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Por que a ansiedade tira apetite de algumas pessoas e aumenta o de outras?

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Imagem: iStock

Bárbara Therrie

Colaboração para o VivaBem

26/04/2021 04h00

Em 2019, o Brasil foi considerado o país mais ansioso do mundo pela OMS (Organização Mundial da Saúde), com 18,6 milhões de brasileiros (ou 9,3% da população) convivendo com o transtorno. A forma como cada pessoa lida com a ansiedade pode variar, e isso inclui também alterações no apetite. Mas por que há indivíduos que perdem completamente a fome e outros que passam a comer mais quando estão ansiosos?

Durante todo o processo alimentar, isto é, desde a entrada do alimento na cavidade oral até a sua eliminação, nosso corpo libera vários mediadores de fome e saciedade, como grelina, insulina, cortisol, glucagon, opioides, entre outros. Esses mediadores trazem sensações diferentes, como plenitude, prazer, afeto, recompensa, bem-estar, afago, dor, fome etc.

No caso de quem perde a fome, não há uma explicação concreta, mas existem suspeitas de que o instinto do ser humano esteja por trás. "Não sabemos totalmente porque alguns pacientes ansiosos perdem a fome quando apresentam ansiedade, mas acreditamos que, com o estresse, eles têm o sistema de saciedade ativado. O parar para comer passa a ser uma ameaça, deixando o indivíduo vulnerável ao predador no modelo luta ou fuga da ansiedade", explica Anny de Mattos Barroso Maciel, psiquiatra especialista em transtornos alimentares pelo HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e terapeuta interpessoal pelo Prove (Programa de Atendimento a Violência e Estresse Pós-Traumático) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Pessoas ansiosas vivem tensas ou preocupadas com ameaças reais ou imaginárias. A ansiedade tem uma relação direta com o circuito do medo, ativando um neurotransmissor chamado noradrenalina, que pode fazer o indivíduo perder a fome, diz Fátima Vasques, psicóloga, especialista em obesidade e transtornos alimentares e supervisora dos terapeutas do grupo de Dependência de Comida do Pro-Amiti (Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso) do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.

Já pessoas que comem mais quando estão ansiosas provavelmente têm uma super-resposta ao cortisol (hormônio do estresse responsável por má resposta a insulina). Isso provoca o aumento da fome e o ganho de peso nos quadros de resistência insulínica secundária ao estresse crônico, diz Maciel.

De acordo com ela, esses pacientes também apresentariam menor sensibilidade aos mediadores de dor, menor ativação da via do prazer e, como consequência, menor saciedade. Pessoas ansiosas que comem mais têm menor recompensa com o alimento e precisam de muitas calorias (alimentos com alta densidade de carboidratos e gorduras) para atingirem a saciedade. Os ansiosos que comem muito tendem a ficar "desatentos" cognitivamente a vários estímulos, apresentando uma insaciável fome emocional.

exagero; comida - iStock - iStock
Algumas pessoas descontam a ansiedade na comida
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É preciso cuidado

Pessoas que perdem o apetite por causa da ansiedade devem evitar ficar longos períodos sem comer, aconselha a professora doutora Eline de Almeida Soriano, médica nutróloga do HUPAA (Hospital Universitário Professor Alberto Antunes), da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia.

Segundo ela, o indicado é tentar fazer as refeições nos horários habituais e dar preferência a alimentos que, em pequenas porções, já ofereçam uma boa quantidade de nutrientes, como feijão com arroz, carnes, peixes, verduras. Caso não consigam se alimentar de forma satisfatória, uma opção é ingerir suplementos alimentares que possuem uma quantidade de nutrientes já definida e que complementará a dieta oral ineficiente. É importante reforçar que o indivíduo deve tentar se alimentar, mas não insistir, pois isso pode provocar náuseas e vômitos, piorando o quadro.

Pessoas que estão passando por crises de ansiedade também não devem pensar em dieta, mas sim em seguir uma alimentação saudável, comenta Rachel Bacha, nutricionista, especialista em doenças crônicas não transmissíveis, doutora em bioquímica e imunologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e instrutora de mindfulness pelo Instituto Mindfulness e Cia no método MTI (Mestre Changchub).

"Normalmente a palavra dieta vem com o tom de restrição ou uma prescrição que tenha regras, possíveis horários e qualquer movimento muito inflexível pode trazer mais uma contribuição negativa para este estado", diz ela. Fazer uma alimentação baseada em vegetais, produtos naturais, frutas, legumes, proteínas, gordura natural dos alimentos como sementes, castanhas, azeite pode trazer uma organização metabólica.

Quanto às pessoas que descontam a ansiedade na fome devem ficar de olho em questões que vão além do ganho de peso. "Elas devem tomar consciência de por que comem mais, qual sentimento está presente. Acredito que esses indivíduos não só ganham peso, mas vivem em uma eterna insatisfação com um ciclo vicioso de tentativa de restrição, controle e descontrole. Os sentimentos que restam são fracasso, impotência, fraqueza, o que não contribui em nada para acabar com a ansiedade", diz Bacha.

A ansiedade pode ser um fator que pode apresentar uma relação direta com a compulsão alimentar, de acordo com a psicóloga Vasques, especialista em transtornos alimentares e supervisora dos terapeutas do grupo de Dependência de Comida do Pro-Amiti. Segundo ela, o comer compulsivo resulta em quadros associados à fome emocional. "Por não conseguir lidar com as emoções, o indivíduo acaba evitando a dor emocional buscando um prazer imediato e este se dá através da alimentação, como também a outros comportamentos evitativos como comprar, jogar", diz. Algumas táticas podem ajudar, como a prática regular de exercício físico, ioga, mindfulness e terapia.