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Ômicron frustra esperança de imunidade de rebanho, dizem especialistas

Colaboração para o VivaBem, em Brasília*

21/01/2022 15h02

A variante ômicron não deve ajudar os países a alcançar a chamada imunidade de rebanho contra o novo coronavírus, causador da covid-19, dizem os principais especialistas em doenças.

"Atingir um limite teórico além do qual a transmissão cessará provavelmente não é realista, dada a experiência que tivemos na pandemia", disse em entrevista à Reuters o médico Olivier le Pollain, epidemiologista da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Projeta-se atualmente que o novo coronavírus se torne endêmico, circulando persistentemente na população e causando surtos esporádicos. O surgimento da ômicron, no entanto, levantou questões sobre exatamente quando isso pode acontecer.

Desde os primeiros dias da pandemia, as autoridades de saúde pública expressaram esperança de que fosse possível alcançar a imunidade de rebanho contra a doença, desde que uma porcentagem alta o suficiente da população fosse vacinada ou infectada com o vírus.

Mas essas esperanças diminuíram à medida que novas variantes foram surgindo em rápida sucessão no ano passado.

"Enquanto a imunidade da população se mantiver com essa variante e variantes futuras, teremos sorte e a doença será controlável", afirmou David Heymann, professor de epidemiologia de doenças infecciosas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Especialistas destacam que há evidências de que vacinas e infecções anteriores ajudariam a aumentar a imunidade da população contra a covid-19, o que torna a doença menos grave para aqueles que são infectados ou reinfectados.

Futuro imprevisível

"O que estamos vivendo não é uma nova onda, é um tsunami", afirma a médica Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, e membro da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Segundo ela, há uma quantidade de casos jamais vista antes. "Quem ainda não teve a covid-19 logo terá ou, então, já teve e não sabe, porque está impossível ir para qualquer local sem cruzar com essa nova variante", diz.

"Quem apontar qualquer coisa que irá acontecer depois de ômicron com muita segurança provavelmente estará chutando feio", afirma Rosana. "Só o tempo dirá. O que posso fazer, neste momento, é apenas dar a minha opinião."

Covid: mutações e vacinas atuais agravam o problema

As vacinas atuais contra a covid-19 foram criadas para prevenir doenças graves e morte, em vez de infecção.

Resultados de ensaios clínicos no fim de 2020, que indicaram que duas vacinas à época tinham mais de 90% de eficácia contra a doença, inicialmente despertaram a esperança de que o vírus pudesse ser contido pela imunização em massa, como outras doenças foram no passado.

Mas, com o Sars-CoV-2, dois fatores minaram esse sinal de luz ao fim do túnel. A primeira é que a imunidade, especialmente à infecção, diminui rapidamente - pelo menos com as vacinas que temos agora. A segunda é que o vírus pode sofrer mutações rapidamente para driblar a proteção da vacinação ou infecção anterior — mesmo quando a imunidade não diminuiu.

Para o médico David Wohl, especialista em doenças infecciosas da Escola de Medicina da Unidade da Carolina do Norte, nos EUA, tudo muda de figura quando as pessoas vacinadas ainda podem espalhar vírus e infectar outras pessoas.

"Só porque você pegou a ômicron, talvez isso o proteja de pegar ômicron novamente, talvez", disse Wohl, ao alertar contra a suposição de que a infecção pela variante aumentaria a proteção, especialmente contra uma eventual próxima cepa.

Vacina contra futuras variantes podem demorar

Vacinas em desenvolvimento que fornecem imunidade contra futuras variantes ou mesmo vários tipos de coronavírus podem mudar isso, disse Pasi Penttinen, o principal especialista em gripe do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, mas levará tempo.

Ainda assim, a esperança de imunidade de rebanho como um bilhete de volta à vida normal é uma possibilidade distante.

"Li na mídia que alcançaríamos a imunidade do rebanho quando 60% da população for vacinada. Isso não aconteceu. Então, para 80%. Mais uma vez, não aconteceu", disse François Balloux, professor de biologia de sistemas computacionais da University College London, à Reuters.

"Por mais horrível que pareça, acho que temos que nos preparar para o fato de que a grande maioria, essencialmente todo mundo, será exposta ao Sars-CoV-2", disse Balloux.

* Com informações da Reuters.

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