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Zerar carga viral (e saber disso) é libertador para pessoa que vive com HIV

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Imagem: Getty Images/iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

29/10/2020 04h00

Manter a carga viral indetectável é a garantia que uma pessoa que vive com HIV vai ter uma vida saudável. Por isso, quase tão importante como ter essa carga de vírus suprimida está o direito à informação sobre isso.

"Carga viral indetectável é a coisa mais importante no tratamento de uma pessoa que vive com HIV, é a meta de ouro", afirma Rico Vasconcelos, infectologista da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). "Com isso estou impedindo a replicação do HIV, estou impedindo também que o vírus faça doença no corpo da pessoa", completa.

E é direito de toda pessoa com HIV ter acesso a informações sobre as ações diagnósticas e terapêuticas de seu tratamento. O exame de carga viral é coberto pelo SUS (Sistema Único de Saúde), assim como consultas e medicamentos.

Uma das grandes vantagens da carga viral indetectável, explica Vasconcelos, foi descoberta recentemente. "Ficou demonstrado que existe um segundo benefício: o de não-transmissão para outras pessoas por via sexual, mesmo que a relação seja feita sem preservativo. Isso é uma informação libertadora e transformadora para a pessoa que vive com HIV e para as pessoas com quem ela se relaciona", afirma.

Remédios para chegar a carga zero

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Para se alcançar a carga viral indetectável é necessário manter um tratamento à risca com uso de antirretrovirais —drogas usadas de forma combinada desde 1996 para manter a carga viral indetectável.

O infectologista ressalta que os remédios estão evoluindo e reduzindo os efeitos colaterais nos pacientes. "Eles estão ficando cada vez mais potentes contra o HIV, e ficado cada vez menos tóxicos em termos de efeitos colaterais. E assim a gente está conseguindo também fazer um movimento de simplificação dos esquemas, ou seja, utilizando menos drogas. O que vemos no futuro são as medicações de longa duração, seja por um antirretroviral injetável, sejam por medicações com uma meia vida mais comprida. Com todos esses avanços, vai ficando cada vez mais fácil que as pessoas consigam encontrar uma maneira de manejar o HIV que caiba no seu contexto de vida", explica.

Relação médico-paciente

Todos esses avanços, porém, passam pela importância de uma boa relação entre médico e paciente. A importância dessa informação clara foi alvo de uma pesquisa coordenada por 11 cientistas e que avaliou como essa relação é associada a resultados favoráveis para as pessoas que vivem com HIV.

O levantamento contou com 2.389 participantes de 25 países, entre eles o Brasil, que foram questionados sobre pontos de sua relação com os profissionais de saúde que o acompanham.

Em geral, um em cada três participantes indicou não entender o suficiente sobre o seu tratamento —percentual que cresce entre aqueles recentemente diagnosticados. Já três em cada quatro pessoas que vivem com HIV demonstraram preocupação com o impacto a longo prazo de sua medicação.

"Nossos resultados sugerem alfabetização em saúde limitada entre um grupo de considerável proporção de pessoas que vivem com HIV", diz a pesquisa.

Outro ponto que chama a atenção é que entre os participantes que sentiram que sua medicação para o HIV limitou sua vida, 49% dizem que não discutiram suas preocupações com o provedor por entenderem que nada poderia ser feito. "Para continuar a identificar e abordar as necessidades de tratamento não atendidas entre pessoa que vive com HIV, os provedores precisam garantir que há um diálogo aberto contínuo", diz o estudo.

A conclusão da pesquisa é que a boa qualidade no envolvimento de uma pessoa que vive com HIV com a equipe médica que o trata foi associada a melhores resultados relacionados à saúde.

Dedicação do paciente é essencial

Lembrete para tomar remédio - iStock - iStock
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Há 11 anos atuando em tratamento de pessoas com HIV, Mardjane Lemos, infectologista do Hospital Escola Hélvio Auto, da Uncisal (Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas), ressalta que manter o paciente informado é uma garantia de qualidade de vida para quem vive com o vírus e seus companheiros.

Além disso, a certeza da carga indetectável pode ser apontada como uma eficiente estratégia de controle do HIV. "A gente sabe que essa carga indetectável não transmite, e o paciente sabe disso também", afirma.

Ela lembra que o Brasil tinha pactuado a meta 90 90 90. A meta aponta que 90% das pessoas vivendo com HIV conhecerão seu status sorológico; dessas, 90% receberão terapia antirretroviral de modo contínuo e delas, 90% terão supressão viral. "Essa estratégia seria a chave do controle da epidemia, mas o Brasil não vai
alcançar isso este ano", afirma.

Lemos destaca que o sucesso do controle da carga passa pela dedicação do paciente. "Essa supressão é uma conquista diária da pessoa, porque uma vez zerada, não significa que vai ser sempre: ele precisa tomar a medicação, precisa estar muito claro que ele é o protagonista da saúde dele", explica.

Segundo ela, o exame para detectar é simples: uma coleta de sangue a cada seis meses. "A gente aproveita ainda a coleta para saber se ele está bem, pede outros exames para avaliar o controle de colesterol, do rim, do fígado. É um direito dele fazer duas por ano, de graça, pelo SUS", afirma

Ainda segundo a médica, não existe estágio de vírus que não seja passível de tratamento, e todo paciente é informado da importância de fazer o tratamento e fazer exames para manter a saúde. "Não existe vírus que não consiga ser controlado. Uns demoram um pouco mais, outros um pouco menos, da quantidade inicial, mas 100% consegue ser controlado, independe do estágio em que chegue", afirma.

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