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Tipo de estimulação magnética transcraniana é ineficaz para depressão mista

Getty Images
Imagem: Getty Images

Ivanir Ferreira

Do Jornal da USP

25/07/2021 04h00

Resultados de uma pesquisa realizada no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP descartam o uso de estimulação magnética transcraniana, modalidade theta-burst (TBS), no tratamento de pessoas com depressão mista - um subgrupo da doença com baixa resposta ao tratamento convencional da depressão, os antidepressivos.

O estudo, que durou seis semanas e contou com a participação de 90 voluntários com transtorno bipolar e transtorno depressivo maior (depressão clássica), mostrou ausência de eficácia na resolução dos sintomas neste tipo de depressão, confirmando outros estudos que mostram a resistência desses pacientes a tratamentos convencionais.

Os resultados obtidos são de grande importância porque vão servir para orientar a decisão dos médicos quanto aos protocolos mais adequados para tratar pacientes com sintomas mistos de depressão na vida real. Um artigo descrevendo o estudo foi publicado dia 30 de junho na revista Neuropsychopharmacology - Pubmed.

Segundo o médico psiquiatra Diego Freitas Tavares, do IPq, autor da pesquisa e o primeiro autor do artigo, a depressão mista se apresenta como um quadro diferente em termos de curso clínico, tendo elevada recorrência (mais de três episódios depressivos ao longo da vida) e com menor resposta aos tratamentos convencionais. Ocorre tanto em portadores de depressão clássica quanto em pessoas com transtorno bipolar. Na depressão mista, há uma combinação variada de sintomas de depressão e de agitação, que traz mais sofrimento aos pacientes, relata Tavares ao Jornal da USP.

Os principais sintomas incluem humor deprimido (tristeza, culpa e sentimento de inutilidade), redução na capacidade de sentir prazer pelas coisas e falta de energia e motivação - próprios de uma depressão comum. Associado a essas questões, o paciente também pode ser acometido por uma grande quantidade de pensamentos, dificuldade de concentração, irritabilidade e aumento da impulsividade - próprios da ativação. "Nesses quadros, os antidepressivos tendem a causar piora da depressão, intensificando a agitação, a irritabilidade, a insônia, a ansiedade, a quantidade de pensamentos, a dificuldade de concentração e a tristeza, com o surgimento de angústia e desespero, e mais comportamentos compulsivos (comer, fumar, beber, gastar, se masturbar, etc.)", explica.

Estimulação magnética transcraniana

Segundo o pesquisador, a estimulação magnética transcraniana (EMT) é uma técnica não farmacológica já amplamente utilizada no tratamento dos transtornos de humor (depressão e transtorno bipolar). É considerada uma técnica de neuromodulação pois teria capacidade de regular o funcionamento cerebral sem o uso de psicofármacos. A técnica consiste na utilização de ondas magnéticas que vão produzir mudanças nos neurocircuitos cerebrais, que modulam as regiões envolvidas com os transtornos do humor, com as áreas límbicas e associadas aos níveis de energia, ao impulso e ao pensamento, explica.

Mais recentemente, foi desenvolvida uma nova modalidade de estimulação magnética, a TBS, cuja vantagem principal seria o menor tempo de duração da sessão em relação à EMT convencional: em torno de 10 minutos na TBS, enquanto que a EMT convencional tem duração de cerca de 45 minutos.

Como o estudo foi feito

A pesquisa foi feita com metodologia de ensaio clínico randomizado, controlado e duplo-cego (método no qual nem o voluntário da pesquisa nem o investigador sabem o que está sendo utilizado) para não haver tendência de avaliação enviesada dos dados.

Os voluntários foram convocados por meio de redes sociais e tiveram como critério ter tido episódios depressivos graves moderados ou graves com características mistas e terem recebido pelo menos um tratamento farmacológico de primeira ou segunda linha, sem resposta positiva. Depois desta etapa, e após feita uma triagem presencial para avaliação clínica e neuropsicológica, foram selecionados os 90 pacientes que efetivamente participaram da pesquisa. O grupo era composto na maior parte de mulheres com idade entre 18 e 65 anos.

No centro de pesquisa, os pacientes foram divididos em dois grupos, metade recebeu os estímulos magnéticos (grupo ativo) e o outro não (grupo simulado), lembrando que nem os pacientes nem os pesquisadores sabiam em que grupos cada paciente se encontrava. Igualmente, todos passaram pelo mesmo procedimento, com a diferença de que, para um dos grupos, o equipamento simulava a emissão do estímulo magnético mas não o fazia.

Foram seis semanas de pesquisa e observações. Nas primeiras três semanas, foram administradas sessões diárias (uma sessão por dia, durante cinco dias consecutivos) e nas semanas seguintes a técnica foi conduzida de forma mais espaçada (uma sessão, dois dias por semana) para minimizar os efeitos de descontinuidade das intervenções.

Resultados

Ao final das seis semanas, os pesquisadores verificaram que, embora a técnica tenha demonstrado segurança e boa tolerância, não houve diferenças significativas na melhora do quadro da depressão entre os pacientes dos dois grupos, inclusive com uma tendência de piora nos participantes que pertenciam ao grupo ativo. As estimulações ativas e simuladas foram semelhantes na taxa de eventos adversos (cefaleia, dor cervical, dor no couro cabeludo, queimação no couro cabeludo, dificuldade auditiva, dificuldade de concentração, alterações cognitivas, variações de humor e convulsão) e graves (agravamento da depressão e virada maníaca decorrente do tratamento).

Diego Tavares disse que sua hipótese inicial era de que os pacientes que receberam TBS ativa tivessem maior redução nos sintomas depressivos mistos em relação aos que receberam TBS simulada, sugerindo que a TBS tivesse efeito estabilizador de humor, mas este resultado não se confirmou na prática.

No momento, o tratamento mais indicado para essa modalidade de depressão são os estabilizadores do humor, uma classe de medicamentos que inclui alguns fármacos como lítio, anticonvulsivantes (ácido valproico e carbamazepina) e antipsicóticos (risperidona, olanzapina, quetiapina, aripiprazol, ziprasidona, entre outros), conclui o pesquisador.

Tipos de depressão

Segundo o médico psiquiátrico Diego Tavares, a depressão não se manifesta de forma idêntica nas pessoas e cada espectro da doença exige avaliação criteriosa e acompanhamento de um profissional de saúde.

  • Na depressão melancólica, os sintomas mais comuns são tristeza, culpa, sentimentos de inutilidade e desesperança, insônia, falta de apetite, queda na concentração e queda na libido.
  • Na depressão atípica ocorre inversão dos sintomas da depressão melancólica: ao invés de insônia a pessoa apresenta sono excessivo; ao invés de falta de apetite, também há compulsão alimentar.
  • Na depressão ansiosa, a pessoa tem medo, preocupações e antecipação negativa do futuro. Na depressão mista, os pensamentos são acelerados, há maior irritabilidade e comportamentos compulsivos de compra, de sexo e na forma de reagir a situações a aos outros.
  • Na depressão psicótica, além dos sintomas típicos da depressão, a pessoa apresenta delírios (crenças irreais, como estar sendo perseguido) e alucinações (ver ou ouvir coisas que os outros não estão percebendo).
  • A depressão pós-parto está ligada à queda da produção de hormônios que ocorre logo após o parto.
  • E a depressão sazonal está associada à falta de luz solar e costuma acometer pessoas que moram em países de climas bastante frio, como a Noruega, e em alguns lugares do Canadá e EUA, onde a disponibilidade de luz natural é menor em períodos de inverno extremo.

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