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Um ano de pandemia: os remédios que seguem em teste e quais não funcionam

Não existe tratamento precoce para covid-19 - iStock
Não existe tratamento precoce para covid-19 Imagem: iStock

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

11/03/2021 18h18

Após um ano da pandemia do novo coronavírus, cientistas e pesquisadores seguem procurando remédios que possam auxiliar no combate à covid-19. Entretanto, diversos medicamentos continuam sem evidência científica que funcionem (como a cloroquina), enquanto outros são indicados em situações pontuais (como os corticoides).

"Não existe tratamento precoce nem profilático [preventivo] contra a covid-19. Ainda não há nenhum estudo que comprove que algum remédio seja eficaz no manejo precoce da doença", diz Layla Almeida, infectologista no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ) e clínica geral do Hospital São Vicente da Gávea (RJ). O que é indicado são os medicamentos que controlam os sintomas de pessoas infectadas, como os antitérmicos em casos de febre, por exemplo.

Os especialistas explicam que, neste momento, principalmente com o surgimento de novas cepas, seria interessante que medicamentos pudessem servir de auxílio no combate da doença, atuando de forma complementar à vacinação.

Mas se os cientistas achassem um remédio neste momento, ele seria mais eficaz para conter o vírus do que a vacina? De acordo com João Pratts, infectologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, as duas opções são importantes, mas as vacinas têm mais vantagens porque não precisam de tantas etapas como a utilização de um medicamento, que também envolve mais custos.

"As vacinas sempre serão mais eficazes porque evitam não só as mortes, mas também o contágio. A pessoa toma a vacina uma vez, está protegida e não vai transmitir mais a doença", explica o médico. "Já na medicação, o paciente precisa identificar que está doente, procurar ajuda, realizar exames, administrar medicamentos e ter um acompanhamento médico".

Enquanto nenhum remédio é aprovado, o VivaBem separou os principais medicamentos que estão sendo pesquisados no momento. Alguns, já com estudos que mostram sua ineficácia. Confira:

  • Cloroquina/Hidroxicloroquina

A cloroquina e hidroxicloroquina, remédios usados no tratamento de doenças como lúpus e artrite reumatoide, seguem sem eficácia comprovada para tratar a covid-19. Especialistas da OMS (Organização Mundial da Saúde), inclusive, aconselham "fortemente" contra o uso dos medicamentos para prevenir a doença.

Ambos remédios, de formulações diferentes, mas que levam a mesma substância, a cloroquina, também não devem ser usados como "tratamento precoce" contra covid-19 — não há nenhuma evidência científica que comprove seus benefícios contra a doença.

Pelo contrário, o medicamento de uso controlado pode ter efeitos colaterais, como distúrbio de visão, cefaleia e fadiga. Um estudo recente feito pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), inclusive, comprovou os efeitos tóxicos da cloroquina em células vasculares, por exemplo.

  • Antiparasitários

A ivermectina, antiparasitário capaz de combater vermes, parasitas e ácaros, também segue sem comprovação de eficácia para combater covid-19. Inclusive, a própria fabricante publicou um comunicado, em fevereiro deste ano, que não indica seu uso, pois não há evidências de que o medicamento traga benefícios ou seja eficaz no tratamento.

Outro antiparasitário, a nitazoxanida, vendido no Brasil sob a marca Annita, teria demonstrado eficácia no tratamento da doença, mas em pacientes na fase precoce da covid-19, segundo pesquisa feita pelo Laboratório Nacional de Biociências, em Campinas (SP), instituto vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Entretanto, o estudo foi criticado e é visto com desconfiança por alguns médicos, principalmente pela falta de transparência do órgão.

  • Rendesivir

O antiviral Rendesivir, desenvolvido para combater o Ebola, foi autorizado pela Anvisa, em março, para ser usado no tratamento da doença no Brasil. Entretanto, em novembro de 2020, a OMS divulgou uma nota se posicionando contra o uso do antiviral no tratamento de pacientes hospitalizados com a doença.

Em um artigo publicado no British Medical Journal, um painel de especialistas da organização afirmou que o uso do remédio não é recomendado pois não há evidência de que ele aumente a chance de sobrevivência ou diminua o risco de ventilação mecânica.

O remédio, visto como um dos mais promissores tratamentos contra a doença no início da pandemia, chegou a ser utilizado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e teve aprovação pelo FDA, agência de regulação de medicamentos do país, mas apenas para pacientes hospitalizados.

  • Anticorpos monoclonais

Uma das opções tidas como promissoras é a terapia de anticorpos monoclonais (ou mAb, na sigla em inglês), que é um tipo de tratamento que poderia ser adotado tanto para prevenir a infecção quanto para tratar o paciente, uma vez que a doença tenha se desenvolvido.

Um deles é o tocilizumabe que, associado ao corticóide dexametosa, beneficiou pacientes internados com casos graves de covid-19, segundo um estudo ainda sem a chamada revisão de pares e publicação em revista científica, liderado pela Universidade de Oxford (Reino Unido). Ainda sem conclusões, o resultado é tido como promissor, mas são necessários mais estudos complementares. Também não há um grande consenso de que o medicamento, sozinho, seja eficaz e indicado.

  • Dexametasona

O corticoide é usado para aliviar inflamações e tratar doenças que requeiram ação imunossupressora como a artrite reumatoide, alergias, asma entre outras enfermidades. Em um estudo, pesquisadores da Universidade de Oxford afirmam que a droga reduz a incidência de mortes pela covid-19.

Segundo o infectologista da BP, o medicamento é apenas indicado em pacientes com quadros moderados e graves, que estão internados. "Para casos leves, quando a pessoa está bem, o uso de corticoide pode fazer muito mal neste início da doença. O benefício do medicamento só serve para pacientes de casos moderados e graves", diz. O remédio não deve ser usado sem prescrição médica e de forma precoce.

  • Heparina

De acordo com um estudo feito na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), além de ser eficiente para evitar quadros de coagulação — que têm sido observados em pacientes com a doença e podem afetar vasos de diferentes órgãos —, o medicamento parece também ser capaz de dificultar a entrada do novo coronavírus nas células. Os resultados do estudo, entretanto, ainda são preliminares e foram descritos em artigo publicado na plataforma bioRxiv, ainda em versão pré-print (sem revisão por pares).

O infectologista da BP explica que o anticoagulante é mais utilizado em pacientes internados por covid-19, como forma de prevenir uma trombose, por exemplo, e apenas baixas doses. "Só damos doses mais altas de heparina para pacientes que recebem diagnóstico de trombose".

  • Colchicina

O anti-inflamatório, utilizado há décadas no tratamento de gota, pode prevenir complicações da covid-19 mesmo antes da hospitalização, segundo resultados do teste clínico COLCORONA. Um outro estudo, dessa vez brasileiro, também havia mostrado que o medicamento ajudaria a combater a inflamação pulmonar e a acelerar a recuperação de pacientes com quadros moderado e grave da doença.

As conclusões desta última pesquisa foram divulgadas na plataforma medRxiv, em artigo ainda sem revisão por pares, portanto, ainda sem eficácia comprovada. Inclusive, o uso desse medicamento sem a supervisão de um profissional de saúde envolve sérios riscos, podendo levar à morte, quando há overdose, por sua toxicidade.

  • Plasma convalescente

Neste caso, o "remédio" viria do corpo de quem já se recuperou da covid-19. Os pesquisadores esclarecem que o plasma —parte líquida do sangue — de quem se curou tem anticorpos chamados de "neutralizantes", que podem ser úteis para compensar a incapacidade do sistema imunológico do indivíduo doente e antecipar sua melhora.

Entretanto, transfusões de plasma sanguíneo de doadores que superaram a covid-19 não teriam impacto em pacientes hospitalizados, segundo os resultados preliminares do maior estudo clínico do mundo, o Recovery, com 180 hospitais do Reino Unido.

  • Azitromicina

O tratamento com o antibiótico azitromicina se mostrou ineficaz na melhora clínica de pacientes graves por covid-19, segundo um estudo publicado The Lancet, uma das principais revistas científicas do mundo.

O antibiótico possui um efeito antibacteriano, comumente usado para combater doenças do trato respiratório, como a bronquite, pneumonia, sinusite, faringite, IST, entre outros quadros. A azitromicina, por ser um antibiótico, não ataca o vírus, mas sim as bactérias.

  • Células-tronco

Um estudo realizado por especialistas do Diabetes Research Institute e da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, mostrou que infusões de células-tronco podem reduzir o risco de morte e acelerar o tempo de recuperação dos pacientes com casos mais graves de covid-19. Em um mês, mais de 85% dos pacientes que receberam as infusões de células tronco sobreviveram, contra 42% no grupo de controle, que receberam placebo. Entretanto, o estudo foi realizado apenas com 24 pessoas e necessitaria, então, de maiores ensaios clínicos.

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