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Canabidiol pode ser aliado de mulheres que sentem dor e desconforto no sexo

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Imagem: Istock

Priscila Carvalho

Do VivaBem, em São Paulo

08/10/2020 04h00

Depois de passar por uma cirurgia de endometriose no começo do ano, a médica Lorena Santana*, 34, começou a sentir muitas dores durante o sexo. "Tinha muito desconforto. Numa escala de 0 a 10, chegava a ser 7 e era bem incômodo", afirma.

Em um primeiro momento, sua ginecologista recomendou o uso de lubrificantes e até ansiolíticos, mas Lorena preferiu não tomar nenhum remédio. Depois de inúmeras tentativas com lubrificante, o desconforto na região vaginal só piorava e era cada vez mais difícil ter relações sexuais com o marido.

Foi aí que, durante uma nova consulta ginecológica, sua médica recomendou o uso do canabidiol, ou CBD, durante o sexo. O produto não funciona como gel lubrificante e não é encontrado em sex shops. Para comprar a substância, a paciente precisa ter a prescrição de um médico.

E não demorou muito para Lorena ver os efeitos do CBD. "Estou usando há aproximadamente dois meses e, desde então, o nível de dor diminui para 2. Antes, era bem desconfortável", conta.

A médica afirma ainda que a vida sexual melhorou muito e, hoje, tem qualidade de vida como um todo. "Coloco uns dois minutos antes de começar o sexo. Estou me sentindo bem melhor, mais confiante e quase sem dor nenhuma. Melhorou a vontade de transar também." Geralmente, a indicação é aplicar um pouco da palma das mãos e passar nas zonas erógenas antes da relação sexual.

Canabidiol 2 - Istock  - Istock
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Como o produto age no organismo

Quem sofre com dores durante o ato sexual pode ter problemas ligados a questões emocionais ou físicas. O CBD —princípio ativo da maconha— atua no alívio da dor.

Ele vai se ligar a receptores do corpo, do tipo vaniloide, e provocar uma dessensibilização, diminuindo o incômodo na região antes ou durante o sexo. "Ele age como anti-inflamatório também, já que provoca uma inibição das substâncias pró-inflamatórias e reduz o desconforto em determinado lugar", explica Ailane Araújo, médica integrativa e fundadora do Centro Brasileiro de Referência em Medicina Canabinóide (CBRMC).

Além de agir na dor, o produto pode auxiliar na ansiedade, ajudando na transmissão da serotonina. Araújo ressalta ainda que o canabidiol auxilia no controle e no aumento da libido.

Foi o caso de Daniele Oliveira*, que está usando o produto há dois meses e sofre com quadros de ansiedade severos. Ela não tinha vontade nenhuma de fazer sexo. "Os antidepressivos diminuem muito a libido, chega a ser bem desconfortável. Pedi orientação para o meu psiquiatra e ele me recomendou", diz.

A paulista conta ainda que todo o processo era ruim: desde as preliminares até o final, dificultando muito chegar no orgasmo. "Depois que comecei a usar, meu marido também sentiu diferença e hoje está bem melhor."

Canabidiol desenvolvido na USP chega às farmácias; compra requer receita - iStock - iStock
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A maconha como tratamento no sexo

Dois princípios da maconha são usados na medicina:

Canabidiol (CBD)

Age como analgésico, sedativo e anticonvulsivo e é usado no tratamento de doenças como esclerose múltipla, epilepsia, Parkinson, esquizofrenia, dores crônicas e dores no sexo.

Ele é o mais usado nesse tipo de tratamento, já que é administrado em baixas dosagens. A substância ajuda principalmente no relaxamento da musculatura, mas não vai promover sensações fortes de orgasmo.

O CBD geralmente é vendido na forma de um óleo extraído da planta da maconha, a cannabis, por meio de um processo artesanal. Também é possível comprá-lo com um nível maior de processamento, mas medicamentos específicos precisam de autorização individual da Anvisa.

Tetrahidrocanabidiol (THC)

É usado como antidepressivo, estimulante de apetite e anticonvulsivo. O extrato tem sido aplicado no tratamento de Parkinson, esclerose múltipla, síndrome de Tourette, asma e glaucoma.

Ele não é o mais indicado para esse tipo de problema, já que promove sensações intensas. "Ele pode até potencializar o orgasmo, mas não é o melhor para alívio da dor", ressalta Araújo. Além disso, é contraindicado em pacientes que têm surtos, esquizofrenia e outras doenças psiquiátricas.

Vulva, vagina - iStock - iStock
Imagem: iStock

Quando usar o canabidiol?

Primeiro de tudo, é fundamental que um médico investigue por que a mulher tem dor. Podem ser inúmeras causas como: vaginismo, vulvodínea, infecção, lesão. Por isso, se as queixas são frequentes e o sexo não é prazeiroso, vale uma investigação profunda e a procura pelo tratamento específico.

Alguns tratamentos podem ser complementares ou agir como silenciadores. É o caso do canabidiol que deve ser usado junto com outros tratamentos. "Dependendo do caso, a mulher pode fazer fisioterapia, exercícios pélvicos, usar algum antibiótico, terapia... Ele sozinho não faz milagre, pode ser um complemento nos cuidados", pondera Lilian Fiorelli, uroginecologista e especialista em sexualidade feminina pela USP.

A especialista indica aplicá-lo 15 minutos antes da relação sexual para conseguir fazer as preliminares e a penetração. Vale lembrar que ele não é indicado para estímulo sexual e, sim, para a dor. "Ele vai proporcionar uma qualidade melhor, a memória para o sexo ficará mais atrativa, contribuindo para a libido também", explica Fiorelli.

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Como adquirir o produto?

Existem duas maneiras de adquirir o produto. As próprias empresas, que revendem a substância, podem auxiliar o paciente fazendo o cadastro diretamente no site da Anvisa. E depois de solicitar todos os documentos necessários, que incluem dados pessoais, prescrição médica e certificado de importação junto ao órgão, realizam o pedido encaminhando para a residência da pessoa.

A outra opção é o próprio paciente entrar no site da agência, colocar os dados, prescrição médica e esperar o certificado de importação e exportação. Depois, é possível comprar o medicamento no site da empresa responsável.

*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.

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