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Idosos tratam Alzheimer com maconha; eficácia divide opinião de médicos

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Imagem: Istock

Priscila Carvalho

Do VivaBem, em São Paulo

04/02/2020 04h00

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou uma proposta para simplificar a importação de produtos à base de canabidiol, composto derivado da maconha, no dia 22 de janeiro. A medida pode facilitar o tratamento de pacientes que sofrem com doenças neurodegenerativas, tais como o Alzheimer.

É o caso do mineiro Samuel Costa*, 70, que foi diagnosticado há um ano e meio e começou a fazer uso da substância há cerca de duas semanas. "A doença avançou muito rápido e ele começou a ter dificuldade em várias situações. Estamos esperançosos", diz Beatriz Costa*, filha de Samuel.

No início do mês de dezembro do ano passado, a Anvisa liberou a venda de medicamentos à base de cannabis nas farmácias e drogarias do Brasil. Na prática, a liberação facilitava a compra de remédios feitos com substâncias provenientes da maconha, que não dependiam mais de uma importação direta dos medicamentos. Embora o processo tenha ficado mais "fácil", plantar maconha, mesmo que seja para fins medicinais, ainda é proibido.

O tema ainda é considerado tabu e traz muito debate entre a classe médica. Alguns especialistas são reticentes em receitar compostos derivados da maconha, alegando falta de estudos em humanos. Já outros acreditam que o cannabis pode ajudar, sim, pacientes com Alzheimer e outras doenças.

O VivaBem acompanhou quatro pacientes que têm Alzheimer e começaram a tratar a doença com cannabis. Seus familiares contam a experiência abaixo.

"Meu pai era agressivo, parecia não ter alma. Hoje, está mais calmo"

Ivo Suzin, 58, usa há um ano

Ivo Cannabis  - wildesfoto - wildesfoto
Imagem: wildesfoto

"Meu pai foi diagnosticado com Alzheimer muito novo, com apenas 52 anos. Ficamos em choque e a doença avançou muito rápido. Os sintomas eram os piores possíveis e lembro que um dia ele chegou a nos agredir e tentou até enforcar minha mãe. Ele parecia não ter mais 'alma', ficava com um olhar vago e precisava de ajuda para tudo.

No começo, minha mãe se mostrou avessa ao cultivo da maconha, mas depois de muita pesquisa, a convenci. Eu percebi a melhora depois do tratamento com a planta, que se iniciou em janeiro de 2019. E no início do ano ganhamos o direito de plantar a maconha de forma terapêutica e hoje eu mesmo a extraio e dou para o meu pai. Os resultados foram surpreendentes. Hoje, mesmo não sabendo meu nome, ele fica bem mais calmo, sorridente e chega até a me abraçar e beijar. Apresentou melhora no sono e até para comer. Temos paz e ganhamos qualidade de vida". (Felipe Suzin, filho de Ivo)

"Com o canabidiol, ele conseguiu se lembrar dos bisnetos"

Walter Selani, 86, usa há sete meses

"Demorou um pouco o diagnóstico, mas os sintomas já vinham se manifestando. Nós já tínhamos um agravante, porque ele é surdo e depois que foi diagnosticado com Alzheimer, seguir nossas orientações ficou mais difícil. Ele colocava o aparelho de audição no bolso, às vezes perdia, então, era bem complicado. A doença foi evoluindo e ele ficou cada vez pior, com comportamentos agressivos e chegava até a agredir minha mãe.

Quando descobrimos o canabidiol, fomos atrás e hoje ele está bem melhor. Toma duas cápsulas gelatinosas por dia e o comportamento melhorou e muito. Ele começou a interagir mais, reconhecer os bisnetos, montar frases conexas. Nunca deixamos de dar o remédio da doença. O canabidiol serve de complemento e o resultado é satisfatório". (Walter Selani Junior, filho de Walter)

"Ela dorme melhor, não faz xixi na cama e a depressão reduziu"

Marilene Souza*, 85, usa há três meses

"Minha mãe sempre foi muito ativa e, depois do Alzheimer, começou a ter muitos problemas. Ela gostava muito de cozinhar e deixou de fazer várias atividades. Ela sofria com incontinência urinária, tinha quadros depressivos e muitas alucinações.

Depois que ela começou a usar o canabidiol, a qualidade de vida e o comportamento melhoraram muito. Hoje, ela dorme tranquilamente, não tem mais incontinência urinária e o quadro depressivo melhorou. Atualmente, ela só tem algumas alucinações, mas do ponto de vista comportamental, está bem melhor. E acho que realmente o óleo ajudou nesse processo". (Suzana Silva*, filha de Marilene)

"Estamos confiantes e já senti mudanças em seu comportamento"

Samuel Costa, 70, usa há duas semanas

"Meu pai foi diagnosticado um ano e meio atrás. Antes da doença, ela teve um AVC e aparentemente ficou sem sequelas. Mas a gente percebeu que ele estava com muita dificuldade de memória, fomos procurar médicos e descobrimos que era Alzheimer. Avançando de forma rápida, a doença começou a afetar várias atividades do dia a dia.

Às vezes, ele chega em frente ao bebedouro e não sabe como pegar água, toma banho e não usa sabonete, sempre temos que orientá-lo, em tudo. Ele está usando há pouco tempo, mas estamos confiantes e senti uma ligeira melhora no aspecto comportamental. Senti ele um pouco mais calmo". (Beatriz Costa, filha de Samuel)

A maconha como tratamento alternativo

Dois princípios da maconha são usados na medicina:

  • Canabidiol (CBD): Age como analgésico, sedativo e anticonvulsivo e é usado no tratamento de doenças como esclerose múltipla, epilepsia, Parkinson, esquizofrenia e dores crônicas.
  • Tetrahidrocanabidiol (THC): É usado como antidepressivo, estimulante de apetite e anticonvulsivo. O extrato tem sido aplicado no tratamento de Parkinson, esclerose múltipla, síndrome de Tourette, asma e glaucoma.

O CBD geralmente é vendido na forma de um óleo extraído da planta da maconha, a cannabis, por meio de um processo artesanal. Também é possível comprá-lo com um nível maior de processamento, mas medicamentos específicos precisam de autorização individual da Anvisa.

O que dizem os médicos

Indicar a cannabis para pacientes que sofrem com Alzheimer ainda é um tema controverso dentro da própria classe médica. Alguns especialistas rechaçam o uso do medicamento e acreditam que faltam estudos para evidenciar a eficácia do tratamento com maconha em humanos.

Rodrigo Shultz, presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) e professor titular de neurologia da Unisa (Universidade de Santo Amaro), em SP, acredita que o canabidiol não é para todas as pessoas e, muitas vezes, a venda do óleo é feita de forma precária e ilegal. Para ele, a doença é extremamente heterogênea e não podemos definir melhoras com o óleo. Ele afirma não ser contra o medicamento, e sim, "o uso imoral da substância e a falta de estudos".

"Eu não receito para os meus pacientes, pois acredito que não existem evidências concretas em humanos sobre o tema. Ainda acho que a melhora em alguns sintomas não acontece somente pelo uso da substância. No caso da melhora comportamental ou até incontinência urinária, isso pode ocorrer por diversos fatores como banho de sol, caminhadas, zelo por parte da família, é um tema muito amplo", diz.

Para Sônia Brucki, neurologista do grupo de neurologia cognitiva e comportamental do Hospital das Clínicas de São Paulo, tratar o Alzheimer com cannabis é um caminho para a doença e quem sabe a cura no futuro.

No entanto, segundo ela, faltam mais estudos em humanos para aperfeiçoar esse tipo de tratamento. "A maioria dos estudos em humanos foram de cunho comportamental, ainda falta investir na parte cognitiva. Quando os estudos foram feitos em animais, o canabidiol e THC se mostravam eficientes na redução da proteína betaamiloide. Teve efeito anti-inflamatório, além de agir no mecanismo neurodepressivo", explica.

Leandro Ramires, cirurgião oncológico e mastologista do Hospital das Clínicas de Minas Gerais e presidente da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal, acredita que não disponibilizar o cannabis para pacientes com Alzheimer é uma má prática médica.

"O canabidiol não deve ser usado como tratamento único, mas sim como uma terapia complementar. Não disponibilizá-lo e ainda acreditar que ele não é seguro é ruim. Além de uma melhora na qualidade de vida do cuidador, o idoso com Alzheimer terá melhora no sono, na agressividade, não levantará tantas vezes durante a noite para fazer xixi. Os efeitos são evidentes", finaliza.

*Nomes trocados a pedido dos entrevistados

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