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Rendesivir: o que sabemos sobre remédio aprovado para tratar covid-19

Rendesivir tem licença aprovada para uso no Brasil pela Anvisa - iStock
Rendesivir tem licença aprovada para uso no Brasil pela Anvisa Imagem: iStock

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

12/03/2021 11h09Atualizada em 15/03/2021 11h12

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) anunciou nesta sexta-feira (12) a autorização do uso do medicamento antiviral rendesivir para o tratamento da covid-19.

O medicamento já vinha sendo estudado no Brasil desde junho de 2020, quando a agência autorizou um estudo clínico em pacientes hospitalizados com pneumonia grave provocada pela infecção do novo coronavírus (Sars-CoV-2).

Tanto o pedido de autorização para o estudo como para a utilização foram feitos pela empresa PPD do Brasil Suporte a Pesquisa Clínica Ltda. Hoje, o medicamento está aprovado ou autorizado para uso temporário para tratar pacientes com covid-19 em mais de 50 países, entre eles EUA, Austrália, Canadá, UE, Hong Kong, Índia, Israel, Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan e Emirados Árabes Unidos.

Quais são os resultados trazidos pelo rendesivir?

Desenvolvido para combater o ebola, o rendesivir é um antiviral que já havia apresentado bons resultados para tratar pacientes infectados pelos outros coronavírus causadores da Sars e da Mers.

O medicamento já vinha sendo utilizado nos EUA para tratar pacientes graves com covid-19. Por lá, a substância foi autorizada pelo FDA (órgão regulador do país) para essa finalidade desde o dia 1 de maio de 2020.

Segundo a Gilead Brasil, fabricante do medicamento, estudos como a pesquisa conduzida pelo Instituto Nacional Americano de Saúde (NIH, na sigla em inglês), feita com 1.063 pacientes nos EUA, na Europa e na Ásia, demonstraram que pacientes hospitalizados que receberam o rendesivir se recuperaram cinco dias mais rápido, em média —e pacientes com doença grave, sete dias mais rápido.

Os pesquisadores ainda concluíram que o medicamento reduziu a probabilidade de pacientes que estavam recebendo oxigênio em baixo fluxo progredirem para estágios mais graves, onde necessitariam de ventilação mecânica ou morte. Já no maior grupo de pacientes do estudo, aqueles que necessitavam de pouco oxigênio, houve uma redução significativa na mortalidade, de 9,9% para 2,6%. Os dados também apontam a redução da progressão (ou evolução) da doença.

Em entrevista coletiva, representantes da Anvisa declararam que "os dados fornecidos pelo laboratório mostraram que o uso do medicamento reduziu tanto o tempo de uso de suporte de oxigênio como nos dias de hospitalização. Diante do agravamento da pandemia no Brasil, esses dados foram determinantes para que a agência autorizasse o uso do rendesivir, pensando em desafogar o sistema de saúde."

Uso do medicamento já foi desaconselhado pela OMS

Mas nem todos os cientistas do mundo chegaram à mesma conclusão. Em outro estudo, feito por médicos chineses e publicado pelo periódico The Lancet, o antiviral teve pouco resultado entre os pacientes testados.

Em novembro do ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) desaconselhou o uso do rendesivir para o tratamento da covid-19. Na época, especialistas da instituição apontaram em um artigo publicado no British Medical Journal que não havia evidência de que o medicamento aumentaria a chance de sobrevivência ou diminua o risco de ventilação mecânica.

Em outubro, o estudo Solidarity, realizado com o apoio da OMS e desenvolvido para testar potenciais drogas contra a doença, já havia concluído que o rendesivir, a hidroxicloroquina e outros dois antivirais tiveram pouco ou quase nenhum efeito sobre os tempos de internação ou chances de sobrevivência de pacientes com covid-19.

A entidade ressaltou que, embora não existam evidências robustas da eficácia do remédio, isso não quer dizer que ele não possa ter benefícios para alguns pacientes. No entanto, diante da falta de evidências, dos possíveis riscos associados ao uso do remédio e do seu alto custo, os especialistas julgaram adequado não recomendar o uso, mas apoiaram a realização de mais testes clínicos sobre o tema.

Para a médica Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, embora o rendesivir seja uma droga segura, ainda é preciso aguardar mais estudos para ter certeza dos benefícios ou não do uso em pacientes com covid-19. "Até agora, o que vimos é que os resultados não foram robustos em todos os pacientes", avalia. "É um medicamento promissor, mas não é um remédio milagroso", acredita.

Rendesivir não será vendido em farmácias

A Anvisa já informou que o uso do medicamento está restrito aos hospitais e que o remédio não será comercializado em farmácias. Essa informação, inclusive, virá tanto na bula como na embalagem do rendesivir. Seu uso recomendado é apenas para pacientes hospitalizados em estado grave, que necessitam de suporte de oxigênio pelo nariz (mas não pacientes intubados).

Apenas o laboratório Gilead poderá comercializar a droga no Brasil e a Anvisa ainda aguarda a informação sobre a quantidade de doses disponíveis para compra.

De acordo com Eric Bassetti, diretor médico associado da Gilead no Brasil que falou a VivaBem, o laboratório tem condições de atender à demanda mundial por doses do medicamento. "Mais de três milhões de pacientes já usaram o rendesivir no mundo no tratamento da covid-19 e aumentamos nossa capacidade de produção para suprir essa demanda", explica.

Ele explica ainda que o medicamento deve ser utilizado uma vez por dia durante cinco dias por meio de uma infusão intravenosa —daí a necessidade de se utilizar apenas em ambiente hospitalar. "O recomendado é que o medicamento seja ministrado em pacientes que estejam no suporte de oxigênio, mas ainda sem intubação", afirma. "Há uma janela de oportunidade que deve ser respeitada a fim de impedir a progressão da doença para a sua forma mais grave."

O diretor, no entanto, afirma que o medicamento não é uma "tábua de salvação". "Ele vai servir para reduzir as mortes, mas ainda temos um longo caminho pela frente e precisamos manter as medidas de prevenção como distanciamento social, higiene das mãos e uso de máscaras", afirma.

Questionada sobre a grafia do nome do remédio, a assessoria de imprensa da Gilead afirmou que mudou aqui no Brasil, de remdesivir —como é usado mundialmente— para rendesivir. Segundo eles, "foi uma exigência da Anvisa".

*Com informações de reportagens publicadas em 25/06/2020 e 21/11/2020.

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