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"A que ponto chegamos?", desabafa enfermeira de UTI covid em Porto Alegre

Martina Zucchetti traz relato angustiante sobre o dia a dia de uma UTI covid em Porto Alegre - Arquivo pessoal
Martina Zucchetti traz relato angustiante sobre o dia a dia de uma UTI covid em Porto Alegre Imagem: Arquivo pessoal

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

26/03/2021 11h00

Quando Martina Zucchetti, 30, falou com a reportagem de VivaBem, ela havia acordado há cerca de 15 minutos depois de mais um plantão exaustivo. "Consegui dormir bastante dessa vez", contou.

Enfermeira no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, ela atualmente se dedica apenas à UTI com pacientes da covid-19. Em novembro de 2020, adoeceu por causa do novo coronavírus (Sars-CoV-2). "Tive sintomas clássicos, dor, falta de ar, perdi paladar e olfato", lembra ela, que sentiu as sequelas da doença mesmo após voltar ao trabalho. Assim como outros profissionais da saúde, o agravamento da pandemia criou um cenário de guerra no dia a dia profissional dela. Confira o depoimento a seguir.

"Sou enfermeira na UTI de covid-19 do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. A situação que vivemos é deprimente, não tem outra forma de falar. Às vezes o plantão acaba e não dá vontade de voltar no dia seguinte.

Porto Alegre vive uma situação que nunca tivemos, com hospitais públicos e privados lotados. É urgência o tempo todo. Todo dia é um desafio diferente, um volume muito grande de mortos. A cada plantão, fazemos a mesma pergunta: 'Meu Deus, o que nos espera hoje?'.

Os leitos não ficam vagos nunca. Já aconteceu de, no espaço de uma hora, perdermos um paciente e já ter outro para entrar no lugar. Eles chegam muito mais graves e mais jovens, o atendimento precisa ser rápido. Graças a Deus, estamos mais treinados, conseguimos ser mais rápidos.

O mais triste é ver as enfermarias lotadas. É o que está me destruindo por dentro, essa sensação de ter que escolher quem vai subir pra UTI, de não conseguir ajudar todo mundo.

Nunca vimos o que está acontecendo, o consumo de oxigênio é enorme. Por enquanto, ainda temos estoque, mas sei que, nas cidades do interior, já está faltando.

Não esperávamos chegar a esse ponto. Eu mesma achei que, depois de 2020, estaríamos mais preparados. Mas, não. Parece que voltamos à estaca zero.

Emocionalmente, é a fase mais pesada que já vivi. Estamos vendo muitos amigos morrendo, muitos colegas tratando de colegas que foram infectados. Colegas e familiares internados juntos na mesma UTI. O pior é o sentimento de fazer tudo o que podemos e, mesmo assim, não ser suficiente para salvar a vida das pessoas.

Minha vida pessoal está num limbo. Moro sozinha e vivo para o trabalho. Mas sinto que, nos últimos meses, só existo. Tento dormir o máximo que posso. Mas me sinto sobrecarregada a maior parte do tempo.

Tinha uma rotina de ir ao mercado, de ir à feira, que era um prazer, quase uma terapia, sabe? E agora nem isso mais eu tenho, sair de casa é um sofrimento. Arrumar a casa, até lavar a roupa é cansativo.

Me sinto exausta o tempo todo. Esses dias, esqueci o aniversário da minha melhor amiga. Chorei muito, isso nunca aconteceu. Fiquei tão chateada que pensei em largar o emprego. Mas as pessoas precisam de mim, isso é o que mais me motiva.

A sorte que tenho é trabalhar com uma equipe muito boa. São médicos, enfermeiros, fisioterapeutas. Aliás, pode escrever aí, os fisios são incríveis e sem eles nada do que fazemos seria possível.

Estamos todos frustrados também. Não tem desculpa mais para não entender o que está acontecendo. E as pessoas ainda assim escolhem negar a realidade. Eu saio do plantão depois de ter perdido seis pacientes de uma vez e vejo as pessoas no barzinho, sabe? Ou tenho que ouvir que estou exagerando, que é 'terrorismo'. Como assim?

Ir trabalhar não é um sofrimento. Mas esperava mais sensibilidade por parte da população. É um desgaste físico e mental diário que temos vivendo tudo isso.

Fisicamente, também estou exausta. Temos que pronar [técnica que consiste em virar o paciente de barriga para baixo para melhorar a oxigenação] muitos pacientes. Inclusive grávidas. Nunca fazemos isso com pacientes nesse estado, mas fomos obrigados para tentar manter a oxigenação de duas mães, uma de 25 e outra de 28 anos.

Aquilo me tocou profundamente. Tenho colegas que haviam voltado de licença-maternidade há pouco tempo e também se emocionaram. A que ponto chegamos?

As duas mães passaram por cesárea de emergência e seguem intubadas há mais de 20 dias. Os bebês estão bem.

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