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'Refletiu como eu me sentia': como videogame pode ajudar a lidar com o luto

Ivan perdeu uma tia e avó com poucos meses de diferença, em 2015 - Arquivo pessoal
Ivan perdeu uma tia e avó com poucos meses de diferença, em 2015 Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o VivaBem

01/05/2023 04h00

Mais do que cumprir fases, chegar ao final e matar o "chefão", há algum tempo, os jogos de videogame se tornaram uma ferramenta de contação de histórias, com narrativas que podem gerar reflexões ao jogador e ajudá-lo a lidar com situações da vida real, como o luto.

Quando perdeu uma tia e avó com poucos meses de diferença em 2015, o estudante de biomedicina de Recife (PE) Ivan de Castro, 23, encontrou mais do que refúgio nos games para fugir da realidade. "Durante o luto joguei muito o 'Resident Evil 5'. O ambiente de terror e ação e a sensação de estar sozinho envolto de uma crise refletiu como eu me sentia na época. Ao ver o protagonista traumatizado pela perda de uma amiga me trouxe conexões e fez eu ver que eu não era único passando por aquilo", conta.

Segundo a psicóloga e pesquisadora Geórgia Sibele Nogueira, olhar para as próprias experiências através das histórias dos personagens pode favorecer o encontro com algumas tarefas do luto a serem vividas na vida real dos enlutados, como reconhecer a perda, vivenciar as dores do processo, descobrir maneiras de se adaptar às mudanças internas e externas, encontrar um lugar seguro em si para manter a conexão com quem partiu, construir e reconstruir significados.

Os games podem contribuir na identificação e experimentação de emoções, sentimentos, pensamentos e comportamentos dos jogadores, auxiliando nas possibilidades de enfrentamento, desde que as narrativas estejam bem ancoradas na teoria do luto, a fim de evitar estereótipos, e estimulem o compartilhamento desses processos fora das telas. Geórgia Sibele Nogueira, coordenadora do LETHS (Laboratório de Estudos em Tanatologia e Humanização das Práticas em Saúde) da UFRN

Após superar a covid e um câncer na garganta, o tio do estudante Marcus Vinicius, 18, morreu de tuberculose em 2021. O jovem conta que o RPG de ação "NieR Automata" o levou a ter alguns insights a partir de uma frase do protagonista, que dizia algo sobre como tudo o que vive está destinado a acabar e que estamos perpetuamente presos em uma espiral interminável de vida e morte. "Percebi que as coisas nem sempre são como esperamos e nada pode impedir o destino de cada um. Enquanto meu tio morria, um primo nascia, sempre estaremos nesse ciclo de vida e morte."

Marcus Vinicius - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcus Vinicius conta que o RPG de ação "NieR Automata" o levou a ter alguns insights
Imagem: Arquivo pessoal

Além das narrativas da história, outros elementos, como cenário, cores, trilha sonora e ritmo podem despertar na pessoa emoções e pensamentos que até então ela não havia observado, e contribuir para explorar novas maneiras de enfrentar a perda.

"O jogo pode trazer experiências semelhantes às que a pessoa viveu, servindo como um meio de vivenciar sua dor ou ainda mostrar diferentes formas de lidar com ela. Dependendo do indivíduo, do game e do momento, o enlutado pode se sentir visto e acolhido enquanto passa por um processo que fica escondido na maior parte do tempo numa sociedade que tem dificuldade em falar sobre morte e onde as pessoas mais próximas se afastam em períodos de luto ou esperam que o enlutado 'supere' o que aconteceu", afirma Andressa Fidelis, psicóloga clínica e especialista em ações terapêuticas para situações de luto pela PUC-SP.

Cuidados com excessos

Com o hábito de jogar videogame desde criança, Marcus, que mora em Barueri (SP), passou a jogar 10 horas por dia vários jogos online diferentes, o que o ajudou a se distrair e conhecer novas pessoas durante o luto do tio, mas isso também o acabou prejudicando nos estudos.

O jogo pode ser uma distração bem-vinda em momentos de angústia. Por outro lado, permanecer longos e frequentes períodos sem pensar no que aconteceu pode indicar dificuldade de lidar com a realidade. Sendo assim, os jogos podem ser positivos ou negativos a depender da quantidade e intensidade de distanciamento da realidade e dos próprios recursos de enfrentamento. Valéria Tinoco, psicóloga especialista em luto do 4 Estações Instituto de Psicologia

Um outro game que Ivan jogou durante seu processo foi "Pokémon". Capturar, pensar em estratégias para que os personagens não fossem derrotados e avançar nos níveis exigiam do jovem esforço e concentração. "Vencer cada etapa, batalha e desafio gradativamente até me tornar campeão no game me ajudou a ter um progresso emocional com o luto, me convenci de que eu também poderia superar as minhas perdas. A conquista era virtual, mas reverberou na minha vida real", diz.

Marcus Vinicius (3) - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marcus disse que os jogos ajudaram a lidar com o luto, mas atrapalham os estudos
Imagem: Arquivo pessoal

Na avaliação da psicóloga Tinoco, perder um ente querido frequentemente coloca o enlutado em contato com sentimentos de impotência e falta de perspectiva quanto ao futuro. Superar fases nos jogos ou assumir personagens fortes pode fazer com que o jogador identifique em si mesmo esses aspectos de potência, o que pode ser um facilitador do processo de luto. "Por outro lado, ver-se como um personagem invencível e que luta contra a vulnerabilidade pode fazer com que ele espere o mesmo de si, algo irreal quando falamos de um cenário de sofrimento e crise", alerta.

Além de especialista na área, Fidelis também joga e conta que reconhece seu luto em jogos que tratam da perda de filhos, direta ou indiretamente. Hoje mãe de dois adolescentes, ela perdeu trigêmeos no quinto mês de gestação há 16 anos.

Ao jogar um jogo em que uma coruja perde três filhotes, foi inevitável não me reconhecer na cena, senti a dor da personagem que é a minha também. As emoções estão ali, o jogo ajudar a normalizar questões universais como a dor, tristeza, dúvidas e questionamentos. Andressa Fidelis, psicóloga clínica e especialista em ações terapêuticas para situações de luto pela PUC-SP

Games sobre luto

Nos últimos anos foram criados games com temáticas específicas de luto, como "Gris", "Spiritfarer" e "Lost Words: Beyond the Page", cujo foco consiste mais na experiência emocional do jogador do que com a mecânica do jogo.

No "Spiritfarer", por exemplo, a tarefa de um dos personagens é recrutar espíritos, cuidar deles e, ao final da jornada, encaminhá-los para a porta onde passarão para o outro mundo. "Nos ensina sobre cuidado, impermanência e o deixar ir de uma forma leve e cativante, porque a missão não é impedir a morte deles, mas cuidar deles enquanto é possível", comenta Fidelis, que já jogou o game.

Seja para ajudar a lidar melhor com o luto ou simplesmente por hobby, adultos devem ficar atentos quando o adolescente fica muito tempo imerso nos jogos e evita conversar com outras pessoas sobre o que está acontecendo.