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Pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo levam anos para buscar ajuda

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Imagem: iStock

Do Jornal da USP

22/05/2022 13h40

Pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), integrantes do Consórcio Brasileiro de Pesquisa sobre o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, investigaram a latência para a procura por tratamento em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) em uma grande amostra brasileira.

Os dados mostraram que levou pelo menos quatro anos para que essas pessoas recebessem tratamento específico para a doença. Um artigo sobre o tema, Latency to treatment seeking in patients with obsessive-compulsive disorder: Results from a large multicenter clinical sample, acaba de ser publicado na revista Psychiatry Research.

A doença é caracterizada pela presença de obsessões (pensamentos, ideias ou imagens repetitivas, indesejáveis e angustiantes) e compulsões (comportamentos repetitivos ou rituais mentais destinados a reduzir o sofrimento provocado por obsessões).

No estudo liderado pelo psiquiatra Daniel Costa, foi investigado o tempo entre o surgimento do desconforto causado pelos sintomas do TOC e o início do tratamento específico para esta condição. Também foram pesquisadas as características clínicas e sociodemográficas capazes de influenciar este desfecho.

Metade dos mais de 1.000 pacientes, avaliados em oito centros de pesquisa especializados no TOC de diferentes regiões do Brasil, levou pelo menos quatro anos para receber tratamento específico para o transtorno, tempo considerável levando em conta os prejuízos e limitações impostos pela doença.

Pacientes mais velhos, que tiveram o início dos sintomas na infância/adolescência, que apresentavam sintomas ligados à sujeira/contaminação (nojo excessivo, medo exagerado de contaminação, rituais de limpeza e lavagem) ou que estavam empregados em tempo integral demoraram ainda mais para receber tratamento específico.

Os pesquisadores discutiram também as possíveis causas dessas associações. Sintomas da dimensão de sujeira/contaminação/limpeza, apesar de serem manifestações mais comuns e conhecidas do TOC, são os mais frequentemente associados a um fenômeno conhecido como acomodação familiar, que consiste basicamente em modificações do ambiente e do comportamento dos familiares ou pessoas que convivem intimamente com a pessoa com TOC, de forma a evitar que ela entre em contato com situações consideradas desagradáveis, capazes de causar desconforto.

Em outras palavras, os familiares que moram na mesma casa adotam comportamentos parecidos com os do portador de TOC, por exemplo: tiram os sapatos antes de entrar em casa, executam os mesmos rituais de limpeza, tiram o lixo de casa porque sabem que isso não poderia ser feito pelo familiar que sente nojo excessivo ou que tem medo de contaminação. Isso garante um ambiente protegido para quem tem TOC e torna mais "fácil" a convivência familiar.

Por outro lado, isso tende a restringir as possibilidades de convívio social de quem tem TOC, ou seja, eles passam a evitar ambientes onde essas medidas não são amplamente adotadas.

A acomodação familiar pode dificultar a busca pelo tratamento porque, de certa forma, o paciente e a família ficam adaptados a esse estilo de vida.

Já a associação entre o aumento do tempo para buscar tratamento e o aumento da idade pode ser explicada pelo fato de que a terapia farmacológica do TOC, atualmente considerada de primeira linha, foi desenvolvida na década de 1990.

Portanto, os pacientes que participaram da pesquisa nascidos antes disso levaram mais tempo para receber o tratamento adequado justamente porque naquela época não havia intervenções eficazes.

Isso também explica, em parte, a associação entre o maior tempo para buscar ajuda quanto menor a idade de aparecimento dos sintomas. Além disso, sintomas do TOC que se iniciam na infância/adolescência precisam ser reconhecidos pelos pais ou cuidadores para que a busca de tratamento aconteça, o que pode ser difícil levando em conta o repertório restrito de crianças e adolescentes para expressarem algum tipo de sofrimento emocional.

A pesquisa mostrou ainda que as pessoas com TOC que estavam empregadas demoravam mais para buscar ajuda em relação às que não trabalhavam em tempo integral.

Uma das possíveis explicações é que essas pessoas podem acreditar que, apesar dos sintomas, elas "funcionam" bem, o que pode diminuir a sua percepção de que têm um problema de saúde tratável.

Estratégias para melhorar o acesso ao tratamento

Os pesquisadores discutiram também quais estratégias podem ser adotadas para reduzir o tempo até o início do tratamento. Entre elas, destacam a promoção de educação continuada para os profissionais de saúde visando a aumentar a identificação do transtorno; a criação de serviços de saúde mental especializados para a implementação de tratamentos baseados em evidências; e a realização de campanhas educativas sobre como reconhecer os sintomas do TOC, voltadas à população em geral.

Com isso, esperam reduzir a duração da doença não tratada, o que pode minimizar o sofrimento e os impactos do TOC na vida das pessoas que convivem com essa condição.

Vagas para pacientes voluntários

O Programa Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (Protoc), do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, dispõe de vagas para pacientes voluntários com TOC em vários projetos de pesquisa, onde serão testados e oferecidos gratuitamente diferentes tratamentos. As informações completas sobre como participar estão disponíveis no site do IPq https://ipqhc.org.br/saude/triagens-para-projetos-de-pesquisa/

Texto: Assessoria IPq

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