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Depressão, insônia e mais: estudo rastreia saúde mental na pandemia

Mais afetadas por transtornos e sintomas foram jovens do sexo feminino com menor nível educacional, e que tiveram o sofrimento psíquico aumentado pelas dificuldades financeiras - iStock
Mais afetadas por transtornos e sintomas foram jovens do sexo feminino com menor nível educacional, e que tiveram o sofrimento psíquico aumentado pelas dificuldades financeiras Imagem: iStock

Júlio Bernardes

Do Jornal da USP

22/06/2022 11h11

A ocorrência de sintomas psiquiátricos, como ansiedade, insônia e estresse, aumentou no início da pandemia de covid-19, nos primeiros meses de 2020, porém, apresentou uma queda significativa no final do mesmo ano. Ao mesmo tempo, os transtornos mentais mais comuns, como depressão, mantiveram os níveis elevados de antes da pandemia, afetando cerca de 30% da população. Os resultados fazem parte de um estudo realizado com 5.061 participantes do Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) no Estado de São Paulo, descrito em artigo publicado na edição de janeiro da revista científica Journal of Anxiety Disorders.

A pesquisa mostra que as pessoas mais afetadas pelos transtornos são jovens, do sexo feminino e com menor nível educacional, que tiveram o sofrimento psíquico aumentado pelas dificuldades financeiras surgidas na pandemia e necessitam de maior atenção à saúde mental, em especial através de programas governamentais.

De acordo com o pesquisador Pedro Starzysnki Bacchi, do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e que é um dos autores do artigo, no início da pandemia, muito se especulava sobre as consequências da primeira onda de infecções por covid-19.

"Para compreender os resultados, é importante deixar clara a diferença entre transtornos psiquiátricos e sintomas psiquiátricos", explica Bacchi ao Jornal da USP. "É normal sentir medo, insônia e ansiedade perante uma ameaça, ou sentir-se triste e mais desanimado após uma perda de um ente querido. No entanto, estes sentimentos, os sintomas, não configuram doença, os transtornos, e existe um longo processo até que se diga que a pessoa está doente."

"A imposição de quarentenas, a sensação de ameaça iminente e a perda de pessoas próximas fazia crer que a população adoeceria não só fisicamente como psiquicamente. Os primeiros estudos, a maioria feitos na China, deixaram a comunidade científica ainda mais atenta, devido às altas taxas de sintomas ansiosos, depressivos e de insônia", conta o pesquisador. "No entanto, as limitações metodológicas impostas pela pandemia, somadas à necessidade de resultados rápidos, dificultaram o delineamento de estudos rigorosos, capazes de avaliar a variação nas taxas de transtornos mentais."

Para entender como a saúde mental estava sendo afetada pela pandemia, a pesquisa teve como ponto de partida as informações coletadas pelo Elsa-Brasil, um estudo epidemiológico iniciado em 2008 que conta com participantes distribuídos pelo Brasil, em núcleos sediados em grandes universidades. "O Elsa-Brasil já portava um banco de dados muito rico com informações sobre seus 15 mil participantes, que haviam sido avaliados em três momentos anteriores, entre 2008 e 2010, 2012 a 2014 e 2016 a 2018", afirma o pesquisador. "Na esfera de saúde mental, foram avaliados, principalmente, transtornos depressivos e ansiosos que, somados, podem chegar a uma prevalência de até 30% na população, e por isso também recebem o nome de transtornos mentais comuns."

Inicialmente, o trabalho fez a reavaliação de 5.061 participantes do núcleo do Estado de São Paulo do Elsa-Brasil, entre os meses de maio a dezembro de 2020, com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "Para isto, uma equipe foi formada para entrar em contato com cada pessoa através de e-mails, ligações e WhatsApp. Usamos um sistema de coleta de informações para pesquisa científica chamado RedCap, criado na Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, e reestruturamos as avaliações anteriores para versões que pudessem ser aplicadas a distância de forma intuitiva e prática", descreve Bachhi. "Incluímos também um extenso questionário, levando em consideração antecedentes psiquiátricos e clínicos, hábitos, condições de vida financeira e doméstica, impactos da pandemia sobre diversas esferas da vida e muitas outras informações que julgamos relevantes."

Durante o ano de 2020, foram coletadas três "ondas" de informações, de maio a junho, de julho a setembro, e de setembro a dezembro. "No transcorrer do projeto, percebemos que a pandemia evoluía de forma mais 'crônica' do que imaginávamos, e fomos nos adaptando a esta realidade com diversas coletas", aponta o pesquisador. "No final do ano, com esses dados em mãos, realizamos análises para apresentar os resultados de forma descritiva e também buscamos responder nossas perguntas principais: como as taxas de sintomas psiquiátricos e os transtornos mentais mudaram de antes para durante a pandemia, quais grupos sociodemográficos e quais fatores estavam relacionados a transtornos mentais no período, e como os sintomas psiquiátricos evoluíram ao longo do tempo."

Sintomas

A pesquisa avaliou transtornos mentais comuns, isto é aqueles mais prevalentes na população, principalmente transtornos ansiosos e depressivos. "Para isso, realizamos um tipo de entrevista chamada CIS-R, desenvolvida na Inglaterra, capaz de sugerir diagnósticos com maior precisão", relata Bacchi. "Essa entrevista já tinha sido aplicada nas ondas anteriores do Elsa, o que nos deu uma noção da evolução dos níveis dos sintomas antes e durante a pandemia. Além disso, também usamos uma escala mais simples para medir depressão, ansiedade e estresse."

"Em relação a sintomas, pudemos observar que houve um aumento no início da pandemia, sucedido por uma queda importante, retornando aos níveis anteriores à covid-19", aponta o pesquisador. "Isto está alinhado com outros estudos, que descreveram padrões muito semelhantes em outros países."

De acordo com Bacchi, ao contrário dos sintomas, os transtornos psiquiátricos se mantiveram em patamares muito semelhantes aos registrados anteriormente na amostra do estudo. "Neste aspecto, a literatura global é conflitante. Alguns estudos demonstraram aumento e outros demonstraram estabilidade ou até redução nesses transtornos. Pesquisas mais recentes demonstraram que realmente houve um aumento de transtornos psiquiátricos durante a pandemia", observa. "Algo importante a ser considerado é que o Brasil já apresentava níveis extremamente altos de adoecimento mental. É possível que estivéssemos próximos a um 'teto'' do quanto uma população pode desenvolver doenças psiquiátricas."

Em relação às populações mais afetadas, os resultados mostraram que as pessoas mais jovens, do sexo feminino e de mais baixo nível educacional tiveram mais transtornos mentais durante a pandemia. "Lidar com as dificuldades financeiras que emergiram durante a pandemia, além de suportar a dupla jornada de trabalho e doméstica, colocam uma pressão muito elevada sobre essas populações. Esses grupos já eram, anteriormente, os que mais sofriam psiquicamente, e tudo nos diz que isso está aumentando", destaca Bacchi. "Outros fatores que aumentaram o sofrimento mental na pandemia foram antecedentes psiquiátricos, comorbidades clínicas, preocupações com questões financeiras e estresse associado às novas condições impostas pela pandemia."

Entre os fatores protetores foram mencionados a boa saúde física e a qualidade nas relações sociais. Pessoas que se sentem alinhadas com as medidas tomadas pelo governo tiveram também menos adoecimento psiquiátrico. "Membros de minorias étnicas, de níveis socioeconômicos menos privilegiados e mulheres devem receber atenção especial em relação à saúde mental. Programas governamentais devem focar nestas populações para evitar um aprofundamento das feridas sociais do Brasil", recomenda o pesquisador. "Se isso não ocorrer, podemos deixar a elas um legado sombrio não somente em questões sanitárias e financeiras, mas também na carga de sofrimento psíquico."

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