PUBLICIDADE

Topo

Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Equilíbrio

É controlador? Às vezes, viver sem querer planejar tudo é mais saudável

iStock
Imagem: iStock

Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo

26/05/2022 04h00

Imagine que você planejou assistir a um filme recém-lançado em uma plataforma de streaming com alguém em casa, mas, por algum motivo, ela não está funcionando. E mesmo que tenha feito uma comida gostosa, preparado uns drinques e a companhia seja boa, você não vai conseguir aproveitar nada disso, porque o sentimento de raiva e frustração falam mais alto.

Isso é o que acontece com quem pauta a vida em um planejamento regrado e que não tolera mudanças de última hora. Esses indivíduos não conseguem nem ao menos cogitar um plano B, ainda que ele exista e seja de fácil execução.

"Imprevistos acontecem sempre e pessoas que não conseguem levar as coisas com humor e facilidade sofrem e fazem sofrer quem está ao redor", pontua Graça Oliveira, psicóloga supervisora do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do IPq-USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo).

Quando uma pessoa se apega a uma única possibilidade, ela não consegue usar sua própria criatividade para sair da rotina. Isso, entre outras coisas, impede que ela tenha boas surpresas. "A mente, para ser criativa, precisa de um certo grau de desordem. Então viva as experiências com suas intensidades. Se você quer beijar, beije, se quer correr, corra. O planejamento é necessário em certas áreas da vida para atingirmos certos objetivos, mas temos que ter margem e uma certa flexibilidade para lidar com imprevistos", aconselha Cláudio Paixão, doutor em psicologia social pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Segundo Paixão, quando não planejamos e deixamos as coisas acontecerem naturalmente, é possível viver experiências únicas, que não viveríamos se tivéssemos planejado. "Quando estamos ligados apenas no aqui e agora conseguimos aproveitar as experiências de uma forma muito mais intensa", diz. Um planejamento muito rígido deixa a pessoa preocupada se a sua realidade está coerente com aquilo que foi planejado e, caso não esteja, acaba ficando frustrada.

Planejar o básico é essencial para viver

Se por um lado podemos deixar as coisas rolarem naturalmente, sem planejamento, por outro, não. Para mudar de emprego, estudar, viajar, entre tantas outras coisas que normalmente fazemos ao longo da vida, pode ser necessário um bom planejamento.

"Em uma viagem, por exemplo, você precisa planejar se vai de avião ou de carro, se deve levar mais roupa de frio ou de calor. O planejamento é necessário para isso. Para executar qualquer tarefa você precisa planejar, por isso algum tipo de planejamento precisa existir", diz Paixão.

Segundo o especialista, quem planeja demais consegue, às vezes, ter uma segurança maior, desde que as coisas não fujam do esperado. Mas, por outro lado, dependendo dos planos, eles "aprisionam" a pessoa. Por isso é preciso que exista um equilíbrio.

"Tudo que é muito exagerado tende a causar adoecimentos emocionais, mas 'deixa a vida me levar' só funciona na música do Zeca Pagodinho. É importante ter objetivos, sonhos e desejos, assim como saber viver o presente, de acordo com o que conseguimos lidar", diz Melina Comerio Moraes, psicóloga clínica da rede Amor Saúde. Para ela, a partir do momento que existe um roteiro de responsabilidades diárias, pode vir a fluidez. É preciso ser flexível para avaliar as possibilidades.

Personalidade ajuda a explicar mania de planejamento

Traços de personalidade influenciam na percepção das coisas - iStock - iStock
Traços de personalidade influenciam na percepção das coisas
Imagem: iStock

Moraes reitera que as pessoas não são controladoras à toa, e tais reações se devem, sobretudo, à sobrecarga individual. Elas se preocupam com tudo para que a situação saia da melhor forma possível, e tendem a evitar qualquer tipo de desconforto. "Fantasiam situações que às vezes não irão ocorrer, o que gera várias sensações desagradáveis, como dores no corpo e palpitações, sintomas típicos de ansiedade", destaca a psicóloga da rede Amor Saúde.

Além disso, algumas pessoas têm dificuldade em lidar com a situação quando os planos não saem como o esperado devido aos seus próprios traços de personalidade, conforme explica a psicóloga do IPq-USP. "Quem tem o hábito de planejar tudo nos mínimos detalhes é uma pessoa que tem características próprias, diferente de quem é mais espontâneo. Então, nós estamos falando de características de personalidade", diz Oliveira.

De acordo com a especialista, nesses casos a possibilidade de mudança é pequena, já que a personalidade é moldada com o passar do tempo. "E isso pode implicar nas relações interpessoais", diz.

O ideal, segundo os especialistas, é que haja um equilíbrio. Para atingi-lo, pode-se usar algumas técnicas a fim de facilitar esse processo de flexibilização. Em casos leves, uma boa pedida é apostar em meditação, terapia, massagem e exercícios de respiração.

"Diante do planejamento, podemos esbarrar com frustrações, que é um sentimento invasivo para o nosso emocional, mas possível de ser contornado. Trabalhe a aceitabilidade de que condições externas e internas podem atrasar e/ou atrapalhar seu planejamento e lembre-se que isso é normal", diz Moraes.

Outra dica para lidar com situações que deram errado é reduzir, antecipadamente, as expectativas. Isso deve ajudar quando as coisas não saem como o planejado.

Fontes: Claudio Paixão, doutor em psicologia social pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais); Graça Oliveira, psicóloga supervisora do Serviço de Psicologia e Neuropsicologia do IPq-USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo); Melina Comerio Moraes, psicóloga clínica da rede Amor Saúde; Renan Correa Santos, psicólogo, especialista em neuropsicologia e coordenador do curso de psicologia da unidade Anhanguera Macapá (AP).

Equilíbrio