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Gizelly Bicalho comia por ansiedade no BBB; emoções afetam o apetite?

Gizelly Bicalho, participante do "BBB 20" - Reprodução/Instagram @gizellybicalho
Gizelly Bicalho, participante do "BBB 20" Imagem: Reprodução/Instagram @gizellybicalho

Do VivaBem*, em São Paulo

16/07/2022 12h38

A advogada e ex-bbb Gizelly Bicalho, da edição de 2020, contou que sofreu com a compulsão alimentar durante o reality, causada pela ansiedade do confinamento.

"Eu sempre comi muito. A nutricionista me questionava se era ansiedade ou fome, e era fome. Quem me vê comendo diz que é impossível uma menina do meu tamanho comer desse jeito. No BBB, eu não tinha fome, mas comia porque a gente estava num ambiente muito tenso e eu ficava muito na xepa", disse em entrevista à revista Quem.

Bicalho compartilhou que comia muito nas festas como forma de suprir a vontade quando estava na xepa (um dos grupos no modelo de divisão do "BBB" com cardápio que inclui alimentos como: arroz, feijão, carnes mais baratas —moela, fígado, língua e rabada, por exemplo—, macarrão instantâneo, biscoitos, rapadura, entre outros). Em uma das vezes, ela chegou a ter ânsia de vômito pelo excesso de comida e bebida.

"Eu perdi todas as minhas roupas no programa, ainda bem que os patrocinadores começaram a mandar peças novas. Lá dentro eu não fui nada do que sou aqui fora", lembrou.

De acordo com a psicóloga Fátima Vasques, a ansiedade pode ser um fator que tem relação direta com a compulsão alimentar. O comer compulsivo, explica, resulta em quadros associados à fome emocional.

"Por não conseguir lidar com as emoções, o indivíduo acaba evitando a dor emocional buscando um prazer imediato e este se dá através da alimentação, como também a outros comportamentos evitativos como comprar, jogar", diz a também supervisora do grupo de Dependência de Comida do Pro-Amiti (Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso) do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Algumas táticas podem ajudar, como a prática regular de exercício físico, ioga, mindfulness e terapia.

Por que a ansiedade tira a fome de algumas pessoas e aumenta o apetite de outras?

Durante todo o processo alimentar, isto é, desde a entrada do alimento na cavidade oral até a sua eliminação, nosso corpo libera vários mediadores de fome e saciedade, como grelina, insulina, cortisol, glucagon, opioides, entre outros. Eles trazem sensações diferentes, como plenitude, prazer, afeto, recompensa, bem-estar, afago, dor, fome etc.

No caso de quem perde a fome, não há uma explicação concreta, mas existem suspeitas de que o instinto do ser humano esteja por trás. "Acreditamos que, com o estresse, essas pessoas têm o sistema de saciedade ativado. O parar para comer passa a ser uma ameaça, deixando o indivíduo vulnerável ao predador no modelo luta ou fuga da ansiedade", explica Anny de Mattos Barroso Maciel, psiquiatra especialista em transtornos alimentares pelo HCFMUSP.

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Emoções podem impactar a sensação de saciedade
Imagem: iStock

Pessoas ansiosas vivem tensas ou preocupadas com ameaças reais ou imaginárias. A ansiedade tem uma relação direta com o circuito do medo, ativando um neurotransmissor chamado noradrenalina, que pode fazer o indivíduo perder a fome, diz Fátima Vasques.

Já pessoas que comem mais quando estão ansiosas provavelmente têm uma super-resposta ao cortisol (hormônio do estresse responsável por má resposta à insulina). Isso provoca o aumento da fome e o ganho de peso nos quadros de resistência insulínica secundária ao estresse crônico, diz Maciel.

De acordo com ela, esses pacientes também apresentariam menor sensibilidade aos mediadores de dor, menor ativação da via do prazer e, como consequência, menor saciedade.

Pessoas ansiosas que comem mais têm menor recompensa com o alimento e precisam de muitas calorias (alimentos com alta densidade de carboidratos e gorduras) para atingirem a saciedade. Os ansiosos que comem muito tendem a ficar "desatentos" cognitivamente a vários estímulos, apresentando uma insaciável fome emocional.

Cuidados são necessários; entenda

Pessoas que perdem o apetite por causa da ansiedade devem evitar ficar longos períodos sem comer, aconselha a professora doutora Eline de Almeida Soriano, médica nutróloga do HUPAA (Hospital Universitário Professor Alberto Antunes), da UFAL (Universidade Federal de Alagoas).

Segundo ela, o indicado é tentar fazer as refeições nos horários habituais e dar preferência a alimentos que, em pequenas porções, já ofereçam uma boa quantidade de nutrientes, como feijão com arroz, carnes, peixes, verduras.

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Especialistas reúnem dicas que podem ajudar a se alimentar da melhor forma
Imagem: iStock

Caso não consigam se alimentar de forma satisfatória, uma opção é ingerir suplementos alimentares que possuem uma quantidade de nutrientes já definida e que complementará a dieta oral ineficiente. É importante reforçar que o indivíduo deve tentar se alimentar, mas não insistir, pois isso pode provocar náuseas e vômitos, piorando o quadro.

Pessoas que estão passando por crises de ansiedade também não devem pensar em dieta, mas sim em seguir uma alimentação saudável, comenta Rachel Bacha, nutricionista, doutora em bioquímica e imunologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e instrutora de mindfulness.

"Normalmente a palavra dieta vem com o tom de restrição ou uma prescrição que tenha regras, possíveis horários e qualquer movimento muito inflexível pode trazer mais uma contribuição negativa para este estado", diz ela. Fazer uma alimentação baseada em vegetais, produtos naturais, frutas, legumes, proteínas, gordura natural dos alimentos como sementes, castanhas, azeite pode trazer uma organização metabólica.

Quanto às pessoas que descontam a ansiedade na fome devem ficar de olho em questões que vão além do ganho de peso. "Elas devem tomar consciência de por que comem mais, qual sentimento está presente. Acredito que esses indivíduos não só ganham peso, mas vivem em uma eterna insatisfação com um ciclo vicioso de tentativa de restrição, controle e descontrole. Os sentimentos que restam são fracasso, impotência, fraqueza, o que não contribui em nada para acabar com a ansiedade", diz Bacha.

*com informações de reportagem publicada em 26/04/21