Resistência à insulina: como saber se você tem e por que é importante saber

Produzida no pâncreas, a insulina desempenha um papel crucial na regulação dos níveis de açúcar em nosso sangue, permitindo que as células absorvam a glicose e assim obtenham a energia de que necessitam.

Entretanto, em um contexto de consumo frequente de alimentos ricos em açúcar e gorduras hidrogenadas, essa regulação se torna cada vez mais vulnerável. Como resultado, milhares de pessoas em todo o mundo estão desenvolvendo resistência à insulina. Nessa condição, o pâncreas é forçado a produzir níveis elevados do hormônio para tentar manter a glicose sob controle.

Esse descompasso está intimamente ligado ao desenvolvimento de diabetes, que atinge aproximadamente 17 milhões de brasileiros.

De acordo com o endocrinologista Wellington Santana da Silva Junior, professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), a resistência à insulina geralmente compõe uma série de alterações metabólicas, como hipertensão arterial, aumento dos triglicérides, diminuição do colesterol HDL e excesso de peso.

"A síndrome metabólica representa um sério risco para a saúde do coração e aumenta em pelo menos duas vezes e meio a probabilidade de eventos cardiovasculares, como o infarto", afirma.

Por que a resistência à insulina acontece?

A resistência à insulina é um processo gradual que ocorre não só por escolhas alimentares ruins, mas também por fatores genéticos e de estilo de vida ligadas ao sedentarismo, ao consumo excessivo de álcool e ao cigarro.

Ticiane Bovi, que é nutricionista e professora da Faculdade de Medicina da USP, diz que a ciência ainda não elucidou por completo o porquê de a insulina encontrar dificuldades de transpor a glicose para o interior da célula.

"Antigamente, acreditava-se que o problema estava na borda da célula, ou seja, especificamente no receptor. Mas hoje temos um entendimento mais abrangente, que reconhece a possibilidade de disfunções intracelulares. Mesmo quando a insulina se acopla ao seu receptor, não há garantia de que sua função de facilitar a entrada de glicose na célula ocorra de maneira eficaz", explica Bovi.

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Os especialistas afirmam que o avançar da idade também afeta a função pancreática, podendo levar à resistência à insulina. Por outro lado, a condição tem afligido um público cada vez mais jovem.

"Uma vez que nossos hábitos de vida já começam inadequados na infância, temos notado um número cada vez maior de casos de diabetes tipo 2 em crianças", diz Bovi. Certas condições genéticas, como distrofia miotônica ou lipodistrofia, também predispõem indivíduos à resistência à insulina.

Como saber se você tem resistência à insulina?

Identificar a resistência à insulina pode ser um desafio, pois a condição é frequentemente assintomática e quando há sinais, eles geralmente já configuram um quadro de pré-diabetes ou mesmo de diabetes tipo 2.

Entretanto, fique atento a essas manifestações:

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Fadiga constante

Aumento da sede e da vontade de fazer xixi

Menstruação irregular

Manchas escuras no pescoço, axilas ou virilha: essa condição é conhecida como acantose nigricans

Perda de peso inexplicável

Boca seca ou visão turva

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Sintomas de síndrome metabólica como pressão alta, níveis elevados de triglicerídeos no sangue e baixo HDL (colesterol "bom")

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico clínico se baseia na presença de pelo menos três dos cinco sintomas ligados à síndrome metabólica ou síndrome de resistência à insulina, conforme definidos pela Federação Internacional de Diabetes. Esses sintomas incluem:

Aumento da circunferência abdominal, com valores acima de 90 cm para homens e de 80 cm para mulheres

Glicemia em jejum maior ou igual a 100

Valores de triglicerídeos maior igual a 150

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Valor de HDL menor que 40 em homens e menor que 50 para mulheres

Hipertensão arterial, ou seja, pressão sistólica maior ou igual a 140 ou uma pressão diastólica maior ou igual a 90

Para atestar a resistência à insulina, os médicos podem solicitar uma variedade de exames. Entre eles: teste de glicemia em jejum, hemoglobina glicada e teste de tolerância oral à glicose. Pessoas com histórico familiar de diabetes devem realizar anualmente esses exames.

"Normalmente, os clínicos solicitam apenas o teste de glicemia de jejum. No entanto, existem estudos que indicam que as alterações nesse exame só se tornam evidentes após cerca de cinco anos do momento em que os níveis de glicose após as refeições já estão elevados, o que sinaliza a presença de resistência à ação da insulina", revela Bovi.

Tratamento

Felizmente, a resistência à insulina pode ser gerenciada e até mesmo revertida com mudanças no estilo de vida, como dieta saudável, exercícios físicos regulares e perda de peso, se necessário. Além disso, seu médico tem a opção de prescrever medicamentos para auxiliar no controle da glicose sanguínea e tratar outras condições, como hipertensão.

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"Um estilo de vida saudável, envolvendo alimentação equilibrada, exercícios, sono satisfatório, controle do estresse e a manutenção de um peso corporal adequado são essenciais para prevenir e tratar a resistência à insulina", argumenta a nutricionista Jamile Tahim, doutoranda em saúde coletiva na UECE (Universidade Estadual do Ceará).

Fontes: Jamile Tahim, nutricionista e doutoranda em saúde coletiva na UECE (Universidade Estadual do Ceará); Ticiane Bovi, nutricionista, doutora em ciências médicas pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professora da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo); Wellington Santana da Silva Junior, endocrinologista, professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e diretor do Departamento de Diabetes Tipo 1 da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Errata:

o conteúdo foi alterado

  • O texto informava que a hipertensão arterial ocorre quando a pressão sistólica é maior ou igual a 30. O correto é 140. A informação foi corrigida.

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