas relatarem situações em que ganharam dinheiro com o carro, já que o valor da venda de hoje tem sido superior ao de quando ele foi comprado. Mas será que estamos mesmo ganhando dinheiro com nossos carros?

Aqui em casa, por exemplo, o automóvel da minha esposa valorizou 17% nos últimos 12 meses, enquanto o preço do meu subiu 14% no mesmo período. Sendo assim, ambos valem mais hoje do que no ano passado - e cresceram acima da inflação, que foi de aproximadamente 9% nesse período.

Caso eu decida substituir um desses carros por outro mais novo, ficarei com a impressão de ter ganhado com eles no momento da venda, mas a conta não é tão simples assim. Basta ver que praticamente todos os outros modelos de veículos também tiveram seus preços corrigidos, portanto também teria que pagar mais caro hoje do que no passado.

Nessa semana, um cliente me chamou e disse que ficou surpreso ao saber que o Jeep Renegade que comprou comigo em 2019 está valendo mais do que pagou, e com isso teve a ideia de vende-lo e comprar uma picape mais nova. Infelizmente, joguei um balde de água fria quando disse que o modelo desejado também está custando mais do que no passado.

Pior ainda é quem decide vender agora e deixar para comprar depois. Essa opção não deve acompanhar os prováveis aumentos nos próximos meses, portanto se demorar muito para comprar outro carro, o poder de compra será menor.

Bom mesmo é para aqueles que querer apenas se desfazer do carro, sem nenhuma intenção de comprar outro no futuro. Um idoso que decidiu que não vai mais dirigir ou alguém que está de mudança para outro país são alguns exemplos de situações em que esse é o melhor momento para vender um carro.

Você já deve ter escutado alguém falar que carro não é investimento, mas sim um bem de uso. De fato, o carro é um bem que sofre com ação do tempo e de uso, que exige manutenção e gastos com impostos anuais, o que afasta essa ideia de investimento. Mas nem sempre foi assim para algumas pessoas.

Nos piores períodos de inflação no Brasil, quem tinha dinheiro sobrando e espaço na garagem comprava carro mesmo que não o utilizasse como meio de transporte. Era melhor tê-lo parado na garagem e esperar por sua valorização do que ter dinheiro no bolso sendo corroído pela inflação.

Porém, não acho que o atual momento é para tanto. A inflação teria que ser ainda maior do que está para voltarmos a cogitar essa prática do passado, pois só assim para compensar os gastos extras de se ter um carro, mesmo que parado.

Por fim, no atual momento, nossos carros continuam sendo bens de uso e não acho racional tratá-los como investimento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL