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Covid: Variantes são mais contagiosas e elevam número de casos?

Hospital de campanha de Santo André (SP) - Amanda Perobelli/Reuters
Hospital de campanha de Santo André (SP) Imagem: Amanda Perobelli/Reuters

Guilherme Castellar

Colaboração para o UOL, do Rio

15/06/2021 04h00

O surgimento de novas cepas do novo coronavírus causador da covid-19 vem sempre acompanhado de apreensão e novas dúvidas. A preocupação maior é se as novas variantes trazem mutações que podem impactar na transmissão da doença e na sua gravidade.

As quatro principais variantes do sars-cov-2 que são monitoradas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelos países, têm, em comum, mutações genéticas que elevam a capacidade do vírus de infectar as pessoas. E isso pode levar a um aumento na chamada carga viral, ou seja, a quantidade de vírus que uma pessoa carrega no corpo.

As novas cepas têm uma melhor capacidade de aderir às nossas células. E o SARS-CoV-2 precisa invadi-las para se multiplicar no organismo. Como as variantes conseguem infectar mais células do hospedeiro, o vírus se replica mais. Se temos mais cópias, temos uma carga viral maior para contaminar os outros."
Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas

A variante gamma do vírus, que foi descoberta no Amazonas no final do ano passado e colaborou para a forte segunda onda da pandemia que o Estado enfrentou, pode gerar uma carga viral até 10 vezes maior que o coronavírus original, segundo trabalho elaborado pela Fiocruz Amazônia.

A quantidade de vírus no organismo pode ser inferida pelo exame PCR tradicional, mas com uma análise mais detalhada em laboratório. A amostra é analisada em um equipamento específico, que envolve vários ciclos de análise. A grosso modo, quanto menos ciclos forem necessários para identificação do vírus, maior é a carga viral da amostra.

Especialistas ouvidos pelo UOL desconhecem a existência de comparativos de carga viral entre as variantes de preocupação existentes. Mas é possível comparar o aumento de transmissibilidade por meio de estudos epidemiológicos, que analisam a taxa de contágio em uma população.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doença (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, a primeira nova cepa do coronavírus identificada, a alpha, no Reino Unido, elevou em 50% a transmissão da doença. Mesmo índice apontado para a variante Beta, surgida na África do Sul. O CDC ainda não possui dados para a gamma nem para delta, recém-identificada na Índia.

Mas modelo matemático elaborado com participação do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, estimou que a gamma é cerca de duas vezes mais contagiante.

Mais vírus, mais casos

Entre os especialistas, não há muitas dúvidas de que cepas mais transmissíveis geram, consequentemente, aumento nos casos e hospitalizações em uma população.

Mas as mutações do vírus não são as únicas responsáveis: a flexibilização das medidas de controle sanitário, como uso de máscara e distanciamento social, também impacta diretamente na disparada de casos e óbitos, como o que se vê do Brasil nos últimos meses.

No entanto, isso não significa que o vírus seja mais letal.

As variantes de preocupação predominam em uma região, são mais transmissíveis e matam mais, mas não por elas serem mais virulentas, mas pelo número de pessoas infectadas pelo vírus ser muito maior e, consequentemente, o de óbitos também."
Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas

Na linha de frente do combate à covid-19, ou seja, nos hospitais e consultórios onde os pacientes são tratados, a quantidade de vírus no corpo ainda não tem implicação clínica.

Mesmo que um vírus se multiplique mais rápido que outro, a gente não vê uma correlação clínica disso. O que importa mais é como ele gera uma resposta do hospedeiro para afetar o organismo."
Natalen Adiwardana, infectologista

Em abril, saiu um estudo publicado nas revistas científicas The Lancet Infectious Diseases e The Lancet Public Health, que indicava que a cepa alpha, apesar de ser mais contagiosa, não era mais grave e nem elevava o risco de morte. Mas sob a ótica da saúde pública, o fato de ela ser mais contagiosa fez disparar a quantidade de casos e, logo, o número de óbitos.

Na prática, observa Adiwardana, o quantitativo de vírus no corpo não é tão relevante nem do ponto de vista clínico nem para controle de pandemia. "Às vezes a presença [de vírus no paciente] pode ser pouca, mas a doença evolui com gravidade. Outras vezes, a carga viral é alta e a pessoa é assintomática."

Além disso, completa o infectologista, é temerário dizer a uma pessoa que ela tem menos vírus e sugerir que isso pode ser seguro. "Ela precisa ser isolada, independentemente da quantidade de vírus identificada."

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