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Por que os homens fogem dos médicos?

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Imagem: iStock

Da Agência Einstein

30/09/2020 12h27

Em janeiro deste ano, a jornalista Ashley Oerman chamou a atenção por uma reação inesperada à então recém-lançada coleção "bem-estar" das bonecas Barbie.

Em artigo publicado na versão norte-americana da Cosmopolitan, a diretora-adjunta da revista afirmou que a nova edição das bonecas mais famosas do mundo - que trazia personagens caracterizadas como saudáveis, preocupadas com a alimentação e adeptas às atividades físicas - também estaria transmitindo uma mensagem subliminar às meninas: "Estamos dizendo a elas que isso [investir em saúde e bem-estar] é o que precisam fazer para serem adultas bem-sucedidas".

Depois, em entrevista à rádio BBC, lançou uma nova provocação: "Ao mesmo tempo, não vemos mesma a mensagem no mercado para os meninos, apesar de essa ser uma questão que diz respeito a ambos os gêneros", observou.

A discussão levantada por Ashley retoma uma constatação histórica: mulheres são mais preocupadas com a saúde do que os homens. No Brasil, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada pelo IBGE recentemente, a proporção de mulheres que consultou um médico em 2019 foi superior à dos homens (82% contra 69%), ainda que ambos os gêneros tenham, por exemplo, taxas similares de cobertura em planos de saúde. Mesmo entre homens que vão ao consultório, a influência feminina tem um grande papel: sete em cada dez só procuram um médico após a insistência da mulher ou dos filhos, segundo o Ministério da Saúde.

A diferença é constatada ainda na busca por informações. De acordo com o jornalista Diogo Sponchiato, editor de uma das principais revistas especializadas em saúde no País, as mulheres representam 65% do total de leitores do veículo. E elas também são as mais engajadas no tema. "Embora, nos últimos anos, o interesse dos homens por esse tipo de conteúdo tenha crescido, as mulheres seguem mais atuantes, inclusive, a grande maioria das perguntas e sugestões de pautas que recebemos são trazidas por elas", comenta Sponchiato.

A negligência masculina tem o seu preço. Segundo o Ministério da Saúde, a cada três pessoas que morrem no Brasil, duas são homens, sendo que apenas as doenças no aparelho circulatório e as neoplasias (tumores) são responsáveis por mais de 40% dos óbitos. Na pandemia, o índice de mortalidade masculina pela Covid-19 tem sido bem maior: cerca de dois terços das mortes no mundo são de homens, apesar de a taxa de infecção entre os gêneros serem semelhantes, como apontou um levantamento divulgado pela Global Health 50/50, em julho.

Virilidade, medo de doenças e tabu com o corpo

Há tempos busca-se entender as razões do comportamento masculino em relação à saúde. Um estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz, identificou, entre homens de diferentes níveis de escolaridade - incluindo dez médicos -, que, além de amarras culturais, como o imaginário da "virilidade" (que dificulta a adoção de práticas de autocuidado), outras barreiras que afastam os homens dos consultórios seriam o medo de descobrir uma doença grave e a vergonha de expor o corpo.

O tabu com o corpo é também uma das explicações pelas quais os homens são muito mais resistentes aos cuidados com a saúde sexual. Enquanto mais de 50% dos brasileiros jamais consultaram um especialista na área (dados da Sociedade Brasileira de Urologia - SBU), cerca de 80% das mulheres costumam ir frequentemente ao ginecologista, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Porém, de acordo com o presidente da SBU, Antonio Pompeo, existe um fator mais importante para essa diferença:

"Tem uma questão educacional nisso. A mulher, desde a adolescência, é incentivada pelos pais a ir ao ginecologista, enquanto os homens só vão procurar um urologista após 50 anos, quando começam os problemas de disfunção sexual e o risco do câncer de próstata. Isso acontece porque as mulheres sofrem alterações mais perceptíveis na juventude, e, desde novas, adquirem o hábito de consultar um especialista. Com os homens, essa cultura não existe", explica.

Uma pesquisa recém-publicada pela SBU mostrou que apenas 1% dos jovens até 18 anos já foi ao urologista. Por outro lado, mais de um terço das adolescentes da mesma faixa etária faz visitas anuais ao ginecologista.

"Idealmente, o homem deveria ir mais precocemente e com uma periodicidade maior, realizar exames preventivos, pois uma das razões pelas quais o câncer de próstata tem sido tão fatal, por exemplo, é eles não fazerem o exame precoce", acrescenta Pompeo.

Segundo o presidente da SBU, esse quadro vem mudando nos últimos anos: mais homens têm procurado especialistas de maneira preventiva. E as mulheres são, em boa parte, responsáveis por essa transformação:

"Um fenômeno interessante é que, atualmente, muitos homens estão indo ao médico por incentivo das mulheres. Em boa parte, é graças a essa preocupação com a saúde que a nossa expectativa de vida aumentou nos últimos anos", completa o urologista.

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